sábado, fevereiro 11, 2006

Ainda sobre a Liberdade

Belo manifesto o que Tiago Barbosa Ribeiro e Rui Bebiano publicaram para colher adesões na internet.
Afasta-se, porém, da questão central que é a da guerra, para se colocar ao serviço dela e de um dos lados.
Como pode falar-se de Liberdade quando se partiu o Mundo em dois (o ocidental e o islâmico) e só se considera a Liberdade dos militarmente vencedores?
O Iraque já foi um país quase laico. Em todos os paises árabes o Islão tem servido para re-ligar especialmente quando as condições políticas não contêm outros elementos de coesão. O cristianismo já fez o mesmo; e não é preciso ir aos tempos da guerra santa, bastando-nos que fiquemos pelos tempos da inquisição.
Invocar Erasmo, Voltaire, Giordano Bruno ou Galileu é reconhecer isso mesmo. Também os haverá nas sociedades islâmicas, mas correm os mesmos riscos que aqueles correram se adoptarem idênticas atitudes.
As religiões relevam, todas, no essencial do dogma, infiltrado na consciência colectiva como tal e não como outra coisa. E os dogmas, quando afectam uma sociedade, só podem pôr-se em causa por dentro.
Pretender forçar as sociedades islâmicas a mudar os seus valores é de uma violência tão forte como a da pretensão do Sr. Osama Bin Laden de levar os Islão à América.
Deixem-se pois de brincadeiras, meninos.

MANIFESTO

Um conjunto de cartoons satíricos sobre Maomé originalmente publicados num jornal dinamarquês e republicados pela generalidade da imprensa ocidental fizeram eclodir uma impressionante onda de violência em alguns países islâmicos. Um ódio que assemelha a algo de irracional, inflamado nas multidões de rua, transformando-se assim na representação de uma vaga de barbárie.
Numa democracia, as opiniões só existem na medida em que existe igualmente liberdade para as exprimir, divergir e criticar. Em cada momento histórico, há um determinado universo de valores que só é dominante porque os sujeitos sociais os partilham de uma forma comum e plural. Em regimes autoritários, esse consenso é forçado por via de uma estrutura repressiva que se impõe aos cidadãos. Na generalidade dos países islâmicos, uma religião é aliada desse aparelho coercivo.
Plasmando-se ao poder político, as simbologias criadas por uma leitura dessa religião geram as próprias condições de reprodução do autoritarismo.
Actualmente, a incapacidade de articulação de um discurso moderado no interior do Islão transforma essa realidade num cenário particularmente crítico. Afirmá-lo é constatar algo que só um proselitismo feroz pode confundir com preconceito ou xenofobia, sobretudo quando isso é valorizar todos aqueles que no terreno não cedem ao cativeiro do fundamentalismo islâmico. Em condições sempre dramáticas, tantas vezes assumindo o exílio ou a morte contra fatwas assassinas.
Há, no Ocidente, quem queira conscientemente evitar abordar o essencial.
Porque é absolutamente irrelevante se os cartoons são ou não ofensivos, se são ou não ‘despropositados’. Não há aí matéria de discussão. Todos os dias nos deparamos na imprensa com opiniões ofensivas e/ou despropositadas. Por isso é que são opiniões. Por isso é que são publicadas em páginas de jornais. Por isso é que lhes podemos contrapor argumentos sem medo. E é tudo isso que nos enriquece enquanto membros de uma comunidade democrática, com opiniões que são tantas vezes execráveis mas nunca atentatórias da integridade de quem delas discorda.
Em 1689, John Locke escrevia na sua Carta sobre a Tolerância que «a tolerância […] aplica-se ao exercício da liberdade, que não é licença para fazer tudo o que se deseja, mas o direito de obedecer à obrigação, essencial a cada homem, de realizar a sua natureza». Mais de três séculos depois, ainda se justifica uma violência cega como legítima reacção à ‘blasfémia’. Quem o faz, aceita regredir na capacidade de afirmar o princípio da diferença como o princípio inalienável da realização individual, seja ela minoritária ou não na sociedade em que se insere. Daí a separação formal entre Estado e igrejas nos países democráticos, permitindo uma volatilidade dos laços morais que será tanto maior quanto a sua relação com a diversidade das práticas, das vivências e dos costumes.
Após o 11 de Setembro de 2001, a generalidade das discussões sobre este tema estão viciadas entre o radicalismo bélico e o militantismo relativista. Este documento é por isso um contributo para explorar uma alternativa a essa dicotomia, subscrito por cidadãos e cidadãs com percursos distintos e filiações políticas muito diversas, à esquerda e à direita, com ou sem religião, que têm leituras certamente opostas quanto ao terrorismo e à sua prevenção. Em comum têm porém a recusa na cedência de um conjunto de princípios que, no seu entender, poderão traduzir parte do património civilizacional ocidental. A começar pela liberdade de expressão, que pode e deve ser um valor universal.
Os apelos de governos europeus para a ‘responsabilidade’ no uso dessa liberdade de expressão são a metáfora de um complexo de culpa em relação a algum passado histórico do Ocidente que não pode ser esquecido. Mas que também não pode servir de intermediário a todas as leituras sobre o tempo presente. Qualquer vírgula colocada na liberdade de imprensa será um silêncio a mais. Pedir desculpa pela emissão de uma opinião livre publicada num jornal europeu será pedir desculpa pela Magna Carta, por Erasmo, por Voltaire, por Giordano Bruno, por Galileu, pelo laicismo, pela Revolução Francesa, por Darwin, pelo socialismo, pelo Iluminismo, pela Reforma, pelo feminismo. Porque tudo isso nos une na herança de um processo histórico que aparece agora criminalizado pela susceptibilidade de um dogma impositivo, incapaz de olhar o outro. Do mesmo modo que tudo isso nos separa daqueles que, sem concessões, reclamam uma superioridade civilizacional para a sua civilização. Qualquer que ela seja.
Os primeiros signatários,
Tiago Barbosa Ribeiro e Rui Bebiano
Porto e Coimbra, 9/2/06

