quinta-feira, julho 07, 2005

Deformação

Aborreci-me há uns tempos com Casimiro Rodrigues por mor das alterações que ele, da sua lavra, resolve fazer nos textos que publica no Portugal Club.
Deixei passar o tempo e até já falei com ele por telefone, depois disso. Não tenho nada contra o homem e o seu voluntarismo; mas é meu direito o de exigir que não aponham a minha assinatura no que não escrevi e que não façam montagens com textos meus e de estranhos, de forma a iludir os leitores sobre as mensagens e a sua autoria.
Casimiro passou por aqui, copiou meia dúzia de textos e publicou-os, com o arranjo gráfico que entendeu, como se eu lhos tivesse mandado para publicação.
Não gostei.
Enviei-lhe um post com o seguinte teor:
«Não tenho nada contra o facto de o Sr. Casimiro Rodrigues reproduzir o que vou escrevendo no meu blogue…
É público e está acessível para todos.
O que não posso aceitar é que coloque a minha assinatura no que não escrevi e que deforme, por via do tratamento gráfico que dá aos textos, o que efectivamente escrevi.
Para que as pessoas possam comparar o que escrevi com o que consta do texto original, agradeço que as remeta para o endereço de onde tirou os textos.
Pode citar á vontade mas não pode deformar indevidamente o que vou escrevendo noutro local e apresentá-lo como mensagens que eu tenha enviado ao Portugal Club.
Cumprimentos

Miguel Reis»

quarta-feira, julho 06, 2005

Surreal... Posted by Picasa

O discurso de Braga

Reproduzo a notícia da Lusa, tal como ela me chegou:
«O secretário de Estado das Comunidades, António Braga, anunciou hoje que o modelo de recenseamento eleitoral para os portugueses que vivem no estrangeiro vai ser alterado, ficando os emigrantes automaticamente recenseados quando recorrerem ao consulado.
"Nenhum acto consular ficará consumado sem que se preencha o campo de recenseamento", disse António Braga na sessão de encerramento do plenário mundial do Conselho das Comunidades Portuguesas (CCP), que decorreu entre quarta-feira e hoje na Assembleia da República, em Lisboa.
O novo modelo de recenseamento eleitoral dos emigrantes insere- se na reorganização dos serviços consulares que o Governo quer fazer e irá permitir aos portugueses que residem no estrangeiro efectuar actos consulares através da Internet. De acordo com o secretário de Estado, o Executivo está actualmente a fazer uma avaliação das necessidades e só depois é que se iniciará a reorganização dos consulados.
António Braga adiantou ainda que a figura dos cônsules honorários também será alterada e passará a não praticar actos consulares.
"A nossa ambição é no final da legislatura ter cônsules honorários a realizar a sua missão, que passa pela representação de Portugal, abrir portas para Portugal e para os portugueses nos países de acolhimento", afirmou, acrescentando que os actos consulares serão praticados nos postos consulares.
Em declarações aos jornalistas, o secretário de Estado garantiu ainda que o CCP não vai ser consagrado na Constituição portuguesa no âmbito da alteração que o Governo pretende fazer na estrutura daquele órgão consultivo.
A consagração na Constituição daquele órgão de consulta do Governo é uma das principais reivindicações dos conselheiros das comunidades portuguesas.
"O programa do Governo não atende a essa pretensão (consagrar na Constituição o CCP) e não será essa a nossa proposta", sublinhou, escusando-se a avançar com os projectos de alteração à estrutura orgânica do CCP.
António Braga garantiu ainda que o Governo vai ouvir o CCP sobre estas e outras matérias relacionadas com as questões dos emigrantes. Sobre outra preocupação dos conselheiros, a contagem do tempo de serviço militar para efeitos de reforma, o responsável pela pasta da Emigração afirmou estar a cooperar com os ministérios da Defesa e do Trabalho no sentido de apresentarem uma alteração legislativa que abranja os emigrantes nessas situações.
No entanto, garantiu que só os emigrantes residentes na União Europeia ou em países com acordos bilaterais no âmbito da segurança com Portugal irão beneficiar da contagem do tempo de serviço militar.
Por outro lado, realçou que durante o seu mandato pretende incluir nas visitas que efectua junto das comunidades portugueses empresários "para que se estimulem parcerias".
Mobilizar as comunidades portuguesas para a inserção e participação cívica nos países de acolhimento é outro dos objectivos do secretário de Estado das Comunidades, que pretende igualmente integrar o movimento associativo dos emigrantes na rede nacional das associações portuguesas para que realizem parcerias. »
Não se pode exigir mais de quem está há 100 dias no Governo... O secretário de estado não está, claramente, dentro dos assuntos de que tem de tratar. Mas se tiver vontade, aprenderá.
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Poluição subsidiada

Outra carta sem resposta foi a que enviei no dia 4 de Maio ao Ministro do Ambiente.
Enviei cópia à Quercus na mesma data. Também a associação ambientalista não disse nada.
Interessante é observar os resultados das análises que chegaram há dois dias do Canadá.
Revelá-las-ei depois de enviar a queixa que estamos a preparar para enviar à Comissão Europeia e a diversas organizações ambientalistas internacionais.


Exmº Senhor
Ministro do Ambiente do Ordenamento
do Território e do Desenvolvimento Regional
Engº Francisco Nunes Correia


Representamos a sociedade Jorgen Mortensen - Sociedade de Investimentos Imobiliários S.A., com sede na Marinha Grande.
Esta sociedade adquiriu, em 1993, à Comissão Liquidatária da Fábrica Escola Irmãos Stephens S.A., o imóvel em que se encontra instalada a antiga fábrica de cristais com essa denominação.
A fábrica passou a ser explorada por uma empresa participada pela referida sociedade – a Jorgen Mortensen Limitada.
No momento da aquisição constatou o gerente dessas sociedades, Sr. Jorgen Mortensen, que existiam tanto nos terrenos que adquiriu como num terreno anexo, grandes quantidades (muitas toneladas) de escórias com metais pesados, provenientes da indústria.
Perante a gravidade da situação, o Sr. Jorgen Mortensen condicionou a aquisição do prédio à emissão pela referida comissão liquidatária de uma declaração que o desresponsabilizava pelos danos ambientais decorrentes de tais depósitos (Ver.
http://photos1.blogger.com/img/244/2904/1024/Carta%20FEIS.jpg ).
O maior volume das escórias, com elevadas doses de chumbo e de cádmium, de acordo com as análises então mandadas fazer pelo Sr. Jorgen Mortensen, estava, porém, situado num terreno adjacente, denominado “Terreno da Cerca”.
Parte deste terreno foi arrendado à Jorgen Mortensen Imobiliária, tendo sido posteriormente dado em pagamento ao Instituto de Gestão Financeira da Segurança Social e por este instituto vendido à Câmara Municipal da Marinha Grande.
A comissão liquidatária da Fábrica Escola Irmãos Stephens deu de arrendamento à nossa constituinte uma parcela do referido terreno da Cerca, com a área de 1972 m2, área essa destinada à instalação de depósitos de gás, destinados ao abastecimento da fábrica.
Nem o Instituto de Gestão Financeira da Segurança Social nem a Câmara Municipal da Marinha Grande deram conhecimento à nossa constituinte do projecto de venda, sendo certo que a Jorgen Mortensen – Sociedade de Investimentos Imobiliários S.A. era, indicutivelmente titular do direito de preferência na aquisição do imóvel.
A Comissão Liquidatária da Fábrica Escola Irmãos Stephens e o Sr. Jorgen Mortensen estabeleceram, formalmente, um pacto de preferência a favor deste para as hipóteses de venda ou dação em pagamento, obrigando-se expressamente o vendedor ou o dador a informar o comprador ou o beneficiário da dação do ónus que gravava a transmissão.
Com o maior desprezo por estas obrigações o Instituto de Gestão Financeira da Segurança Social e a Câmara Municipal da Marinha Grande negociaram entre si a compra e venda do referido imóvel, sem notificarem a nossa constituinte para que exercesse, querendo, o direito de preferência.
Procurando cooperar com as autoridades municipais, a nossa constituinte disponibilizou-se para renunciar ao direito de preferência de que é titular, contra uma compensação pecuniária e a mudança dos depósitos de gás para outras instalações. Acordaram-se valores e condições para a resolução do contrato de arrendamento em que a nossa cliente é arrendatária.
Todavia, a Câmara Municipal da Marinha Grande, tendo embora acordado com a nossa constituinte numa saída negociada, que foi inclusivamente aprovada pelo executivo municipal, veio posteriormente a dar o dito por não dito, o que nos obriga a alterar o posicionamento que adoptamos, na expectativa da conclusão do negócio.
A Jorgen Mortensen – Sociedade de Investimentos Imobiliários S. A. só não introduziu em juízo a adequada acção de preferência porque, na base da boa fé, acordou numa solução negociada com a Câmara Municipal da Marinha Grande.
Não pode, por isso, aceitar que essa Câmara Municipal venha, como se adivinha, sustentar que caducou o direito de preferência da nossa constituinte, quando é certo que ela só não o exercer porque foi ludibriada pelo Presidente da Câmara Municipal.
Vai, por isso mesmo, a Jorgen Mortensen – Sociedade de Investimentos Imobiliários S.A. – pedir em juízo que lhe seja reconhecido o direito de preferência na aquisição do imóvel em causa.
Acontece que as obras realizadas pela Câmara Municipal o desvalorizam de forma insustentável.
Explicitando...
Seria absolutamente impossivel a um particular construir o que quer que fosse no referido terreno sem proceder previamente à sua despoluição. Todavia, a Câmara Municipal, com o mais grotesco desrespeito pelas leis e pelos direitos dos cidadãos, espalhou pelo terreno milhares de toneladas de escórias poluentes, que prejudicam a possibilidade de utilização daqueles solos.


São milhares e milhares de toneladas de resíduos com chumbo, cadmium e outros poluentes, que ali se foram acumulando ao longo de mais de 200 anos e que deveriam ter sido tratados com os devidos cuidados, em vez de serem enterrados à força de máquinas pesadas pelas autoridades municipais, junto de um curso de água.

No dia 28 de Abril de 2005, o Sr. Jorgen Mortensen, acompanhado por um engenheiro que lhe vem dando assistência nas questões ambientais, procurou recolher amostras de terra, na área do terreno que lhe está arrendada, tendo sido impedido de o fazer.
Os sacos com as amostras foram-lhe retirados por empregados de uma empresa contratada pela Câmara Municipal.
Só depois de ter sido chamada a polícia é que a esposa do Sr. Jorgen Mortensen, Ana Mortensen, conseguiu colher algumas amostras, no espaço limitado de terreno.
As fotografias da fase final do incidente podem ser vistas neste endereço:
http://jorgenmortensen.blogspot.com/
Pode Vª Exª ver no mesmo endereço fotos das alterações que a paisagem sofreu nos últimos dias.

É para nós muito sintomático o facto de as autoridades municipais terem adoptado os procedimentos que adoptaram, quando Jorgen Mortensen quis recolher amostras para análise e o impediram de o fazer. Quem não deve... não teme análises...
Mortensen não é um ecologista de ocasião.
Um dos compromissos que assumiu com o Estado português quando comprou os dois maiores «cancros» da indústria vidreira portuguesa (a J.Ferreira Custódio e a Fábrica Escolha Irmãos Stephans) foi o de produzir cristais sem chumbo, num tempo em que o Estado subsidiava generosamente os poluidores que usavam essa matéria-prima para dar toque ao vidro.
Talvez resida nessa circunstância uma das justificações da perseguição sistemática de que vem sendo alvo.

O Sr. Jorgen Mortensen está habituado a não ser ouvido.
Sabotaram-lhe a fábrica e nenhuma investigação foi realizada, apesar dos instantes apelos às diversas autoridades e poderes. O processo da sabotagem da fábrica foi literalmente abafado. Jorgen Mortensen ainda foi acusado de ofensa às autoridades judiciárias portuguesas apenas porque citou o relatório das Nações Unidas sobre o desenvolvimento humano, no qual Portugal figura nas primeiras linhas da corrupção.
Há toneladas de provas da sabotagem da fábrica, que ninguém quer investigar.

A empresa vidreira que melhor performance tinha no ano 2000 sofreu num curto período três violentos ataques:
a) O da sabotagem das suas instalações industriais, que a impediu de produzir durante vários meses;
b) O da paralisação com uma greve selvagem, logo após a descoberta da sabotagem, que a levou a perder o seus melhores clientes;
c) O da sabotagem do seu aparelho comercial por via da concertação de um ministro da Administração Interna e de um governador civil que, com o mais frontal desrespeito pelas leis, deixaram o poder cair na rua e permitiram, sem nenhuma reacção visivel, que a via publica fosse ocupada por entulhos, impedindo-se a entrada e saída de viaturas da fábrica.

Perdeu-se, com essa concertação toda a clientela... Foi um processo muito escuro, que carece de ser investigado, ao menos para que se faça história.

Senhor Ministro:

Vive-se na Marinha Grande um ambiente absolutamente mafioso... e eu quero acreditar que Vª Exª não estará disposto a envolver-se nele.
O nosso cliente comprou a Fábrica Escola Irmãos Stephens, assumindo consigo próprio o compromisso de a viabilizar e lhe traçar um novo destino.
Sempre lhe foi dito que aquele era um elemento essencial do património da cidade e da região. Agora, ao que tudo indica, está a ser torpedeado por uma operação de especulação imobiliária, talvez patrocinada pela própria Câmara Municipal que de um lado afirma que aquele espaço será sempre um espaço industrial e museológico e, do outro, vai montando uma negociata de terrenos, à custa do Polis, preparando-se para absorver, por métodos pouco claros, a área ocupada pelas instalações fabris da nossa constituinte.
O mais estranho é que tudo isto se faça com o alto patrocínio do Estado, das autoridades públicas e do próprio sindicato, afecto ao Partido Comunista, que tudo fez para lançar no desemprego os melhores trabalhadores vidreiros da Marinha Grande, não se sabe bem porquê.
Mais do que uma operação de requalificação urbana, o Polis da Marinha Grande é uma operação de especulação imobiliária sobre os terrenos da cerca da Fábrica Sthephens.

Os nossos clientes não são politicamente correctos e vão lutar até ao fim das suas energias, step by step.
Porque Vª Exª é, também, ministro do Ordenamento interpelam-no, por meu intermédio, questionando se o Governo tem algum projecto específico para a zona em que se encontra instalada a referida Fábrica, projecto esse que seja tão importante que justifique a destruição da única unidade vidreira da Marinha Grande com capacidade para satisfazer os padrões de qualidade exigidos no mercado internacional.
Mas é sobretudo em matéria de ambiente que os meus clientes reclamam a intervenção de Vª Exª, na qualidade de gerentes da Jorgen Mortensen – Sociedade de Investimentos Imobiliários S.A. e de cidadãos.

Consideram os meus constituintes que é fundamental proceder a uma imediata suspensão dos trabalhos do Programa Polis na parta que se reporta aos terrenos da Cerca pelas seguintes razões:
Havia milhares de toneladas de escórias com metais pesados nesse terrenos, que foram ou enterradas ao deslocalizadas, não existindo nenhuma informação sobre o seu destino;
O enterramento e a dissimulação dessas escórias, tenha ele sido feito no próprio terreno da Cerca, como tudo indica ter acontecido ou em outros terrenos, tem implicações da maior gravidade para o ambiente e para a saúde pública, pelos danos que causa nos solos e nas águas;
Na hipótese de as escórias em causa terem sido enterradas no Terreno da Cerca afectaram-se, de forma gravíssima os recursos ambientais de tal espaço e do curso de água que o atravessa, agravando-se a situação nos próximos anos, se não houver a prudência de retirar tais escórias para destino em que possa evitar-se a contaminação dos solos e da água.
Se as escórias referidas não forem encontradas no Terreno da Cerca, terá que apurar-se onde se encontram, retirando-se do facto todas as consequências.

O que não pode fazer-se é cobrir o sol com a peneira em nenhum dos aspectos que indiciem violação das normas legais que protegem o ambiente e que nos escusamos, por ora, de citar.
O Sr. Órfão, distinto Presidente da Câmara Municipal da Marinha Grande, disse aos jornais que o Sr. Mortensen deu um tiro no pé ao tornar público que tinha uma declaração afirmando que comprou um terreno com depósitos poluentes...
Não percebeu o Sr. Órfão que esta declaração vale, sobretudo, para afirmar que os poluentes já lá estavam quando Mortensen comprou o prédio ao Estado, não podendo ele ser responsabilizado pelas respectivas consequências.
Não precisava Mortensen de ter pedido uma declaração de que existiam milhares de toneladas de escórias poluentes nos terrenos limítrofes, porque elas ali estavam a olho nu.
O que ninguém podia fazer era enterrá-las pura e simplesmente, sem sequer dizer onde, ainda por cima c o apoio de fundos da União Europeia destinados á protecção do ambiente.
Por isso, requerem os meus clientes a Vª Exª que adopte as providências adequadas à reparação dos danos e à responsabilização de quem for efectivamente responsável.
Urge, antes de tudo, ordenar a imediata suspensão dos trabalhos em curso para que não sejam maiores os danos e o encobrimento.

Os meus melhores cumprimentos

Miguel Reis

Cartas sem resposta

Um dos maiores defeitos do governo de José Sócrates é o de não responder a quem se lhe dirige, mesmo quando as questões são importantes e prementes.
No dia 6 de Maio dirigi a carta que se segue ao Ministro da Economia.
A carta fala por si e a realidade pode ser observada.
O mínimo razoavelmente exigível seria que o Ministro mandasse apurar o que se passava.
Mas não... Fechou-se em copas.
Eu sei que há interesses imobiliários que falam mais alto do que o interesse em manter o emprego de umas dezenas de trabalhadores.
Mas fico triste quando assisto a este silêncio.
Nem o Ministro disse nada nem o gabinete de José Sócrates, a quem enviei cópia, deu qualquer resposta.
De fábrica fechada - como reacção ao ataque da Segurança Social, que deixa descansados outros empresários que lhe devem muito mais do que a Jorgen Mortensen - o casal Mortensen continua a fazer encomendas a outras fábricas na Marinha Grande e, ao que me dizem, será neste momento a principal fonte das exportações daquela região vidreira para o estrangeiro.
Aqui fica a carta e a denúncia do desinteresse que a falta de resposta implica.

Exmº Senhor
Ministro da Economia
Doutor Manuel de Pinho
Rua Laura Alves, 4 - 11º
1050 - 138 LISBOA




MUITO URGENTE
Lisboa, 6 de Maio de 2005
Assunto: Insolvência da Jorgen Mortensen Limitada

Representamos os Srs. Jorgen Mortensen e Ana Mortensen e as sociedades Jorgen Mortensen – Sociedade de Investimentos Imobiliários e Participações, S. A. e JM Glass Vidros da Marinha Grande S.A., com sede na Marinha Grande.
Reporto-me nesta carta à insolvência da sociedade Jorgen Mortensen Limitada, de que os meus clientes são sócios ou a que estão associados, começando por afirmar, como convém numa carta que se dirige a um ministro – meia dúzia de verdades que tenho por axiomáticas:

a) Esta declaração de insolvência, consequência de um pedido da próprio gerência, é a consequência natural da aplicação da lei vigente;
b) Se a lei fosse respeitada, muitas das empresas concorrentes já teriam sido declaradas insolventes porque estão em pior situação do que a Jorgen Mortensen Limitada;
c) A declaração de insolvência, com o quadro que tem no novo Código da Insolvência obriga a uma postura diferente da adoptada na lei anterior, sob pena de se sacrificar ao equilibrio das contas o essencial do valor das empresas como entidades sociais e de qualquer credor poder manipular o mercado;
d) No caso concreto da Jorgen Mortensen Limitada há indícios fortes do envolvimento de entidades públicas num projecto para a destruição desta empresa, com vista ao favorecimento de um cartel controlado pelo Estado, que lhe faz concorrência, utilizando fundos públicos.
d) A Jorgen Mortensen Limitada, agora declarada insolvente é a única empresa de cristalaria da Marinha Grande com capacidade e know how para a produção de vidros de «segmento alto» em termos de qualidade.
e) A empresa insolvente tem trabalhadores qualificadíssimos, tem clientes no estrangeiro e tem encomendas, que não podem ser fabricadas em nenhuma outra fábrica em Portugal.
f) Não há nenhum interesse público que possa justificar o encerramento definitivo de uma unidade que é economicamente viável e altamente lucrativa e que é a única que tem potencialidades para operar na produção de vidro de «Segmento alto».
g) Se o Governo estiver efectivamente interessado em manter o emprego em vez de o destruir e em proteger unidades industriais de topo, encontrar-se-à em curto prazo uma solução que permitirá repor em funcionamento a fábrica dos Mortensen e recriar os postos de trabalho que se anularam.

Parto para estes axiomas de uma leitura atenta dos pressupostos do actual Código da Insolvência e dos textos comunitários que lhe servem de base.
Quando a situação financeira das empresas se degrada, é urgente adoptar medidas adequadas a proteger os interesses de todos aqueles com quem elas têm uma vida de relação.
Essa é a única maneira de salvaguardar os valores patrimoniais e não patrimoniais que as empresas acumulam. Na sociedade global, é precisamente este último grupo de valores o mais relevante.
O know-how, os métodos e processos e a qualidade não são levados ao balanço – ao menos nas situações críticas, em que nunca se discute o valor do good-will – mas são, seguramente, os mais importantes quando deixamos de pensar no núcleo e pensamos no País.
Penso que se justifica que, nesse pressuposto, Vª Exª perca uns minutos a informar-se sobre a realidade do «caso Mortensen», que aqui esboço em traços largos.