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

Do direito à provocação

Chegou-me hoje por e_mail a mensagem que abaixo reproduzo.
Parece-me que esta gente não tem a mínima noção do que é o Mundo e muito menos do que é o mundo muçulmano.
A história destas caricaturas não tem comparação com a do célebre preservativo no nariz de João Paulo II. É que o Papa fazia parte da nossa sociedade e da nossa cultura; e Maomé não faz.
Sou ateu, graças a deus. Mas tenho o maior respeito pelas opções religiosas de cada povo e pelos respectivos estádios de desenvolvimento.
Por muito menos, morreram milhares de pessoas nas fogueiras da Inquisição, nos tempos em que o catolicismo era um factor político agregador, do mesmo tipo que o é, nos nossos tempos, o islamismo. E isso não tem a ver com o tempo, mas com a situação das sociedades e os respectivos elementos agregadores.
Se o Islão é um elemento essencial da coesão das sociedades muçulmanas, que direito temos nós de fomentar uma nova cruzada, tão estúpida como esta, sabendo com sabemos que tocamos num dos aspectos mais vulneráveis dos sentimentos desses povos?
Estamos no domínio da ingerência e da provocação gratuitas, sabendo à partida, quais são os resultados.
É absolutamente natural que queimem as embaixadas dos países que aplaudem a provocação. Porque a provocação é adequada a esse tipo de reacção, que pode prever-se com a maior facilidade, desde que se conheçam esses povos.
Porque é que havemos de ser solidários com as asneiras dos outros?
Não está aqui em causa a liberdade de expressão.
O que está em causa é o direito à provocação. Será que ele é defensável?

Na próxima 5ª feira, 9 de Fevereiro, pelas 15 horas, um grupo de cidadãos portugueses irá manifestar a sua solidariedade para com os cidadãos dinamarqueses (cartoonistas e não-cartoonistas), na Embaixada da Dinamarca, na Rua Castilho nº 14, em Lisboa.
Convidamos desde já todos os concidadãos a participarem neste acto cívico em nome de uma pedra basilar da nossa existência: a liberdade de expressão.
Não nos move ódio ou ressentimento contra nenhuma religião ou causa.
Mas não podemos aceitar que o medo domine a agenda do século XXI.
Cidadãos livres, de um país livre que integra uma comunidade de Estados livres chamada União Europeia, publicaram num jornal privado desenhos cómicos.
Não discutimos o direito de alguém a considerar esses desenhos de mau gosto. Não discutimos o direito de alguém a sentir-se ofendido. Mas consideramos inaceitável que um suposto ofendido se permita ameaçar, agredir e atentar contra a integridade física e o bom nome de quem apenas o ofendeu com palavras e desenhos num meio de comunicação livre.
Não esqueçamos que a sátira ? os romanos diziam mesmo "Satura quidem tota nostra est" ? é um género particularmente querido a mais de dois milénios de cultura europeia, e que todas as ditaduras começam sempre por censurar os livros "de gosto duvidoso", "má moral", "blasfemos", "ofensivos à moral e aos bons costumes".
Apelamos ainda ao governo da república portuguesa para que se solidarize com um país europeu que partilha connosco um projecto de união que, a par do progresso económico, pretende assegurar aos seus membros, Estados e Cidadãos, a liberdade de expressão e os valores democráticos a que sentimos ter direito.
Pela liberdade de expressão, nos subscrevemos

Rui Zink
Manuel João Ramos
Luísa Jacobetty

terça-feira, fevereiro 07, 2006

A questão dos Conselheiros e Adidos

O Conselho das Comunidades Portuguesas publicou um comunidado em que verbera a revogação dos contratos celebrados com diversos conslheiros e adidos de do Ministério dos Negócios Estrangeiros.
Verbera contra a denúncia de 4 contratos, dando implicitamente o seu assentimento à revogação dos outros 35, menos um, que, ao que parece, já terá sido revisto. Isso é, em si mesmo, sintomático da crise. Afinal 34 dos contratos podem, segundo a interpretação que fazemos do comunicado, ser postos abaixo, com a inerente poupança de dinheiros públicos.
Defendo, há anos, que o Ministério dos Negócios Estrangeiros deve ser auditado e fiscalizado nos mesmos termos em que o são os demais. Estou convencido de que, se isso acontecesse, tudo estaria melhor e não teríamos que lamentar os desperdícios de que a postura do próprio CCP é sintomática.
O ministro Freitas do Amaral fica a ganhar por 34-5 se der ouvidos ao CCP. Mas perde aos pontos quando - sejamos sérios - substitui Maria Elisa, uma jornalista experiente, pela filha de um diplomata, que não tem nem idade nem experiência para o desempenho do cargo. Ou quando, sem critério que não seja político, mantém outros jornalistas em postos idênticos, sem apresentar nenhuma justificação.
É verdade que a Maria Elisa é do PSD. Mas é profissional competente, cuja substituição só pode entender-se para abrir o caminho à tal jovem, que ninguém conhece mas que tem o mérito de ter saido da vagina da mulher de outro ministro.
Comunicado do Conselho das Comunidades Portuguesas
O Conselho das Comunidades Portuguesas (CCP) soube pela imprensa, da decisão do Ministério dos Negócios Estrangeiros, de revogar contrato de 39 dos 96 Conselheiros e Adidos nas Embaixadas de Portugal.