O Sr. Jorgen Mortensen é considerado uma da maiores autoridades mundiais em matéria de vidro.
Em 1993, Jorgen Mortensen comprou ao Estado os activos da Fábrica Escola Irmãos Stephens S. A., na Marinha Grande e refundou essa unidade secular.
Já antes tinha adquirido a empresa J. Ferreira Custódio Lda, outro cancro da indústria vidreira da Marinha Grande.
Mortensen conseguiu fazer renascer das cinzas estas duas empresas, que se fundiram na Jorgen Mortensen Limitada, e demonstrou que a indústria vidreira é altamente lucrativa e pode viver sem subsídios desde que produza com qualidade.
Conhecedor da história dos Stephens ( para melhor informação ler o livro «Glass» de Jenifer Roberts, publicado pela Templeton, em 2003) ele tentou repetir a sua proeza, porém sem os favores públicos que aquele houve do Marquês. E conseguiu-o até ao momento em que contra ele abriram uma guerra total, que envolveu sobretudo por via de omissões cúmplices, importantes figuras do Estado.
Em 1999, a Jorgen Mortensen Lda exportou 7.254.385 €.
Em 2000, apesar de uma grave crise que a afectou, exportou 7.064.783 €.
No verão de 2001, a empresa foi afectada por uma greve que quase a destruiu e cujos contornos são muito mal conhecidos, tanto pelo público como pela maior parte da classe política.
Não temos nenhuma dúvida de que o poder político se envolveu demasiado, no sentido de destruir a Jorgen Mortensen Limitada, como forma de privilegiar os interesses concorrentes. Essa matéria está suficientemente documentada e não vamos repisar nela.
É matéria para um livro que em breve virá a público, como forma de denúncia de um neo-corporativismo e de novo condicionamento industrial.

Escrevo esta carta a Vª Exª apenas porque quero acreditar que à mudança do discurso político poderá corresponder a efectiva vontade de uma mudança de políticas.
Os meus constituintes não tem conseguido passar (sobretudo junto do poder político e da comunicação social) a verdade efectiva da situação para que se arrastou a Jorgen Mortensen Limitada, que é sistematicamente deformada, ao sabor dos interesses que se jogam em torno da crise que afecta a indústria da cristalaria.
Seria imperioso, antes de tudo, que o Governo nomeasse uma comissão, constituída por gente séria e independente - desligada do sector da cristalaria – para analisar a situação.

Resumimo-la, de forma muito sintética, nos termos seguintes:
1. Jorgen Mortensen trouxe à Marinha Grande um design novo e novas técnicas de produção de cristal sem chumbo, que colocaram a sua fábrica no topo do ranking mundial da qualidade do vidro. Esta é uma verdade indiscutível. Apesar da crise, a Jorgen Mortensen Limitada ganhou o prémio “Estrela Internacional WQC”, categoria ouro, atribuído para o ano de 2004 pelo Comité Internacional de Selecção do Business Initiative Directions (
www.bid-quality.com).
2. Esta fábrica é a única com capacidade e know-how indispensáveis para a produção de peças de alto valor acrescentado (peças acima dos 7 quilos), dispondo de equipamentos preparados para tal fim e, sobretudo, de uma equipa de operários que tem uma preparação e um conhecimento técnico inigualável e inaproveitável no quadro de qualquer outra empresa.
3. Os Mortensen (ao contrário da generalidade da concorrência) têm encomendas, todas dos mercados internacionais, a preços que são lucrativos. Estão a fabricar algumas encomendas, com qualidade diminuída, noutras fábricas; mas não conseguem produzir em nenhuma outra fábrica do País a parte mais importante dessas encomendas, constituída por peças de maior dimensão com tipos de acabamento que a generalidade das empresas não domina.
4. A evolução da situação nos últimos cinco anos, leva-nos a concluir que o cerco que tem sido feito aos Mortensen, visando a sua eliminação do mercado tem a ver com dois tipos de questões:
4.1. Em primeiro lugar com projectos imobiliários para a área em que se encontra instalada a fábrica há quase 300 anos;
4.2. Em segundo lugar com o interesse da concorrência (em que pauta o Estado) na eliminação de padrões de qualidade que, alegadamente, lhe prejudicam os negócios.
5. Só com um intervenção pública enérgica, no sentido de garantir uma efectiva concorrência, em vez de permitir que os organismos públicos, à mercê de interesses particulares, estrangulem as empresas, será possivel recuperar esta unidade industrial e permitir a sobrevivência de uma indústria vidreira de alta qualidade, como a que os Mortensen têm desenvolvido.

O Estado procedeu em 1993 (há muito pouco tempo) à venda dos activos da Fábrica Escola Irmãos Stephens, que foi durante duas décadas um sorvedouro de dinheiros públicos. Entre esses activos estava um prédio, no centro da Marinha Grande, que é apetecível por potenciar grandes lucros se o conseguirem colocar no mercado imobiliário. Para isso é preciso destruir a fábrica.
De outro lado, a indústria vidreira portuguesa foi moldada nos últimos cinquenta anos em função de um conjunto de interesses privados, misturados, de forma sempre promiscua, com um aparente interesse público.
O paternalismo/proteccionismo foi sempre uma constante. E continua a sê-lo, o que em nada beneficia a indústria, mas protege, de forma escandalosa interesses de funcionários, de políticos e de dirigentes associativos.
Apregoa-se ao país que há um agrupamento complementar de empresas denominado Vitrocristal ACE, no qual estarão reunidas todas as empresas vidreiras da Marinha Grande.
Mas isso não passa de um enorme embuste: a Vitrocristal ACE não é um agrupamento de empresas (tem apenas uma que com ele litiga). É uma empresa em que pautam, como sócios com papel predominante, dois institutos públicos (o ICEP e o IAPMEI) que, sendo como são entidades infuentes na distribuição de subsídios, se locupletam a si mesmos, subsidiando uma empresa de são sócios, com detrimento das demais.
Temos para nós que a Vitrocristal ACE não é mais do que uma peça de um esquema adequado a subsidiar (por via indirecta) empresas que, por deverem dinheiro ao fisco e à Segurança Social, não teriam condições para haver subsídios em condições de transparência.
Nada produzindo – porque não produz – a Vitrocristal despende recursos públicos para a comercialização de produtos de empresas que, devem dinheiro ao Estado e à Segurança Social, não poderiam candidatar-se a quaisquer subsídios.
A marca MGlass – que falta de imaginação – foi lançada como operação ad homine contra Jorgen Mortensen, que é, há muitos anos titular da marca JMGlass. Foi, obviamente, uma sujeira, que só indignifica quem o fez, com o alto patrocínio do Estado.
Mas mais grave do que essa sujeira é o Estado, com manifesto patrocínio de concorrência desleal, ter permitido a deformação da marca, transformando-a de marca regional em marca de produto, como se a um fabricante pertencesse, com a óbvia intenção de enganar os consumidores.
Isto tem custado milhões ao Estado e não levará a nenhum lado, para além da destruição da indústria da cristalaria.
É por demais evidente que num sistema como este não pode permitir-se que existam empresas eficazes e lucrativas, que conseguem competir nos mercados internacionais e ganhar dinheiro, como acontecia com a Jorgen Mortensen Limitada.
É evidente que num sistema como este não pode permitir-se que existam empresas que paguem pontualmente os seus impostos e encargos com a Segurança Social.

O que aconteceu com a Jorgen Mortensen Limitada é demasiado chocante:
1. Quando a empresa procurava expandir a produção, sabotaram-lhe pelo menos um forno, sendo a investigação de tal crime completamente abafada;
2. Quando, depois de descoberta a sabotagem, a empresa retomou o seu curso normal, foi decretada uma greve, com contornos ainda hoje estranhos, tendo sido bloqueada a saída de mercadorias com o entulhamento das entradas da fábrica.
3. O bloqueio da entrada da fábrica foi permitido pelo então governador civil de Leiria, hoje administrador da Vitrocristal, apesar de não se lhe conhecer nenhuma ligação à indústria.
4. Durante a greve, Jorgen Mortensen foi pressionado a vender a fábrica, numa reunião em que participaram os principais dirigentes políticos e representantes do Governo.
5. Com esse bloqueio, a empresa perdeu os seus principais clientes, sendo certo que se as mercadorias tivesse seguido os seus destinos a empresa ficaria com uma situação equilibrada, solvendo todos os compromissos vencidos.
6. Antes da referida greve a Jorgen Mortensen Limitada não devia um cêntimo ao Estado ou à Segurança Social.
7. Restaurada a paz social nos finais de 2001, foi introduzido no Tribunal Judicial da Marinha Grande um processo especial de recuperação, sendo a final aprovada uma medida de recuperação de empresa de que relevam, como elementos principais, os seguintes:
7.1. Fusão da Jorgen Mortensen Limitada ( a empresa que explorava a fábrica) com a Jorgen Mortensen – Sociedade de Investimentos Imobiliários Lda, por absorção da primeira;
7.2. Envolvimento de todo o património imobiliário dos sócios no projecto de recuperação da empresa;
7.3. Dação em pagamento dos imóveis dos sócios (cerca de 4 milhões de euros) ao BCP, com a celebração simultânea de uma operação de leasing que permitiria a recuperação desses património.
7.4. Pagamento aos credores comuns em quinze anos e ao Estado e à Segurança Social (que entretanto passaram a ser credores) no prazo de cinco anos.
7.5. Manutenção de 140 postos de trabalho.
8. Na assembleia de credores surgiram duas propostas: uma que previa a entrega da gestão da empresa a terceiros, patrocinada pelo gestor judicial, e outra apresentada pela própria empresa, elaborada por uma equipa liderada pelo Prof. Fernando de Carvalho, da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra.
9. Esta última proposta de medida de recuperação – da iniciativa da empresa - foi aprovada por cerca de 80% dos credores, mas mereceu a oposição dos responsáveis da Segurança Social e do representante do Estado, apesar de se ter feito a demonstração de que uma tal posição constituía uma acto de manifesta gestão danosa, pois que o valor que o sistema de segurança social teria que suportar no curto prazo era incomparavelmente maior do que o do crédito naquele momento, que, vistas as contas, claramente não podia ser pago no imediato.
10. O Instituto de Gestão Financeira da Segurança Social e o Fundo de Garantia Salarial recorreram da decisão homologatória da deliberação adoptada pela assembleia de credores, tendo sido dado provimento ao recurso, apesar da demonstração da sua falta de senso, com o único fundamento de que a lei exige a não oposição dessa entidades públicas para que a moratória seja possivel.
11. Perante o estrangulamento a que foi sujeita pelas posições adoptadas pelas entidades públicas, a Jorgen Mortensen Limitada viu-se obrigada a reduzir os trabalhadores activos a cerca de metade, porque, tendo embora encomendas, não dispunha de fundos para os combustíveis e matérias primas e não tinha, no quadro de instabilidade em que passou a laborar, acesso ao crédito.
12. Essa decisão de gestão mereceu a aprovação da Mmª Juiz do Tribunal Judicial da Marinha Grande, tendo sido contestada pelo Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Vidreira, que sempre preferiram, estranhamente, ver todos os trabalhadores no desemprego, em vez de manter os postos de trabalho que era possivel manter.
13. Essa decisão inteligente e corajosa da juíza da Marinha Grande foi impugnada com o patrocínio do Sindicato e obteve provimento da Relação de Coimbra, que condenou a sociedade a readmitir os trabalhadores inactivos e a pagar-lhes os salários correspondentes ao período da inactividade.
14. O Sindicato notificou a empresa para dar cumprimento a essa decisão.
15. Neste quadro, tinham os responsáveis da empresa duas saídas:
15.1. Ou desrespeitavam a decisão judicial, continuando a laborar e a pagar apenas aos trabalhadores que trabalhavam, incorrendo num crime;
15.2. Ou respeitavam a decisão judicial, rateando os fundos disponíveis para pagamento de salários e abrindo uma crise que conduziria ao encerramento da fábrica. Atento o tempo que o Tribunal da Relação demorou a tomar uma decisão, estaríamos perante o paradoxo de ter que pagar aos trabalhadores inactivos milhares de euros e aos activos uns magros cêntimos.
16. Perante este quadro, no último dia de Janeiro deste ano – dia em que se procedeu ao pagamento da retribuição desse mês – a gerência da empresa explicou aos trabalhadores que, perante esta decisão judicial, não lhe era possivel pagar os salários do mês de Fevereiro e que se iria apresentar à insolvência.
17. A insolvência foi declarada no dia 15/02/2005, sendo certo que a produção cessou no dia 1 de Fevereiro de 2005.
18. A empresa apresentou-se á insolvência com os salários em dia, tendo pago inclusivamente os montantes descontados aos trabalhadores para entrega á Segurança Social e ao fisco.