O CCP compreende, evidentemente, a necessidade de “reorganizar” o quadro técnico especializado do MNE. No entanto, e enquanto orgão de Consulta do Governo para questões relacionadas com as Comunidades Portuguesas, mantem sérias reservas quanto à oportunidade da revogação de alguns desses contratos.

Já em reunião de 7 de Dezembro, o Presidente do Conselho Permanente das Comunidades Portuguesas pediu ao Secretário de Estado das Comunidades que não fossem revogados contratos com os Conselheiros e Adidos de Embaixada cujo trabalho esteja directamente relacionado com as Comunidades Portuguesas.

Apesar de na nota dirigida às redacções, o Ministro dos Negócios Estrangeiros ter evocado uma análise “em profundidade” com os Secretários de Estado e Subsecretário Adjunto e mediante pareceres do Secretário-Geral do MNE, do Director-Geral de Política Externa, do Director-Geral dos Assuntos Multilaterais, da Presidente do Instituto Camões e do Director do Gabinete de Informação e Imprensa, mais uma vez, nos assuntos directamente relacionados com as Comunidades Portuguesas, não houve preocupação de concertação com as mesmas nem com os seus representantes.

Das 39 rescisões agora anunciadas pelo MNE, o Conselho das Comunidades Portuguesas estranha a extinção dos Conselheiros e Adidos Sociais em Ottawa, Haia, Bruxelas e Brasília.

Por exemplo, como pode um Governo preocupado com os Portugueses residentes no estrangeiro, suprimir o posto de Conselheiro Social na Embaixada de Portugal em Haia, sobretudo neste momento em que se denunciam cada vez mais problemas com cidadãos portugueses que necessitam de apoio por estarem a ser explorados por empresas holandesas? Tanto mais que, como se sabe, o Consulado de Portugal naquele país não tem qualquer técnico de serviço social para acompanhar estas situações nem está prevista para breve qualquer alteração a esta situação por não haver concursos para funcionários consulares há vários anos.

Por outro lado, como pode um Governo preocupado com os Portugueses residentes no estrangeiro, suprimir o Conselheiro Cultural e Director do Instituto Camões no Luxemburgo, país onde reside uma Comunidade portuguesa com uma taxa demográfica importantissima?

O documento agora divulgado pelo Ministério omite qualquer informação quanto ao Conselheiro Social na Embaixada de Berlim, a cessar as suas funções brevemente por motivos de reforma, quando se prevê, apenas lá para “o Verão”, as novas admissões por concurso público. Como pode o Governo deixar esta Embaixada vários meses sem Conselheiro Social?

No entanto, o Conselho das Comunidades Portuguesas regista como positiva a recondução nos serviços do Conselheiro Social da Embaixada de Portugal em Berna, Dr. Manuel de Matos. O seu contrato foi revogado e agora voltou a ser readmitido. Esta decisão corresponde aos esforços desenvolvidos junto da Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas e do Ministério dos Negócios Estrangeiros, pelo Conselho Permanente do CCP e pela Secção local da Suíça, através dos repetidos apelos no decorrer dos meses de Dezembro e Janeiro. Na opinião do CCP foi corrigida a tempo uma decisão que poderia ter tido consequências muito graves para a Comunidade Portuguesa na Suíça e para Portugal.

O Conselho das Comunidades Portuguesas não se pronuncia, evidentemente, sobre as pessoas em causa nestas revogações, mas preocupa-se com o serviço, cada vez mais deficiente e insuficiente, que é prestado às Comunidades Portuguesas residentes no Estrangeiro.

Assim, o CCP exige que a Lei seja cumprida e que o Governo consulte, sempre que se trate de assuntos relacionados com as Comunidades Portuguesas, o seu órgão de consulta, eleito democráticamente e por sufrágio universal, para o efeito.



Carlos Pereira
Conselho das Comunidades Portuguesas
Presidente do Conselho Permanente

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

Isto da Justiça está mesmo a bater no fundo

Já nem vale a pena fazer queixas, mas não podemos deixar de nos indignar perante o que merece indignação.
Defendo um pobre homem a quem o patrão ficou a dever dois mil e tal contos em 1995, depois de um moroso processo judicial.
Instauramos a devida execução mas, coisa estranha, o processo não anda. Até a polícia vai na treta de acreditar que uma viatura nomeada à penhora foi vendida, porque o devedor lho afirmou, sem que se verificasse se o facto era verdadeiro ou falso.
É um processo de valor baixo, mas extremamente desgastante.
Insistimos em Novembro passado no sentido de que deveriam penhorar-se os bens nomeados, com a maior urgência.
Recebemos, na semana passada, uma informação do Tribunal do Trabalho de Sintra, dizendo que não é possivel prever a data do cumprimento da deprecada.
Porque isto é sintomático, não resisto a reproduzir neste blog a mensagem que mandei ao Conselho Superior da Magistratura
Exmº Senhor
Presidente do Conselho Superior da Magistratura

Representamos o Sr. (...) na execução nº..., que pende no 2º Juízo, 2ª Secção do Tribunal do Trabalho de Lisboa.
Este cidadão instaurou no ano de 1995 uma execução contra a Sociedade... Lda, para a cobrança do montante de 2.131.892$00 que aquela foi obrigada a pagar-lhe por decisão do Tribunal do Trabalho.
Por manifesta inércia do Tribunal, o processo não anda e os bens vão desaparecendo reduzindo-se todos os dias as probabilidades de o nosso cliente receber alguma coisa enquanto é vivo.
No dia 26/1/2006 fomos notificados de uma informação da Srª Juiz do Tribunal da Comarca de Sintra que esclarece que «devido à falta de funcionários, por falta de preenchimento do quadro e por baixas médicas sucessivas, da qual resulta grande acumulação de serviço, não se prevê data para o cumprimento da presente deprecada»
A carta precatória em causa foi enviada ao Tribunal do Trabalho de Sintra em 13/4/2005.
Porque não acreditamos que Vªs Exª aceitem ser coniventes com a falência do sistema judiciário, ficamos à espera de que adoptem as providências adequadas, perante esta nossa manifestação de indignação.
Em boa verdade, parece que já nem vale a pena fazer queixas.
Os meus melhores cumprimentos

Miguel Reis
Neve no Alentejo Posted by Picasa

Silêncio

Entendi não escrever nada sobre as eleições presidenciais e guardar um cuidadoso silêncio durante estes dias.
A vitória de Cavaco Silva é a consequência natural do que foram as campanhas.
No mesmo dia 22 parabenizei alguns amigos que tiveram responsabilidades na campanha vencedora.
Mário Soares foi igual a si próprio. Mas cometeu erros de palmatória.
Cavaco seguiu a mesma estratégia que deu a vitória a José Sócrates: discurso vago e distante, ignorando completamente os adversários.
Poderia não ter ganho se tivesse havido algum bom senso dos demais candidatos. Estava predestinado para ganhar com as campanhas que eles fizeram.
Importante é que, apesar de tudo, Soares saiu com honra deste combate solitário.
Talvez daqui a uns tempos volte ao assunto.

sexta-feira, janeiro 13, 2006

Um País em roda livre...

Das agências:
«O Presidente da República, Jorge Sampaio, afirmou esta sexta-feira que «a gravidade» dos factos noticiados pelo jornal 24 Horas quanto ao registo de chamadas telefónicas de dezenas personalidades políticas e altas figuras do Estado no âmbito do processo Casa Pia «exigem que as averiguações estejam ultimadas a curtíssimo prazo».
Numa declaração ao País, o chefe de Estado referiu que perante o conteúdo da notícia «tornava-se imperioso averiguar da sua veracidade e daí tirar as necessárias consequências disciplinares e políticas».
Situações desta natureza «não podem passar em claro», frisou Jorge Sampaio.
«Independentemente da responsabilidade disciplinar e criminal a que, concluídas as urgentes averiguações em curso, possa haver lugar pelos factos hoje noticiados, também delas tirarei, se for o caso, as adequadas consequências no exercício das minhas competências constitucionais», concluiu o Presidente da República. »
O País ficou atónito com o que muita gente imagina há muito tempo: acabou completamente a privacidade das comunicações telefónicas.
Cada um de nós é um potencial criminoso porque não é dificil retirar das nossas conversas excertos fora de contexto.
Ainda há pouco uma amiga e colega de há muitos anos perguntava ao telefone, referindo-se à mulher de um amigo comum: «Como está a heroina?»
A heroína é a mulher de um amigo nosso, que tem a coragem de o aturar e que por isso merece o título. Todavia uma conversa destas pode ser fonte do maior sarilho, envolvendo os interlocutores e as pessoas das suas relações. Claro que isto «cheira» logo a tráfico.
Este País está perigoso e o Dr. Sampaio continua na sua ingenuidade.
Inquéritos? Quem vai fazer os inquéritos? Serão os próprios que viciaram as regras do jogo?
O Dr. Sampaio já deveria ter concluído há muito tempo que o País precisa de outro Procurador Geral da República.
E é algura de pensarmos na necessidade de esta figura do Estado ter outra legitimidade.
O Procurador deveria ser eleito por sufrágio universal, na mesma data em que é eleito o Presidente da República.

Sem comentários

"De acordo Com O Correio da Manhã, Maria Monteiro, filha do antigo ministro António Monteiro e que actualmente ocupa o cargo de adjunta do porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros vai para a embaixada em Londres. Para que a mudança fosse possível, José Sócrates e o ministro das Finanças descongelaram a título excepcional uma contratação de pessoal especializado. Contactado pelo jornal, o porta-voz Carneiro Jacinto explicou que a contratação de Maria Monteiro já tinha sido decidida antes do anúncio da redução para metade dos conselheiros e adidos das embaixadas. As medidas de contenção avançadas pelo actual governo, nomeadamente o congelamento das progressões na função pública, começam a dar frutos. Os sacrifícios pedidos aos portugueses permitem assegurar a carreira desta jovem de 28 anos que, apesar da idade, já conseguiu, por mérito próprio e com uma carreira construída a pulso, atingir um nível de rendimento mensal superior a 9000 euros. É desta forma que se cala a boca a muita gente que não acredita nas potencialidades do nosso país, os zangados da vida que só sabem criticar a juventude, ponham os olhos nesta miúda. A título de curiosidade, o salário mensal da nossa nova adida de imprensa da embaixada de Londres daria para pagar as progressões de 193 técnicos superiores de 2ª classe, de 290 Técnicos de 2ª classe ou de 290 Assistentes Administrativos. O mesmo salário daria para pagar os salários de, respectivamente, 7, 10 e 14 jovens como a Maria, das categorias acima mencionadas, que poderiam muito bem despedir-se, por força de imperativos orçamentais. Estes jovens sem berço, que ao contrário da Maria tiveram que submeter-se a concurso, também ao contrário da Maria já estão habituados a ganhar pouco e devem habituar-se a ser competitivos. A nossa Maria merece. Também a título de exemplo, seriam necessários os descontos de IRS de 92 portugueses com um salário de 500 Euros a descontar à taxa de 20%. Novamente, a nossa Maria merece."
Do PortugalClub

terça-feira, janeiro 10, 2006

Não tenho nenhum ódio de estimação...