O processo de recuperação de empresa correu sob um espectro muito estranho.
Durante o seu curso verificaram-se manifestações várias que me causaram a maior estranheza e a maior perplexidade.
Numa belo dia foi-me proposto que baixasse as mãos e cooperasse no sentido de permitir a viabilização de uma proposta de recuperação assente na gestão controlada e no afastamentos dos Mortensen da empresa. Ganharia com isso 250.000 €...
Reuni nesse mesmo dia com os Mortensen e falei nesse mesmo dia com o Prof. Fernando de Carvalho, a quem, em nome dos meus cliente pedi que preparasse o projecto que acabou por ser aprovado.
O gestor judicial apresentou outro projecto que, curiosamente, previa o afastamento dos sócios principais da empresa.

Apesar da forte votação que aprovou a medida de recuperação, as entidades públicas opuseram-se-lhe por via de recurso, o que colocou a empresa numa situação muito dificil.

Atenta a completa falta de crédito mercantil e a insegurança que os clientes passaram a manifestar, aconselhamos os gerentes e alguns clientes a associarem os seus interesses e a constituir uma nova sociedade vocacionada especialmente para o comércio.
Esta sociedade – a JMGlass – Vidros da Marinha Grande S.A., absorveu os trabalhadores da área comercial e encontrou os meios para financiar a continuação da produção.
Neste momento, em Maio de 2005, apesar de muitos clientes terem suspendido os seus pedidos, a JMGlass tem uma carteira de encomendas de mais de 500.000 € para os próximos dois meses. E ao invés de ser apoiada é sabotada pelas entidades públicas.
Na última reunião da assembleia de credores, lancei um repto ao IAPMEI no sentido de encontrar fábricas onde possam ser produzidas estas encomendas, recebendo da parte do seu representante, o Dr. Amadeu Boleixa, um simples sorriso amarelo.
As entidades públicas envolvidas não manifestaram o mínimo interesse em que continue a produzir-se cristal sem chumbo, de alto valor acrescentado, por encomenda dos Mortensen ou dos seus clientes internacionais. Bem pelo contrário, agem como quem esteja interessado em que essas encomendas não se realizem em Portugal.
Tudo tem sido feito, de forma directa e indirecta, para encobrir a realidade e para inviabilizar a retoma do funcionamento desta unidade industrial.
Podia ler-se há dias no «Diário Económico»:

«A marca Mglass, associada à criação da região demarcada de vidro da Marinha Grande já envolveu um investimento superior a 22 milhões de euros, contabilizando apenas os dois contratos programa aprovados desde 2001. A comparticipação pública rondou os 75%.
Apesar dos montantes, o presidente da AIC chama atenção para o facto de não haver exemplo de marcas internacionais criadas em tão pouco tempo e com investimento tão reduzido. Sobre alegadas dificuldades na execução, o dirigente lembra que o Estado, através do IAPMEI, tem uma participação no capital da Vitrocristal, não podendo por isso distanciar-se de eventuais responsabilidades. Quanto ao envolvimento das empresas da região com o projecto, Fernando Esperança reconhece que “houve desconfianças”.“As pessoas sentiram que se estava a tentar criar uma imagem, a apontar para um segmento de mercado que não era o que as empresas detinham, que se queria concorrer com Lalique, Baccarat, Waterford. Temos noção de que o objectivo é o segmento alto. Agora para quem está no segmento médio ou baixo, passar imediatamente para o alto não é possível. A menos que se injecte muito milhões de euros que sustentem essa mudança. Não existindo esses meios, é muito difícil à empresa dar esse salto.”
Ainda assim, sublinha, “a marca foi indispensável para aumentar competências. Não houve melhorias do ponto de vista económico/financeiro, mas se não tivesse existido, provavelmente, o sector já teria morrido”.»

Há neste momento um fortíssima pressão de lobbying visando a obtenção de subsídios para um projecto que não tem nenhuma hipótese, por manifesta falta de qualidade da sua execução.
Não é possivel entrar no «segmento alto» do vidro sem competências ou destruindo competências. Por isso, tudo o que se tem feito e o que se projecta fazer redundará em dinheiro lançado à rua, como ainda há dias afirmou numa conferência sobre o uso das marcas o antigo ministro da Economia , Prof. Daniel Bessa.
O que se vem fazendo na Marinha Grande, com o meticuloso envolvimento de representantes do Estado é a tentativa de destruição da única unidade cujos produtos, pela sua qualidade e pelo seu valor, se colocam no segmento alto.
E compreende-se que seja assim porque há fortes interesses envolvido, alguns com um peso político determinante.
Seria muito interessante que Vª Exª mandasse analisar o escândalo da gestão dos dinheiros públicos envolvidos no caso Mandata, a diferença de postura dos agentes do Estado no mesmo caso e no caso Mortensen.
Seria muito interessante que o Governo mandasse apurar porque é que, deliberadamente, sabendo que isso causaria prejuízos de milhões de euros aos cofres públicos, os representantes da Segurança Social se opuseram à medida de recuperação aprovada pela assembleia de credores.
Seria muito interessante que o Governo mandasse apurar porque razão se registou uma manifesta diferença do tratamento dado pelas instituições da Segurança Social à sociedade Jorgen Mortensen Limitada e às demais empresas do sector, quando é certo que, antes da referida greve, a Mortensen nada devia ao Estado nem à Segurança Social.

A insolvência foi decretada e tinha que ser decretada, por ser absolutamente inviável a recuperação da sociedade, depois das tropelias feitas pelas entidades públicas.
Mas existem os elementos indispensáveis para o aproveitamento dos elementos do activo desta empresa e o relançamento da única unidade industrial com capacidade e know how para se situar no escalão mais alto da qualidade da cristalaria.

É possivel repor esta fábrica em funcionamento no prazo de quinze dias, desde que se associem os diversos interesses em jogo.

a) Em primeiro lugar, é preciso evitar a sanha das entidades públicas (ao que parece acompanhadas pelo próprio sindicato) no sentido do desmantelamento da fábrica. Os maiores receios reportam-se ao papel do IAPMEI, que tem tido em todo este processo um comportamento muito obscuro e que tem, objectivamente, interesse no encerramento desta empresa, atenta a sua posição na Vitrocristal.
O equipamento é perfeitamente actual e não vale nada se for desintalado.
Em contrapartida, a instalação de uma unidade deste tipo (não há nenhuma em Portugal com esta capacidade) custaria um mínimo de 15 milhões de euros.
b) Existe – ainda não foi desfeita – uma equipa de vidreiros que tem um conhecimento técnico único no País. Este conhecimento não é utilizável por outras empresas nem é transmissível, porque não se produzem em Portugal peças do padrão em que ele é exigível.
Os próprios centros de formação não dispõem desses conhecimentos.
Jorgen Mortensen considera que, na hipótese de não ser possivel reabrir a fábrica nos próximos seis meses, se perdem quase 400 anos de trabalho, tempo cumulado necessário para se conseguir uma equipa idêntica.
c) Há encomendas e possibilidades de as expandir. Mas isso só é possivel desde que os Mortensen permaneçam associados ao projecto, pois que este tipo de cliente exige uma garantia de qualidade que passa por uma relação muito estreita com o criador.

Pergunta-se-à agora o que é necessário fazer para repor esta unidade em funcionamento.
Na nossa opinião é viável reiniciar a actividade e dar emprego imediato a cerca de 40 trabalhadores, seguindo-se os seguintes passos:

I. Negociação entre a Jorgen Mortensen – Sociedade de Investimentos Imobiliários e o BCP
A Jorgen Mortensen – Sociedade de Investimentos Imobiliários e Participações S.A. ofereceu garantia hipotecária a favor da insolvente ao Banco Comercial Português.
No quadro do processo especial de recuperação de empresa foi aprovada uma medida de recuperação que passava pela dação em pagamento ao BCP do imóvel em que se encontra a fábrica, com a celebração simultânea de um contrato de leasing, o que permitiria recuperar o património, pois que a Mortensen Imobiliária absorveria a agora insolvente por fusão.
Foi feita a dação em pagamento, para recriar a confiança do banco, mas não se preencheram as condições do seu enquadramento, porque, tendo a Segurança Social oferecido oposição à medida aprovada, deixou de haver condições para a fusão e porque, de outro lado, o banco não celebrou o contrato de leasing.
A Jorgen Mortensen – Sociedade de Investimentos Imobiliários e Participações S.A. propôs uma acção contra o BCP, em que peticiona a anulação da dação em pagamento.
A Jorgen Mortensen – Sociedade de Investimentos Imobiliários e Participações S.A. continua com a posse do imóvel e está interessada em solver os seus compromissos, como garante, e em reaver o edifício.
É indispensável encontrar uma solução negociada com o BCP, visando a celebração do contrato de leasing a favor da dadora.
É indispensável racionalizar a utilização do espaço e obter receitas que permitam suportar as rendas do leasing.
A Jorgen Mortensen – Sociedade de Investimentos Imobiliários e Participações S.A., celebrado o contrato de leasing com o BCP apresentaria à administradora da insolvência proposta de compra de todos os elementos do activo do estabelecimento industrial.
A Jorgen Mortensen – Sociedade de Investimentos Imobiliários e Participações S.A. é uma outra sociedade, agora com outros accionistas e está numa situação em que sobreleva o interesse na recuperação do imóvel.

II. Constituição de uma nova sociedade que reabra a unidade fabril
Afigura-se-nos que o melhor caminho para reabrir a unidade fabril será o da constituição de uma nova sociedade (anónima eventualmente com apelo à subscrição pública e ao capital de risco) que
a. Celebre com a Jorgen Mortensen – Sociedade de Investimentos Imobiliários e Participações S. A. um contrato de cessão de exploração, por valor que permita suportar os encargos daquela com o contrato de leasing na proporção do espaço ocupado;
b. Contrate os trabalhadores indispensáveis ao relançamento da produção;
c. Celebre com os fornecedores os contratos indispensáveis à produção.
d. Adquira à massa insolvente a parte do stock não acabado.

Os Mortensen estão dispostos a colocar alguns activos nesta sociedade e a dar o seu melhor contributo para a gestão industrial, mas veriam como muito interessante que ela fosse administrada por gestores profissionais afectos aos novos investidores.