Não tenho nenhum ódio de estimação pelo Consulado Geral de Portugal em S. Paulo.
Tenho estado calado, não trazendo a este blog mais incidentes ou denúncias. Afinal, há outros lugares para tratar as coisas que são graves.
Não resisto, porém, a citar o que escreveu Manuel de Melo no PortugalClub:

Transcrevo a seguir o teor do telegrama que foi expedido pelo Gabinete do Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas para o Consulado Geral de Portugal em São Paulo, em 9 de Agosto de 2005.
Apesar das instruções serem precisas e claras, nada disto foi cumprido pelo cônsul em São Paulo, Luís Barreira de Sousa e pela sua cônsul-adjunta, Sofia Batalha, pois o consulado continua de portas encerradas ao público, causando prejuízos incalculáveis aos utentes que necessitam dos seus serviços.
PERGUNTO:
De que está à espera o ministro dos Negócios Estrangeiros, Freitas do Amaral, para instaurar os respectivos processos disciplinares a esses dois diplomatas e apresentar participação ao Ministério Público?
Será que a famigerada Inspecção Diplomática serve apenas para perseguir os funcionários administrativos do MNE que denunciam os desmandos dos diplomatas?
MANUEL DE MELO
Genebra/Suíça
«A experiência de funcionamento do Consulado-Geral em São Paulo, em muitos aspectos inovadora e positiva, abre uma zona de fragilidade, contrária ao Regulamento Consular, no que ao acolhimento e atendimento ao público diz respeito, nomeadamente pelas consequências da exigência de marcação para o atendimento (telefónica, fax, postal ou e-mail) e nas limitações de acesso às instalações que funcionam à porta fechada.Ora, considerando o disposto no artigo 9.º do Regulamento Consular e, bem assim, o princípio geral de que os serviços e organismos da Administração Pública se encontram ao serviço do cidadão, venho instruir Vexa no sentido de, em cumprimento da lei, e sem prejuízo de continuar a aceitar marcações para efeitos de atendimento, também por aqueles meios, passar a estar aberto ao público por um período mínimo de 4 horas diárias, à semelhança do que acontece na maioria dos postos consulares de Portugal no Brasil, em horário a fixar, e que por esta via seja igualmente garantido o atendimento prioritário a situações urgentes.Lembro ainda que é obrigatória a afixação, em local adequado, do horário de funcionamento do posto consular e dos editais e avisos exigidos por lei, bem como de quaisquer outros documentos de informação julgados úteis.»

Já sabia disto porque pedi uma certidão em que me foi dito precisamente o mesmo.

É gravíssimo o quadro de impunidade que vigora no Ministério dos Negócios Estrangeiros.

E não digo mais nada.

Freitas do Amaral é uma desilusão.


Paragem...

É bom parar uns dias mesmo que seja verdade o que diz o poeta: «não há machado que corte a raíz ao pensamento».
Tinha muitas coisas para escrever. Preferi não o fazer a quente.
Desculpem o meu silêncio os meus amigos que protestaram.

sábado, dezembro 31, 2005

Fim de Ano...

Parece que foi ontem a virada do século e já passaram cinco anos.
Os meu filhos cresceram e eu amadureci.
Portugal continua a ser o país mais corrupto da Europa e eu sinto-me um marginal feliz, um conservador relapso, que insiste em não embarcar nessas modernices que sangram esta desgraçada nação.
Este ano perdi vários amigos da minha geração, essencialmente por isso: porque não suportam o que eles qualificam como a minha «malvada língua». Não importa: como amigos destes não vale a pena ter inimigos.
Finaram-se alguns dos mais velhos, de quem guardo gratas recordações, como é o caso de Emídio Guerreiro. Ganhei outros, de quem não deixo o nome, para os não os marginalizarem, também.
Outros passaram a olhar-me de soslaio, como seu eu fosse um polícia ou um inspector de uma coisa qualquer, quando me limito a ser um crítico.
Ainda num dia destes um desses se mostrou agastado quando, numa roda de amigos e conhecidos, questionei a política de comunicação da PT, a propósito dos negócios do sector de media e venda da participação na UOL.
A PT fez passar para os jornais a ideia de que foram fabulosos negócios, nomeadamente o da UOL, que lhe terá permitido realizar um lucro de 165 milhões de euros. Já ninguém se lembra que a participação da PT na UOL resulta da integração da ZipNet na companhia e que a ZipNet custou a módica quantia de 400 milhões de dólares, dos quais 50 milhões para pagamento a advogados e consultores.
Já ninguém se lembra, tampouco, de quanto custou a Lusomundo e é importa que tudo isso seja esquecido, para que os otários não voltem para a rua questioner a competência dos gestures e a limpeza dos negócios.
Um dos dramas deste país está em que a sua riqueza se esvai de um lado na corrupção e de outro na especulação e no engano dos investidores, sem que aconteça o que quer que seja.