III. Consolidação da JMGlass – Vidros da Marinha Grande S. A. como empresa comercial
Para acelerar o crescimento da produção industrial é indispensável encontrar apoios para a consolidação da JMGlass – Vidros da Marinha Grande S. A., em termos que evitem a distorção da concorrência e que têm que ser aferidos pelo volume efectivo das exportações.
É absolutamente inadmissível que a Vitrocristal receba milhões de euros para o exercício da sua actividade com um reduzidíssimo valor de exportações e que a principal concorrente tenha que suportar todos os seus custos de promoção comercial e seja discriminada em todas as operações em que operam entidades públicas.

O Sr. Jorgen Mortensen e a Srª D. Ana Mortensen estão absolutamente disponíveis para cooperar com qualquer entidade que se apresente de forma séria para o desenvolvimento de um projecto assente na concertação dos diversos interesses em jogo.
Mas não estão, naturalmente, interessados em dormir com o seu próprio inimigo, pelo que descartam qualquer entendimento com os representantes dos interesses que têm procurado liquidá-los.
Veriam os Mortensen com muito interesse a intervenção de entidades de capital de risco, associadas a jovens gestores sem vícios, no quadro da iniciativa recentemente anunciada por Vª Exª e pelo Sr. Primeiro Ministro. Seria possivel aproveitar, por tal via, parte do trabalho feito pelo Prof. Fernando de Carvalho, da Faculdade de Economia de Coimbra, no quadro do processo de recuperação.
Para que Vª Exª possa apreciar, de forma ponderada a situação da empresa insolvente no quadro do sector da cristalaria, indispensável se torna que mande apreciar o que aqui se passa por alguém independente e descomprometido.
E para que consiga mudar o que está mal é preciso coragem e é preciso passar por cima de muitos interesses instalados e habituados há dezenas de anos a mamar na teta orçamental.
É um crime deixar acabar o melhor da indústria vidreira da Marinha Grande, sobretudo quando é possivel ganhar muito dinheiro neste sector, porque, como diz Jorgen Mortensen, estão aqui os melhores vidreiros do Mundo.
Estranha é que o seu próprio sindicato os queira ver no desemprego.
Cada dia que passa é uma perda. Perdem-se os clientes, perdem-se as memórias e perde-se o domínio de técnicas que se apuraram durante anos e anos.
Não foi por acaso que se fez nesta fábrica o maior copo de vinho do Porto do Mundo.
Se deixarem acabar esta equipa sem que ela transmita os conhecimentos que acumulou isso nunca mais será possivel.
O Sr. Mortensen e eu próprio manifestamos a nossa disponbilidade para um encontro com Vª Exª em data da sua conveniência.

Os meus melhores cumprimentos



Miguel Reis





Sócrates em alta

Excelente entrevista de José Sócrates à SIC.
Discurso coerente e optimista, O país precisa disto.
Pena é que a rectaguarda esteja a funcionar mal e que alguns ministérios não deem resposta a questões prementes.
O homem tem vontade mas o terreno está completamente minado, em muitos locais pelos seus próprios adversários.
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terça-feira, julho 05, 2005

Comunidades: Conselheiro Suíça propõe substituição do Conselho por observatório

Notícia da Lusa

«O conselheiro das comunidades portuguesas da Suíça Manuel de Melo propôs hoje que o órgão de consulta do Governo para as questões da emigração seja substituído por um observatório permanente sedeado em Lisboa.
"É necessário pôr fim ao Conselho das Comunidades Portuguesas (CCP) que apenas serve os interesses pessoais de meia dúzia de conselheiros", disse à Agência Lusa Manuel de Melo, adiantando que "não se identifica com o actual CCP".
O conselheiro, que não esteve presente na reunião plenária do CCP que decorreu na semana passada em Lisboa, sublinhou que o "Governo tem o caminho aberto para acabar com o conselho" e em sua substituição deveria criar um observatório permanente para as comunidades portuguesas. De acordo com Manuel de Melo, o observatório seria sedeado em Lisboa, com pólos espalhados pelo mundo e a sua direcção seria constituída por figuras públicas que conhecem as comunidades.
"O observatório permitiria um acompanhamento mais estreito dos problemas dos emigrantes e qualquer português residente no estrangeiro poderia dar o seu contributo", referiu. Questionado sobre a sua ausência no plenário, sustentou que não estava de acordo que a reunião mundial se realizasse na mesma altura que os encontros das secções regionais do CCP.
"Não aconteceu nada de novo no plenário que decorreu na semana passada em Lisboa. Apenas serviu para trocar de presidente do Conselho Permanente das Comunidades Portuguesas (CPCP)", criticou, acrescentando que "foi ilegal" a eleição do novo responsável do CPCP. No plenário mundial, o conselheiro do Brasil António de Almeida e Silva renunciou ao cargo de presidente do CPCP, tendo sido eleito para o lugar o membro de França Carlos Pereira. "Um presidente pode renunciar ao cargo a qualquer momento, mas neste caso houve uma ilegalidade porque a renuncia já tinha sido acordada há dois anos", explicou Manuel de Melo.
Como não se identifica com um "conselho que não defende os interesses dos emigrantes", Manuel de Melo está a encetar contactos com outros membros do CCP para apresentarem uma "proposta colectiva de demissão".
"Uma demissão isolada não resolveria qualquer problema. Como tenho o pressentimento que um quarto dos conselheiros está descontente com o actual CCP, estou a contactar outros membros para apresentarmos a demissão", salientou.
Caso não consiga reunir um consenso, Manuel de Melo afirmou que vai continuar a desempenhar o seu papel de conselheiro para o qual foi eleito. "Um conselheiro pode desenvolver um papel a nível local e individual", argumentou.
A Suíça tem sete conselheiros e Manuel de Melo é membro do CCP desde a sua criação em 1997. O Conselho das Comunidades Portuguesas é um órgão de consulta do Governo para as questões da emigração, composto por 96 membros, tutelado por um Conselho Permanente constituído por 15 conselheiros e está divido em secções locais e regionais.»
Tenho dúvidas acerca desta estratégia que aparece a público pela voz de Manuel de Melo.
Conhecia a sua posição sobre a substituição do presidente do CCP e conheço as suas posições críticas por relação à santa aliança dos conselheiros afectos ao PCP e ao PSD.
É claro, para quem observa as movimentações das lideranças das Comunidades, que os dirigentes afectos ao PS estão colocados numa posição muito débil, isolados pelo seu próprio partido, cuja política se não conhece, para além dos indícios de que haverá um projecto para liquidar tudo o que, em termos de organização, tenha ligações ao Manuel de Melo e ao Carlos Luis.
Isto passa absolutamente despercebido em Lisboa, mas é claro nas movimentações que verificamos sobretudo na Europa e na América Latina.
Neste contexto - e depois de ter sido punido pelas posições políticas que tem assumido (nomeadamente na defesa das crianças portuguesas na Suiça - compreende-se que Manuel de Melo lance a ideia de uma alternativa ao Conselho.
Estranho é que seja um Observatório com sede em Lisboa.
Pessoalmente parece-me um erro, mas reservo-me para opinião posterior, depois de colher informações sobre o projecto.
Parece-me é que, independentemente do que quer que seja e sobreviva ou não o CCP, é hora de os emigrantes se organizarem para poderem ter uma voz na sociedade civil.
O Manuel de Melo, que vive na Suiça conhece bem o Organização dos Suiços nos Estrangeiro. É uma associação pujante e cheia de iniciativa.
Mas é, talvez por isso, uma organização respeitada e respeitável.
O que é preciso fazer é uma Organização dos Portugueses no Estrangeiro. Até pode chamar-se OPTE, com o PT a verde e vermelho. O importante é que defenda genuinamente os interesses dos portugueses residentes no estrangeiro, que os apoie e que os ajude a defender os seus direitos.
Se para mais não valesse, a experiência do CCP poderia, seguramente, servir para base de lançamento de uma plataforma deste tipo, que pode nascer já, de forma paralela ao próprio conselho e com a participação de pessoas que integram o Conselho.
O drama do Conselho está em que ninguém o ouve e muita gente deseja que esteja calado.
O Manifesto aprovado no último plenário não é tão mau como foi dito em post que já citei. O problema é que, mesmo sendo o que é, não passa de um chover no molhado.
Há anos que as mesmas coisas são reclamadas, sem que alguma vez tenham sido satisfeitas.
E o que para aí se anuncia é de mau presságio tanto no que se refere ao ensino como no que se refere à actividade consular.
Ou os emigrantes se organizam numa estrutura forte e independente do Estado e participam na vida pública ou continuará a política das sardinhadas e dos bailinhos da Madeira. Essa é que é a questão.

Missão impossivel... em S. Paulo

Estava eu em S. Paulo quando me telefonou Miguel, um gerente comercial de Genebra, pedindo a minha ajuda para fazer uma procuração de sua esposa no Consulado Geral de Portugal naquela cidade brasileira.
Impossível no tempo em que ele o pretendia fazer - disse-lhe eu.
Miguel partiria de Genebra no domingo, dia 3 de Julho mas teria que regressar á Suiça no dia 8.
Muito pouco tempo. Precisaria pelo menos de 10 dias e não poderiamos garantir-lhe nada, nem sequer que conseguiriamos legalizar junto do referido consulado um documento processado por um notário brasileiro.
A situação era muito grave e Miguel tinha urgência.
Ele tinha a mulher a uma criança de quatro anos retidos em S. Paulo, porque havia um problema com os documentos brasileiros da esposa, que tinha implicações relativamente ao registo do menor, na Suiça e em Portugal.
Acompanhamos a situação junto da justiça do Brasil e o magistrado que tinha o processo manifestou uma grande disponibilidade para facilitar o regresso da esposa de Miguel e da criança para a Suiça. Mas, para que isso fosse possivel, era indispensável fazer emitir passaportes em nome de uma e de outro. Desde logo, tornava-se indispensável registar correctamente a criança no registo civil português, o que só podia ser feito na área do Consulado de Portugal em Genebra, onde nasceu a criança, ou em Lisboa, na Conservatória dos Registos Centrais, se o conservador fechasse os olhos ao artº 47º do Regulamento da Nacionalidade, essa barbaridade com vários anos que restringe o acesso dos emigrantes portugueses à repartição do ghetto da sua residência.
Um conservador da Conservatória dos Registos Centrais compreendeu o drama de Miguel e até lhe facultou uma minuta da procuração que haveria de formalizar em S. Paulo.
Tentamos marcar a escritura a partir do nosso escritório e disseram-nos literalmente que era impossivel.
Eu próprio fiz vários telefonemas e invoquei a minha qualidade de advogado, inscrito na Ordem dos Advogados de Portugal e... mandaram-me, literalmente, bugiar.
Miguel ligou várias vezes a tentar contar a história mas ninguém o atendeu.
Bater à porta do Consulado e falar com alguém tornou-se para Miguel uma missão impossivel.
«Se não fosse comigo eu não acreditava» - disse-nos.
Conseguiamos fazer a procuração em causa num notário brasileiro. Mas, apesar de isso não ser legalmente obrigatório, a Conservatória dos Registos Centrais passou a exigir agora a legalização dos documentos estrangeiros junto dos consulados de Portugal.
Formas imaginativas de evitar o trabalho multiplicam-se nas nossas repartições sem que alguém reaja. E, por isso, os serviços públicos que não estejam sob o controlo dos media pioram todos os dias.
O que nos vale em Portugal acaba por ser a capacidade critica dos jornais. As coisas melhoram sempre que os jornais e as televisões fazem denúncias.
Infelizmente nas «colónias» da nossa emigração (e digo colónias porque a postura dos intervenientes é verdadeiramente colonial) a imprensa é absolutamente invertebrada, por razões que são facilmente perceptiveis... Para onde iriam os anúncios se falassem?
É que está tudo viciado: os grandes anunciantes são os financiadores dos principais interessados neste estado de coisas.
O esclarecimento rigososo e completo das contas relacionadas com as obras nas novas instalações consulares e na residência do cônsul de Portugal em S. Paulo talvez possa elucidar-nos sobre alguns aspectos mais grotescos de todo este estado de coisas. A começar pela questão de saber porque é que a imprensa está absolutamente controlada e perdeu toda a sua capacidade critica, o que é mais barato do que perder os anúncios.