Foi uma surpresa para mim a qualidade de José Sócrates como primeiro ministro. Mas todo o terreno está minado à sua volta. Por mais que ele queira é quase impossível dar a volta a isto.
E se Cavaco ganhar vai ser o fim: é o bloco central de interesses na sua melhor forma e o fim da ética como referencial na política, a benefício de um economicismo que apenas permitirá o enriquecimento dos grandes e de uma teia de oportunistas sem ética e sem escrúpulos que aproveita os benefícios do «centro».
É que a corrupção de que falo não tem nada de ilegal, bem pelo contrário.
Pagar 1.000 pelo que vale apenas 500 só se justifica por via de uma actividade corrupta; mas é de uma dificuldade extrema provar onde esta corrupção existe, porque ela respeita, de um ponto de vista formal, todos os requisitos legais.
Vimos o que aconteceu com a formação profissional, área em que se gastaram milhões sem nenhum resultado.
Ouvimos agora falar de negócios milionários, também eles absolutamente regulares, mas em que é impossível deixar de pensar que alguém está a ganhar muito dinheiro de forma legal mas eticamente reprovável.
Ainda recentemente o Tribunal de Contas publicou um relatório sobre a reforma consular que indicia, de forma espantosa, comportamentos deste tipo. Mas não acontece nada, porque a fronteira entre a má gestão e a corrupção é difusa e a má gestão não é punida.
O Plano Tecnológico promete ser fonte da nova onda de práticas corruptas.
São milhões de euros e ninguém parece interessado em que se implemente um sistema de auditoria rigoroso que anule esta sangria de recursos.
Há negócios que se situam no plano da burla pura e simples, mas não há sensibilidade para os censurar, em boa parte por ignorância das tecnologias que envolvem as realidades.
Campo fértil dessas realidades é o da informática, onde, de vez em quando, constatamos que se gastaram milhões em operações que não valem sequer centenas.
Nuns casos tudo terá acontecido por mero desconhecimento dos responsáveis. Mas noutros estamos perante vigarices no seu estado mais puro.
Nem se diga que o know-how justifica tudo. Hoje o know how é muito aberto e é determinável, com rigor, o tempo útil que um programa demora a construir, sendo, por essa via determinável o seu custo razoável.
Parece, porém, que essa e outras transparências não interessam. Como não interessa nem a transparência e a facilidade dos concursos, que continuam bloqueados com mecanismos indutores de concorrência desleal.
Uma empresa nova mas sem histórico pode ter a melhor tecnologia e o melhor pessoal, mas não conseguirá fazer nada perante a burocracia do Estado se não tiver «histórico» ou não tiver uma grande cunha.

Há vícios que não são apenas estruturais. São estruturantes…
Muitos passam, infelizmente, pelos escritórios dos advogados, a coberto de um conceito ultrapassado de segredo profissional.
Há quem sustente (e é política oficial da Ordem dos Advogados) que o segredo abrange a lista dos clientes de cada advogado, nomeadamente porque a respectiva divulgação prejudicaria os profissionais colocados em pior posição, servindo de instrumento de propaganda dos que estão melhor no mercado.
É um argumento absolutamente falacioso.
O que é importante, na sociedade dos nossos dias, é que o público possa verificar ele próprio a existência de conflitos de interesses, por via de um registo que deveria incluir não só o nome dos clientes como os assuntos tratados quando eles, de algum modo, impliquem uma relação com o Estado ou com uma entidade pública.
Ainda recentemente uma conhecida advogada dizia numa entrevista a um jornal que a sua sociedade tem relações privilegiadas com um conjunto de câmaras municipais e que isso a qualifica, de forma especial, para assistir os particulares que tenham relações jurídicas com tais câmaras. É, obviamente, um raciocínio perverso e completamente viciado. Como é possível sugerir que alguém que tenha um litígio com uma câmara possa confiar no advogado que presta serviços à própria câmara?
Os contratos de advogados com entidades públicas deveriam ser mesmo públicos, para que todos os possamos auditar.
Porque foram celebrados com aqueles advogados e não com outros?
Se se invoca experiência e qualidade na prestação de serviços, onde está ela?
Todos temos o direito de saber, ou este país continuará a ser um país de compadres.
É uma vergonha o que se está a passar, com escândalos escarrapachados todos os dias nos jornais, envolvendo gente que passou ou está na política.
Não faz nenhum, mesmo nenhum sentido, que um advogado que queira dedicar-se à política possa continuar a advogar enquanto é deputado. Mas, sobretudo, é chocante que dele não haja um registo público de interesses que permita aos cidadãos saber que relações têm que possam ser beneficiadas pela sua actividade política.
Ou José Sócrates tem a coragem de mexer destas coisas ou acabará por ser sufocado por esta pouca vergonha.
O perigo está no bloco central de interesses que se consolidará, de modo fortíssimo, se Cavaco Silva ganhar as eleições. Por isso até há pessoas no PS a quem incomoda a ideia de Mário Soares vir a vencer.
O objectivo principal de 2006 deveria ser o de tirar Portugal do topo dos países corruptos na Europa.

terça-feira, dezembro 27, 2005

Dúvidas metódicas

Mário Soares é o candidato apoiado pelo Partido Socialista. Porém não se vê o apoio... Parece que o partido (que são os militantes) está congelado ou proibido de apoiar.
Tenho notícias de estruturas que querem fazer campanha, convencer cidadão que ainda não decidiram o sentido de voto, a votar Mário Soares. As «instruções» são no sentido de que devem ficar parados, porque não se quer que se veja a acção do partido.
Isto é um paradoxo... Ou será que esta candidatura é uma coisa muito mais complexa e bem diversa do que foi anunciado: uma operação de assassínio político de Mário Soares?
Há uma coisa de que não tenho dúvidas: Soares só ganhará as eleições se, para além do seu esforço pessoal, o PS se envolver interessadamente na campanha.
Por ele, com um grupo de amigos e acompanhantes, está a fazer o máximo.
Este País não pode parar, nem ficar à mercê do bloco central de interesses que nos oferece escândalos todos os dias...

quarta-feira, dezembro 21, 2005

Para memória futura...