Manuel de Melo e o CCP

Curto e grosso o texto de Manuel de Melo sobre o Conselho das Comunidades Portuguesas.
Não estou de acordo com ele, em boa parte. Mas há uma coisa que é verdade e que eu digo há já muito tempo: a construção deste conselho está, desde a sua origem marcada por um pecado original - o da mentalidade colonialista e tacanha da generalidade dos dirigentes políticos em matéria de emigração.
Defendo, há muito, a criação de autarquias de base não territorial.
Porque é que os residentes no estrangeiro não hão-de ter a sua Câmara com competências que não colidam com a soberania dos estados da residência?
Porque é que não se incentiva a sua organização numa instituição que possa assumir a posição de parceiro social, em pé de igualdade com as confederações patronais e sindicais?
Para mim a resposta é simples: porque a classe política lisboeta tem medo e não tem a menor consideração pelos portugueses residentes no estrangeiro.
Parece-me é que o Manuel de Melo, em vez de lamuriar deve tomar iniciativas.
Não é pelo facto de o Prof. Freitas do Amaral o ter passado à reforma que deve baixar os braços. Essa sanção será extremamente útil se lhe catalizar um justo sentido de revolta e se ele se dedicar ainda mais afincadamente (com mais raiva, Manuel) à denúncia das irregularidades e à defesa dos interesses dos seus compatriotas.
Tenha cuidado - porque lhe pode acontecer alguma coisa desagradável - mas não desista Manuel de Melo...
Não volte a faltar às reuniões do Conselho e não deixe de se candidatar nas próximas eleições. A sua voz, tem ali um som mais elevado. E agora tem, pelo menos, a vantagem de poder falar mais á vontade.
Eles não podem continuar a querer controlar o que você pensa e o que você diz.
«Criado em 1997 para representar os portugueses no estrangeiro junto do poder central português, o Conselho das Comunidades Portuguesas (CCP) representa hoje um conjunto de expectativas frustradas, com os seus dirigentes a fazerem apenas o papel de figurões de um órgão que é completamente ignorado por todos — emigrantes , comunicação social e governo.
Em declarações à Agência LUSA (01.07.2005) o recém-eleito presidente do Conselho Permanente do CCP, Carlos Pereira, é peremptório: «Este órgão de consulta só tem nome. Demasiadas vezes é completamente ignorado». Não se compreende pois, as recentes lamúrias de Carlos Pereira, na RTP-internacional.
Há muito que Carlos Pereira e os seus pares estão conscientes de que este CCP não serve para nada, a não ser para a sua projecção pessoal junto das comunidades onde estão inseridos. O plenário mundial do CCP que teve lugar há dias, em Lisboa, deixou completamente a nu as muitas debilidades do actual Conselho das Comunidades e dos seus líderes. O manifesto aprovado «Por uma política global para as Comunidades Portuguesas» de tão medíocre que é — está ao nível dos seus autores — não mereceu a mínima atenção do poder político e representa ele mesmo o falhanço do actual CCP.
Durante três dias o poder político (governo), num frente-a-frente com os conselheiros, foi dizendo bem nas barbas destes últimos aquilo que pensa fazer em termos de políticas para as comunidades: acabar com os destacamentos de professores para o estrangeiro; a não constitucionalização do Conselho; reestruturar o próprio CCP; tornar o recenseamento obrigatório, etc., etc..
Confrontados com as reais intenções do poder político com aquilo que se prevê seja uma política desastrada para as comunidades, os dirigentes do CCP não foram capazes de aproveitar o palco soberano que era a Assembleia da República para dar um murro na mesa e dizer basta! Deixem-se de brincar com os emigrantes portugueses! Vamo-nos todos embora...! Bem ao contrário, preferiram enveredar pelo caminho da lamúria, enterrando ainda mais o CCP e afundando-se a eles próprios.
O governo agradece e tem agora uma oportunidade soberana para acabar com o Conselho das Comunidades Portuguesas que, como já se viu, apenas serve para sorver uns milhares de euros e somar sucessivos atropelos à lei, com renúncias de presidentes anunciadas há já dois anos, e a entronização de um novo presidente que mais não é do que uma marioneta nas mãos de terceiros.
Pergunta-se então a quem tem beneficiado o CCP ? Naturalmente que aos seus dirigentes (passeatas sucessivas e alguma visibilidade individual) e, pior do que isso, ao Partido Comunista, que através do Conselho das Comunidades Portuguesas tem conseguido a visibilidade que nunca não conseguirá por intermédio das eleições legislativas.»

Uma carta ao Ministro Freitas do Amaral a propósito de liquidação do Presidente da Federação da Suiça do Partido Socialista

No dia 14 de Junho escrevi uma carta ao Prof. Feitas do Amaral, alertando-o para o que eu julgava ser um erro grosseiro em que poderia ter sido induzido.
Não acredito que, tendo recebido uma mensagem com este teor, o Ministro não tenha tido a preocupação de se informar do que se passou. O caso é grave nomeadamente porque na carta se denuncia a sonegação de uma peça processual da maior importância (a contestação que não foi junta aos autos) e porque o arguido não é uma pessoa qualquer.
Trata-se do actual presidente da Federação do Partido Socialista na Suiça, uma das mais prestigiadas personalidades das comunidades portuguesas da diáspora. Foi candidato a deputado nas últimas eleições legislativas e até teve uma intervenção cívica especial, no termo do processo eleitoral, ao denunciar perante o Tribunal Constitucional, a fraude verificada na contagem dos resultados eleitorais do Círculo da Europa.
Não era minha intenção divulgar esta carta, se ela tivesse tido resposta.
A falta de resposta a uma carta dirigida a um político não é nunca uma desconsideração por relação à pessoa que lhe escreveu. É sempre uma desconsideração das questões de fundo que na carta se suscitam.
Por isso mesmo entendo que a divulgação da missiva, para além de lícita, corresponde a um dever cívico.
Ficamos a saber que o Prof. Freitas do Amaral não é tão liberal como parece...
Este País está a ficar perigoso.
É lastimável que o PS aceite que o Ministro que foi buscar à direita lhe liquide um quadro ( o Presidente da Federação da Suiça) com fundamento em delitos de opinião política, para gáudio exclusivo de uma casta que não admite ser criticada.
Aqui fica a carta, sem mais comentários.

Exmº Sr.
Professor Diogo Freitas do Amaral
Distinto Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal

Pensei várias vezes antes de lhe endereçar esta mensagem. Só o faço porque mantenho a convicção que o Sr. Professor é um homem sério, que não «embarca» conscientemente em jogadas sujas, sobretudo se tais jogadas puserem em causa o futuro e a vida das pessoas.
Conhecemo-nos há mais de trinta anos, quando eu era jornalista e Vª Exª liderava o CDS.
Eu trabalhava no «Jornal de Notícias», onde escrevia diariamente uma coluna denominada «Momento Político». Já era militante do PS, mas sempre procurei manter uma postura rigorosa na elaboração da informação que produzia.
Acompanhei, por razões de ofício, o nascimento do seu partido e privei, na altura, com alguns dos seus principais dirigentes. Fiz amizades, no tempo em que isso era mal visto, com gente de um quadrante político oposto. Penso que, pela minha postura, granjeei o respeito da generalidade dos seus compagnons de route. E isso porque, na linha do que defendia Mário Soares, considerava (ao tempo minoritariamente) que era importante haver um partido do centro-direita em Portugal, sob pena de nunca conseguirmos chegar às liberdades que se fruíam em quase nos países europeus com democracias estabilizadas.
Sai dos jornais por volta de 1982, por entender que tinha acabado uma fase do processo político e que era preciso um novo modelo de jornalismo. Mas continuei envolvido na Comunicação Social, tendo sido escolhido para dois dos seus órgãos reguladores: o Conselho de Imprensa e a Alta Autoridade para a Comunicação Social.
Dediquei-me integralmente à advocacia e encontrei nesta nova profissão, com muita frequência, motivo de envolvimento em causas cívicas. Por isso não estou rico, mas continuo feliz.
Perdemo-nos de vista, mas tenho acompanhado com atenção a sua vida política. Respeito-o nesse plano e, na minha vida profissional, aprendi a admirá-lo como académico.
Congratulei-me quando, alguns dias antes da posse do Governo, num desses bas-fond de jornalistas que continuo a frequentar, soube que o Sr. Professor iria ser o novo Ministro dos Negócios Estrangeiros.
Estou em S. Paulo, onde vim para assistir à homenagem da comunidade portuguesa e da Casa de Portugal em S. Paulo a dois ilustres Mestres da Língua Portuguesa, no dia 10 de Junho, a Professora Clotilde Iemini Brasil e o Professor Pasquale Cipro Neto.
Estava para lhe escrever a propósito desse evento. Fiquei absolutamente chocado com a desvalorização que o seu Ministério faz destas coisas: toda a gente reparou, a começar pelos brasileiros, que não estava presente nenhum dos representantes do Estado Português nem do Instituto Camões, como aliás já se esperava. Manifestar-lhe-ia a minha indignação e aconselhá-lo-ia a tomar medidas que já tardam.
Eis senão quando me vejo obrigado a mudar de tema, para outro que é bem mais grave e que tem a ver também com o seu Ministério.
Caiu-me hoje no meu correio electrónico a cópia de um despacho aposto por Vª Exª no Processo nº P-218, da Inspecção Diplomática e Consular, em que é arguido o funcionário Manuel Guilherme Andrade Ferreira de Melo, do Consulado Geral de Portugal em Genebra, condenando-o na pena de aposentação compulsiva.
Sou seu advogado e, por isso mesmo, não lhe venho, obviamente pedir nada, tanto mais que, seja em acção para anulação do acto seja em acção de indemnização contra o Estado, são fartos os argumentos da sua literatura que me permitem atacar a decisão.
É pena que o Sr. Professor seja o Ministro e não o catedrático a quem haveríamos de pedir um parecer com que abrilhantaríamos o processo, pois que, estou certo que não há hoje entre os Mestres quem melhor pudesse ajudar-nos a combater a ignomínia que, pelo seu próprio punho, foi cometida.
Mas se não venho pedir nada nem lavrar qualquer protesto, que sentido faz escrever-lhe a falar sobre este assunto?
O Sr. Professor sabe melhor do que eu que o direito, começando por ser, na definição de Wienner, um controlo ético aplicado à linguagem, redunda, com frequência, no plano da aplicação, numa aniquilação que contraria a sua vocação reguladora para se afirmar como um mero mecanismo de exclusão.
Isso é especialmente grave quando estamos no domínio do político, como é o caso. Não me parece bem que, sendo Vª Exª o político respeitável que é, com o histórico que tem, possa ser aproveitado para, sem que fiquem sujas de sangue as mãos de alguém do PS.
Vamos, pois, falar apenas do político, deixando o demais para os órgãos próprios que são os tribunais.
O Sr. Professor foi usado, consciente ou inconscientemente, para decapitar um dos mais respeitados dirigentes do PS no estrangeiro, eleito democraticamente pelas estruturas locais, porque isso convém à pequena camarilha que procura, a benefício de interesses pouco claros, aprofundar o poder de Lisboa nas estruturas partidárias da emigração, destruindo tudo o que seja iniciativa cívica local, de forma a «coordenar» de Lisboa todos os movimentos nas comunidades emigradas.
O Sr. Professor, que é um homem de Cultura, colocou-se, provavelmente sem se aperceber disso, do lado dos que defendem para as Comunidades uma política obscurantista de base folclórica (ranchos, sardinha assada e saudade) contra os que pugnam pelo reconhecimento dos direitos de cidadania dos portugueses da diáspora e da sua capacidade organizativa para uma intervenção política adequada à defesa dos seus interesses.
Finou-se há anos o uso da expressão «colónia» para classificar as comunidades portuguesas da diáspora. Era a colónia de Paris, a colónia de S. Paulo, a colónia de Genebra. Finou-se o uso da palavra, como naquele dito das moscas; no resto ficou tudo quase na mesma. Os emigrantes são tratados com uma espécie de indígenas e muitos dos representantes do Estado no exterior continuam a portar-se como governadores coloniais.
O Sr. Manuel de Melo é um cidadão especialmente activo. É o presidente da Federação do Partido Socialista na Suiça e vem sendo eleito para sucessivos mandatos no Conselho das Comunidades Portuguesas.
Foi candidato a deputado nas últimas eleições legislativas pelo Círculo da Europa e, nessa qualidade, tomou a iniciativa de impugnar os resultados eleitorais, quando verificou que se registou uma grosseira fraude na contagem dos votos. Desistiu dessa impugnação quando se constatou que ela adiaria a publicação dos resultados e causaria um grave adiamento da posse do Governo.
Não creio que este facto pudesse ter sido motivo para uma qualquer pressão visando a eliminação do Sr. Manuel de Melo, tanto mais que a fraude em causa é inequívoca e que, denunciada ela, o PS elegeria mais um deputado.
A questão axial que no processo disciplinar se levanta é a de saber se um cidadão que é simultaneamente funcionário consular, dirigente de um partido político e membro do Conselho das Comunidades Portuguesas pode ou não criticar as instituições públicas quando elas agem à margem da legalidade ou não defendem, no seu entendimento, os interesses que lhe estão confiados.
Este funcionário tem classificação de muito bom e os próprios superiores hierárquicos o classificam como exemplar em tudo aquilo que realiza. O drama está em que tem uma vida política activa.
Envolveu-se com outros militantes políticos – do PS e de outros partidos – numa luta para que as autoridades da Suiça não colocassem as crianças portuguesas com maior dificuldade de integração em escolas de handicapés, criticou a postura abstencionista e colaboracionista da controversa cônsul-geral em Genebra, aliás contraditória com a postura adoptada pelo seu antecessor.
Adoptou, noutros momentos, posições muito críticas sobre o funcionamento dos serviços, em matérias que dizem respeito, exclusivamente, à defesa do interesse público.
Qualquer funcionário – como funcionário e como cidadão – deve pautar a sua postura, antes de tudo, pela defesa da legalidade. Ora, a marca mais evidente da postura crítica de Manuel de Melo tem a ver, precisamente, com a defesa da necessidade do cumprimento das leis, desde as simples normas do registo civil, cujo desrespeito põe me causa os direitos e as legítimas expectativas dos cidadãos que recorrem ao serviço público, às normas relativas à emissão de passaportes, em que releva, especialmente nos tempos que correm, o interesse da segurança, que não pode permitir loucuras como a de aceitar pedidos por correio.
Uma personagem como esta é obviamente incómoda, sobretudo quando se trata de um funcionário impoluto, com uma irrepreensível folha de serviços e classificação de «muito bom». E torna-se ainda mais incómodo quando é certo que tem o respaldo de milhares de portugueses que nele confiam e que participam nas actividades que ele promove.
É incómodo para um dirigente desmazelado, que deixa os documentos registrais ao monte, de forma desordenada, sem lhe dar o tratamento adequado, ter alguém que denuncie a situação. Mas torna-se ainda mais incómodo quando ele começa a questionar se determinado funcionário, protegido por um superior hierárquico, apresentou documentação falsa sobre as suas habilitações para aceder ao lugar que tem.
Aí começa o «vale tudo»… como se fosse ilegítimo a um funcionário público perguntar se outro é um cidadão honrado ou um falsificador de documentos a coberto dos mais altos responsáveis.
Neste processo – que custou uma enormidade ao erário público, com desnecessárias deslocações a Genebra, por tempo aliás muito superior ao necessário – tudo parece ter sido feito por medida. Há aspectos que não lhe refiro porque são objecto de investigação criminal, no lugar próprio.
Reporto-lhe apenas três situações que me parecem que não merecem sequer comentários:
- Nunca o defensor do arguido foi notificado da realização de qualquer diligência de prova, para que a ela pudesse assistir;
- A contestação do segundo processo disciplinar foi apresentada tempestivamente (tenho disso o respectivo recibo), não tendo sido integrada nos autos;
- Não foram realizadas quaisquer diligências de prova relativamente à segunda contestação, sendo que a prova produzida relativamente à primeira infirma todas as conclusões extraídas pela instrutora, como se pode ver de uma simples análise do processo.
Tanto a instrutora como o Senhor Inspector-Geral Diplomático e Consular, que tem a ousadia de considerar o relatório final bem elaborado, não podiam deixar de saber que a referida contestação foi entregue, sabendo também que o signatário tem disso o devido recibo.
Não podiam os mesmos funcionários deixar de saber que, com excepção de uma pena de multa, de que não recorreu, o arguido não sofreu qualquer outra sanção disciplinar cuja decisão tenha transitado em julgado. E omitem esse facto determinante para a apreciação de Vª Exª.
Foi-se ao ponto de suspender o arguido – mais de dois anos depois da instauração do processo disciplinar – porque os testemunhos colhidos não eram considerados satisfatórios pela instrutora, do que derivou a conclusão de que ele estaria a intimidar as testemunhas, sem que do facto se registasse qualquer prova. Não se fazia melhor no tempo do Sr. José Estaline.
Nenhum inquérito, ao invés, foi conduzido relativamente às irregularidades denunciadas relativamente ao Consulado Geral de Portugal em Genebra. E deu-se um crédito desmesurado a uma testemunha que, com a consciência da realidade, escreveu aos colegas do consulado geral um postal das Maldivas (que está nos autos) em que afirma: « Tenham coragem e abandonem o navio, não se afundará mais do que está. » O postal em causa esteve algum tempo afixado na repartição…
Estou convicto de que Vª Exª foi enganado. A prova dos nove virá com a resposta ou a não resposta a esta carta.
Eu sei que os interesses organizados no Ministério dos Negócios Estrangeiros são muito fortes. E penso que é por isso que a nossa representação externa prima, salvo raras excepções, por uma péssima qualidade em matéria de serviço público.
Sinto-o todos os dias, porque o meu escritório, que é um escritório pequeno, dá assistência jurídica a centenas de portugueses residentes no estrangeiro e a pequenas empresas que ousaram dar passos na internacionalização.
Ainda há consulados onde lhe respondem que o «Diário da República» está fechado no cofre, se quiser consultar o do dia X.
Na maior parte deles não há ninguém que saiba fazer uma simples escritura de habilitação de herdeiros.
Mas é na área do registo civil e da nacionalidade – área em que trabalhava, no Consulado de Genebra, com excepcional competência o Sr. Manuel de Melo – que se verificam as maiores barbaridades. Ainda recentemente fui confrontado com a transcrição do casamento de um cidadão inexistente com uma cidadã portuguesa. Também há pouco tempo me apareceu no escritório, em Lisboa, uma cidadã residente na Austrália para tratar de um assunto… que só podia ser tratado na Austrália, num consulado local que, segundo ela, lhe deu indicações para vir a Lisboa, porque aí resolveria mais rapidamente a questão.
Por toda essas experiências, bem compreendo, a indignação de Manuel de Melo e a sua preocupação na defesa dos interesses dos cidadãos que nele confiam e que o sufragam. E bem compreendo, também, a postura da Inspecção Diplomática e Consular, apostada na defesa de uma diferente visão do interesse público.
Ainda recentemente a mesma Inspecção tomou conhecimento de que os comensais de um banquete oferecido pelo ICEP aos mais importantes compradores de vinho da Áustria ficaram sem comida pela simples razão de que o prato principal, que era um saboroso vitello tonato tinha sido «desviado», na sua maior quantidade, para a arca frigorífica do Embaixador em Viena. Isto é um furto, ou pelo menos ou intolerável abuso. Mas nada aconteceu, para além de pressões sobre os funcionários para que se calassem.
De que vale ter uma Inspecção assim?
Se eu fosse ao Sr. Ministro acabava com ela imediatamente e sujeitava as repartições externas à inspecção da Inspecção Geral da Administração Pública, com os mesmo rigorosos critérios de legalidade que esta aplica no território nacional.
Há barbaridades que nem lhe passam pela cabeça, tais são as dimensões dos abusos de um lado e das omissões do outro.
Tenho esperanças de que Vª Exª, que é um profundo conhecedor da Administração Pública, terá, para do conhecimento, a coragem de adoptar medidas para enfrentar este estado de coisas, com a maior urgência.
Não o resolverá pelo método tradicional do MNE, que consiste em eliminar os funcionários interessado numa mudança que aproxime a qualidade dos serviços consulares dos padrões do serviço público que se pratica em Portugal.
Temos comunidades espalhadas por todo o Mundo, com gente que soube, em percentual acentuado, ter sucesso na vida.
Essas comunidades têm um valor inestimável no quadro de globalização que marca os nossos dias. Não podem ser tratadas com o despreza de que têm sido alvo.
Os portugueses residentes no estrangeiro não têm hoje representantes no Parlamento, porque os partidos políticos tudo têm feito, para, de forma reiterada evitar candidaturas viáveis oriundas das próprias comunidades. Este fenómeno tem afastado muitos dos nossos compatriotas da vida associativa com maior marca política, nomeadamente da actividade partidária.
A visão que boa parte do seu pessoal tem dos portugueses residentes no estrangeiro é a de que são uns broncos, uns atrasados, uns incultos, esquecendo-se que eles são a imagem da parte mais activa do País que somos, vista há umas dezenas de anos e melhorada com o apport que lhes deram os países de acolhimento. Ainda recentemente ouvi classificar o homem que faz os relógios mais caros do Mundo (o aguedense Carlos Dias, dono da Roger Dubuy) como um saloio, um alarve, um inculto, quando se trata de um homem notável, pela simples razão de ter nascido em Águeda e de ser hoje um dos mais prestigiados, se não o mais prestigiado relojoeiro do Mundo.
Em S. Paulo, onde estou actualmente, o Consulado Geral fechou as portas há vários meses, de forma absolutamente ilegal. Há uns negócios mal esclarecidos relacionados com a mudança, que a meu ver indiciam o que a lei penal qualifica como corrupção. Não me parece que seja lícito aos representantes de Portugal receber subsídios para a mudança dos escritórios de empresas que depois são favorecidas no atendimento. Pensar o contrário é admitir que a SONAE pode financiar a mudança da Repartição de Finanças da Amadora para um prédio junto ao Continente de forma a «facilitar» o seu relacionamento com o fisco.
Temos, nesta cidade de 18 milhões de habitantes, um consulado de porta fechada, onde nada funciona senão para uma minoria, que é «muito minoritária». Ainda num dia deste soube que o Presidente do Banif Primus mandou àquela repartição um funcionário superior para entregar pessoalmente ao cônsul um convite para a inauguração das novas instalações do Banco e que o mesmo não conseguiu passar o portão da entrada, obrigado que foi a entregar o convite ao segurança que vigia o jardim.
Se as portas não estão abertas para o serviço normal, não faz sentido que o estejam para os desgraçados. Por isso, o consulado encontrou um modo engenhoso de afastar das suas portas os infelizes, os que precisam de apoio, os que não tiveram sorte neste País. Contratou com a Provedoria Portuguesa – uma respeitável instituição humanitária da comunidade – a triagem dessa gente, de forma a que a mesma não lhe apareça à porta, quando o que era correcto seria receber esses portugueses nas instalações consulares e aproveitar a capacidade da Provedoria para lhes dar o apoio adequado.
Com isto se esvazia a função social do consulado e se reduz a capacidade de intervenção da Provedoria, a quem deveriam ser dadas as condições para encontrar soluções concretas, não burocráticas, para a solução dos problemas, desde o da fome, ao da saúde, passando pelo do alojamento.
Como no Fahrenheit 19, há aqui uma completa inversão de valores, porque o interesse não é, afinal, o de resolver os problemas concretos das pessoas mas o de – porque são miseráveis – as afastar das instalações consulares.
A meu ver, tudo isto decorre de uma ideia de poder, que se tem na representação externa e que é absolutamente possidónia, balofa, parola. Num consulado, qualquer funcionário tem um poder incrível. E o cônsul é – não há regra sem excepção – uma espécie de governador colonial, que lhe advêm de uma desactualizada ideia representante do Estado central.
Parece-me que é preciso introduzir profundas mudanças nesta matéria, separando claramente o que é função diplomática, atributo dos embaixadores, da função consular, marcadamente administrativa, que tem de reger-se pelas mesmas regras que, em países civilizados como o nosso, regulam o funcionamento dos serviços públicos.
Deveriam ser, a meu ver, carreiras distintas, marcada a última por uma vocação essencialmente administrativa e não política.
Parece-me que o País ganharia se, à semelhança de outros, tivesse um percentual razoável de embaixadores políticos, com um tempo limitado de mandato, que pudessem levar ao Ministério um refrescamento da sociedade civil e acabar com essa ideia de «casta» que todos temos por relação aos diplomatas.
Mas parece que, sobretudo, é indispensável mexer profundamente na organização consular, pensando nas funções que ela deve ter nos tempos de hoje.
Penso que é magnifico o exemplo das Lojas do Cidadão. O ideal seria que cada um dos nossos consulados pudesse ser (para os portugueses e para os estrangeiros) uma Loja do Cidadão, com aquela operacionalidade e aquela eficácia que lhes conhecemos.
Sairia muito mais barato ao Estado e dava do nosso País uma imagem de modernidade que ele não tem no exterior, perante quem tem que recorrer aos serviços consulares.
Ainda há muito pouco tempo fomos confrontados, no nosso escritório de S. Paulo, com o problema de um empresário português de Curitiba, que precisava de passaportes para os seus filhos menores, também portugueses, para viajar para os Estados Unidos passadas duas semanas. Porque não tinham bilhete de identidade, teriam que pedir esse documento e o passaporte. Face ao impossível acesso ao consulado de Portugal, ajudamo-lo a obter dois passaportes brasileiros e vistos no consulado dos Estados Unidos. Os vistos foram obtidos em dois dias, sendo certo que em situação idêntica seriam necessários uns 90 na nossa repartição consular.
Digo há alguns anos que, para além do pessoal auxiliar indispensável, nomeadamente tradutores de qualidade (tão raros) um consulado precisa de ter um notário/conservador, um funcionário da administração fiscal e um funcionário do SEF, com as correcções numéricas justificadas pelas necessidades do serviço.
Uma boa parte dos cônsules poderia ser eliminada, com enormes vantagens, bastando um cônsul por país e adopção de um modelo assente na multiplicação de escritórios consulares, muito leves, modernos e funcionais. As cadeias de responsabilidade deveriam ser estabelecidas, no plano funcional, entre os próprios funcionários e os respectivos serviços (registos e notariado, administração fiscal e SEF).
Esta é a visão de um humilde advogado, com alguma experiência nesta área e com uma casuística que cresce desmesuradamente em razão da ineficácia dos serviços referenciados. Mas é também a visão de uma boa parte dos líderes locais das comunidades que melhor conheço.
Tendo esta visão das coisas e conhecendo tão bem o fosso que separa a qualidade dos serviços consulares da qualidade média dos serviços públicos portugueses, compreenderá o Sr. Professor que lhe manifeste a minha indignação com o que se passou com o processo em referência.
O que Vª Exª fez – acredito que não dolosamente – foi decapitar um cidadão activo por causa das suas opiniões sobre o serviço público em que é empregado, apesar de ele estar a isso obrigado por força do seu estatuto de membro do Conselho das Comunidades Portuguesas. Uma tal prática não é conforme com a tradição da sua família política.
Está a tempo de ler o processo e reparar o dano. Se o não fizer, mudarei a ideia que construí sobre a sua pessoa.
Sendo a questão política, nem sequer valerá a pena pedir a um tribunal a anulação do acto. Ficaremos a saber, se nada for mudado, que o Sr. Professor instaurou a censura no Ministério dos Negócios Estrangeiros e que nada de essencial mudará no seu Ministério.
Convidá-lo-ei, se for o caso, para assistir ao lançamento de um livro que hei-de escrever sobre este assunto e em que revelarei tudo o que até ao momento não tive a coragem de usar nos processos, em obediência à separação de águas que deve haver entre a Política e a Justiça.
Desculpe-me o tempo que lhe ocupei com questões tão desagradáveis para ambos.