Para memória futura, aqui fica a mensagem de fim do ano do Presidente do Conselho das Comunidades Portuguesas
Conselho das Comunidades Portuguesas conselho permanente


MENSAGEM DE FIM DE ANO


Caros Compatriotas,

Nesta quadra festiva formulo a todos os nossos compatriotas, Portugueses ou descendentes de Portugueses, residentes no estrangeiro, votos de Festas Felizes e um Ano de 2006 cheio de Prosperidade.
Sabemos que uma parte importante dos Portugueses que residem no estrangeiro estão bem na vida, mas não podemos esquecer aqueles que residem em países com problemas político-económicos que os privam das liberdades mais fundamentais. Também temos compatriotas nossas que vão passar esta quadra nas prisões, nos hospitais, e por vezes em casa, mas em condições de pobreza e de isolamento que em nada correspondem ao ambiente de festa que o Natal e a Passagem de Ano evocam.
Para além duma “simples” formulação de Votos de Festas Felizes, o Fim do Ano é também um período propício a retrospectivas e a balanços. No que diz respeito às Comunidades Portuguesas, força é de constatar que as mudanças não têm sido muitas. Há um sentimento de descontentamento constante na emigração. Um sentimento de abandono que persiste ao longo dos anos, independentemente das cores partidárias dos Governos. E esta situação não é natural. Têm sido dados, é verdade, alguns passos que consideramos positivos como por exemplo a recente abertura de um escritório consular na ilha da Córsega, a “automatização” do recenseamento eleitoral, a assinaura de acordos em matéria de Segurança Social com a África do Sul. A criação de um “Consulado Virtual” (em preparação) e da “Escola Virtual” (já implementada) também são passos interessantes, mas o Conselho das Comunidades Portuguesas considera que não resolvem, de maneira nenhuma, os problemas crónicos do atendimento consular e do ensino da língua portuguesa no estrangeiro. A estes problemas ninguém tem encontrado soluções.
O Conselho das Comunidades Portuguesas tem mantido um diálogo constante com o Secretário de Estado das Comunidades, mas força é de constatar, mais uma vez, que a Secretaria de Estado também não tem os meios necessários para resolver estes e outros problemas. O Orçamento de Estado para 2006, recentemente votado e aprovado, é disso o exemplo mais flagrante. É neste contexto que já tivemos reuniões com o Presidente da República, e muito recentemente estivemos reunidos com os Grupos Parlamentares com assento na Assembleia da República e com a Comisão Parlamentar dos Negócios Estrangeiros e Comunidades Portuguesas. Foram reuniões ricas que esperamos continuar a ter.
Também é neste contexto que solicitámos uma reunião com o Ministro dos Negócios Estrangeiros e temos já agendada, para Janeiro, uma reunião com o Primeiro Ministro. O Conselho das Comunidades Portuguesas está actuante e vigilante, como elo de diálogo com o Governo, com a Assembleia da República e com as demais Instituições portuguesas. Vamos continuar a levar os problemas e as preocupações de quem nos alegeu, até que estes sejam resolvidos. Vamos continuar na nossa trajetória de trabalho, seguindo uma acção serena, mas determinada, no sentido de atingir o grau de credibilidade necessário a permitir o debate efectivo dos problemas que afligem as nossas Comunidades, de forma coerente e responsável, longe dos desnecessários embates ideológicos e partidários aos quais o CCP deve estar alheio. Neste momento de crise económica, o nosso país tem de “descobrir” enfim, que tem cerca de cinco milhões de Portugueses e de seus descendentes, a residir no estrangeiro, que podem ser de grande utilidade para Portugal. Mas para isso, têm de ser ciadas as “pontes” que ainda não existem. Tem de haver uma verdadeira política para as Comunidades. São estes os votos que formulo para 2006.
Aos nossos compatriotas residentes no estrangeiro, peço que se inscrevam nos cadernos eleitorais, que procedam ao seu recenseamento e que votem, porque estou consciente que é com o voto poderemos chamar a atenção dos nossos governantes. Desejo a todos um Natal cheio de Paz, Harmonia e Amor, no convívio confortante das nossas respectivas famílias. Que no Ano Novo que se aproxima possa realizar os nossos sonhos, na conquista de melhores condições de vida, onde a saúde e a felicidade nunca faltem.
Carlos Pereira
Conselho das Comunidades Portuguesas Presidente do Conselho Permanente
Dezembro de 2005

sábado, dezembro 17, 2005

O milagre de António Costa

António Costa anunciou hoje que 1000 automóveis da GNR e da PSP passaram hoje a poder ter acesso a uma base de dados.
Há meses que isto poderia estar operacional, mas ninguém se lembrou.
É moderno, operacional, eficaz.
Não compreendi é como é que um projecto como este custa 2 milhões de euros.
Contas de cabeça:
1. Um laptop custa 1.000 euros, mas se se comprarem 1.000 não custa mais de 600 euros.
1. Um palmtop com acesso à internet custa cerca de 600 euros, mas o valor também baixa substancialmente, se a compra for de quantidade apreciável.
Uma ERP adequada ao processamento dos dados não custa mais de 20.000 euros.
Há aqui uma diferença... que sugere que alguém ganhou muito dinheiro com esta operação que é um ovo de Colombo.
De qualquer modo, parabéns António Costa.

Portugal: um país enconado, segundo o El País

Segundo o El Pais, de Madrid, «los dos candidatos socialistas a las elecciones presidenciales portuguesas del 22 de enero mantuvieron un debate tan agrio ante las cámaras de televisión que hasta Aníbal Cavaco Silva, el candidato de centro-derecha y mayor beneficiado de esta división fratricida, se mostró ayer "sorprendido" por la "dureza y acritud" de la disputa.»
Não somos apenas nós quem pensa que Portugal é um pais enconado.
Também os espanhóis...