Receba os melhores cumprimentos do

Miguel Reis

Por onde andam os dinheiros?

O post anterior reavivou-me a memória sobre uma velha história, que importa ser recuperada a bem da clareza e da seriedade das instituições.
Nos anos 90 o Tribunal de Contas constatou que «faltavam» cerca de 5 milhões de contos nos Consulados e nas Embaixadas de Portugal espalhados pelo Mundo.
O assunto foi comentado como sendo coisa muito grave, por faltarem prestações de contas por parte de muitas «pessoas respeitáveis», que teriam levantado o dinheiro e não teriam cumprido a obrigação de prestar contas sobre o seu uso.
Disse-se na altura que teria que se encontrar uma forma de regularizar a situação sem manchar a imagem do Estado, mas nunca mais se soube que forma foi essa.
Será que os responsáveis por tais levantamentos de dinheiro já prestaram contas ou já devolveram o dito? Ou será que foi tudo abafado?
Era bom que o assunto se esclarecesse...

Curiosa notícia...

Muito interessante esta notícia, que me caiu na caixa do correio, com o título «Capital portugueses no Brasil - ICEP lança pesquisa»
Reproduzo:

«A delegação do ICEP/ Portugal em São Paulo vai realizar uma pesquisa junto às empresas brasileiras com capitais portugueses, denominada “Análise ao Investimento Directo Português no Brasil – 2005”. Objectivo: fazer um ponto de situação sobre os investimentos portugueses no Brasil e actualizar a publicação “Quem é Quem – Empresas com Capitais Portugueses no Brasil”. A iniciativa, que conta com o apoio do embaixador de Portugal em Brasília, Francisco Seixas da Costa, e a colaboração do Conselho das Câmaras Portuguesas de Comércio no Brasil, justifica-se pela circunstância dos investimentos portugueses no Brasil serem bastante elevados e terem atingido já, na sua maioria, uma fase de consolidação e, em muitos casos, mesmo de ampliação. De acordo, com João Mota Pinto, delegado do ICEP em São Paulo, “com esta pesquisa, que será o mais completo trabalho realizado sobre o investimento português no Brasil, pretendemos avaliar, entre outros aspectos, o grau de satisfação dos investidores com os resultados obtidos até agora, assim como a existência de estratégias de expansão.” Por outro lado, esta é uma oportunidade para conhecer melhor alguns investimentos, especialmente na região nordeste, bem como para reforçar o canal de comunicação entre as empresas e as autoridades portuguesas. De acordo com o Banco Central do Brasil, Portugal investiu já neste país um montante global superior a 11 mil milhões de dólares. A presença empresarial portuguesa – mais de 600 empresas - estende-se aos mais diversos sectores de actividade, assegurando para cima de 100 mil empregos, com um facturamento anual aproximado de 10 mil milhões de dólares. As conclusões da “Análise”, assim como a reedição da publicação “Quem é Quem” serão divulgadas aquando do III Congresso Empresarial Brasil-Portugal, que terá lugar de 31 de Outubro a 1 de Novembro deste ano, em Salvador.»
Diz-se na minha terra que quem não tem mais que fazer abre o dito e apanha moscas.
Os investimentos portugueses no Brasil são conhecidos, porque estão sujeitos a registo no banco central. Daí que seja desnecessária qualquer pesquisa para tomar conhecimento do que se conhece.
Poderia e deveria, eventualmente colocar-se uma questão que é a de saber se todos os investimentos que figuram como portugueses nos registos do banco central o são efectivamente e se não haverá outros investimentos que, figurando em nome de outro país, são portugueses.
Há investimentos feitos no Brasil através de empresas portuguesas que são brasileiros e se inserem num quadro normal de gestão de fortunas. Esses valores são crescentes e têm já um significado apreciável.
De outro lado, há investimentos de capitais portugueses feitos através de empresas sediadas em outros países. Eu próprio tenho alguns clientes que estão a investir no Brasil através de empresas sediadas em Espanha, porque contam com um nível de apoios que as entidades públicas portuguesas não oferecem.
O ICEP como que desapareceu quando foi integrado no Consulado de S. Paulo. Ninguém consegue falar com aquela gente. E é pena, porque funcionava muito bem, tinha excelentes funcionários e produzia informação de qualidade.
Soube recentemente que uma das maiores preocupações da «delegação» seria a de saber se os funcionários dos Instituto poderiam ser reconhecidos como diplomatas pelas autoridades brasileiras e que, a propósito, terão sido pedidos custos de pareceres jurídicos a dois importantes escritórios de advogados.
A informação que circula nos meios geralmente bem informados de S. Paulo é a de que foi adjudicado o parecer mais caro, por valores que ultrapassam tudo o que é normal para trabalhos desse tipo.
Importa saber agora quem fará a pesquisa, como foi contratada (se é que o foi) e quanto custará. É altura de exigir que as instituições da nossa representação externa sejam transparentes.