quinta-feira, dezembro 15, 2005

Bom senso e bom gosto

Tinha jurado a pés juntos que não voltaria a intervir no forum PortugalClub, do Casimiro Rodrigues.
Depois dos insultos a Mário Soares ali publicados, não resisti e enviei uma mensagem que, obviamente, o «director-presidente» não publicou.
Aquilo é dele, é ele quem paga ao provedor de Internet e, na lógica da propriedade privada, tem todo o direito de fazer o que quer, a começar por censurar os textos e por só publicar o que bem entende.
Nessa matéria, já estamos falados há muito tempo.
Esse é um dos aspectos em que o Casimiro é sério: só sai o que ele entende que deve sair.
A meu ver, foi infeliz, ao publicar um texto do blog http://arraiamiuda.blogspot.com/ que compara Mário Soares a Milosevic, acusando-o se d ser responsável por milhares de mortos.
Casimiro tem (agora) um ódio de morte a Mário Soares, não se sabe bem porquê, talvez porque é retornado da África e não conseguiu compreender o processo de descolonização.
Mas, em contrapartida, é militante do Partido Socialista - cujo programa seguramente não conhece - e apoia Manuel Alegre que foi um dos mais valorosos combatentes do colonialismo português.
Apesar de o homem adorar o ditador Salazar, a quem tece as mais ardentes loas, e de ter saudades do Portugalinho miserável que o obrigou a partir, almocei há uns tempos com ele em Lisboa, com o respeito que sempre voto às pessoas que, por causa da política obscurantista da ditadura, nunca tiveram oportunidade de atingir um nível médio de escolaridade mas têm a esperteza e a ousadia de fazer coisas notáveis.
Este Casimiro - tiro-lhe o chapéu - conseguiu montar um grupo de discussão frequentado por toda a gente que tem alguma intervenção nas comunidades portuguesas da diáspora. E toda a gente lhe vai ao beija mão e não o contraria, porque se contraria ele tem a tesoura e censura.
Tipo esperto, muito engraçado, atrevido...
É um daqueles protótipos em vias de extinção e por isso é bom que ele continue, para que possa ser visto, lido, observado pela gente que pensa a sociedade.
Não tenho dúvidas em afirmar que o trabalho do Casimiro e a deferência que lhe é dada pelos confrades poderia ser um excelente tema para um doutoramento numa universidade, porque é um caso, julgo que único nas comunidades portuguesas.
Por uma questão de bom senso e de bom gosto, eu não volto a escrever para aquele forum.
Mas vou continuar a lê-lo e a comentá-lo quando for necessário.
Aqui fica a última mensagem que lhe enviei e que, obviamente, não podia ser publicada:
Tinha prometido a mim próprio não voltar a participar no Portugal Club, por ter divergências relativamente à condução que dele faz o Casimiro, que ultrapassam todos os limites do conciliável.
Não significa isso que eu seja inimigo do Casimiro ou que tenha por ele menos consideração.
Bem pelo contrário: acho que é um homem arrojado, com todo o mérito que isso tem.
Respeito as suas posições e o exercício que faz das suas liberdade, de acordo com as suas opções. Mas discordo profundamente tanto das posições como da maneira que ele escolheu para exercer a sua liberdade de escrita.
A questão essencial que nos divide está no seguinte: a meu ver a liberdade de imprensa não pode exercer-se na base do insulto gratuito e do atentado permanente contra o direito à honra dos demais cidadãos.
É nisso que reside um dos pilares da Democracia.
Antes de tudo, eu não posso concordar que o director deste espaço apadrinhe o insulto gratuito a quem quer que seja. Foi Mário Soares, como poderia ser Cavaco Silva ou Jerónimo de Sousa.
Outra coisa são divergências políticas. E essas discutem-se e debatem-se noutro tom.
Se querem falar da descolonização, pois então falemos…
Qualquer pessoa sensata sabia que não éramos mais de dois milhões nas colónias ditas portuguesas; pouco mais do que os emigrantes que nos anos 60 e 70 tinham ido a salto para a Europa.
Toda a gente sabia, desde o princípio da década de 60, que as independências eram uma questão de tempo, pelo que deveriam ter sido preparadas, como o fizeram os países civilizados.
Toda a gente podia aperceber-se de que não havia nenhuma ligação entre o Povo que vivia no Continente e os que viviam nas colónias.
Só foram para a guerra os que não conseguiram evitá-lo…
E não foram apenas os estudantes, como eu era. Foram milhões de homens em idade de poder prestar serviço militar, que fugiram para França, para a Austrália, para a América, para a Venezuela, para o Canadá e para o Brasil, porque não tinham nenhuma quinta nem nenhum interesse para defender em África.
Portugal era, em 1974, um país miserável, com a maior taxa de analfabetismo da Europa, sem serviços de saúde, sem direito à reforma da maioria da população.
Uma viagem de Lisboa ao Porto demorava seis horas e uma viagem de Lisboa a Bragança demorava doze horas.
Hoje vai-se de Lisboa ao Porto em 3 horas e de Lisboa a Bragança em 5.
Tínhamos em 1974 um exército exausto, incapaz de continuar um combate sem futuro. E tínhamos uma população portuguesa nas colónias manifestamente diminuta e impreparada para forçar o jogo democrático.
Era evidente que não poderia essa população continuar a ter o domínio político, pela impreparação da maioria e pelo seu reduzido número.
Era previsível, como acontece em todas as revoluções, que essa população fosse atacada, como se veio a verificar.
Mário Soares e António de Almeida Santos foram os grandes artífices de uma operação de que já ninguém se lembra: a do retorno a Portugal de todos os que quisesse regressar.
Um pequeno país, miserável, à beira da falência conseguiu trazer para casa e integrar mais de um milhão de pessoas, o que correspondia a cerca de 10 por cento da sua população.
Houve danos, como era previsível. Mas foram comparativamente menos graves do que os sofridos pelos franceses na Argélia e no Congo e que os sofridos pelos belgas no Zaire.
A descolonização não foi exemplar, porque não há descolonizações exemplares. Todas foram processos turbulentos e traumáticos…
Mas a nossa descolonização seria muito mais traumática se não fosse a acção de Mário Soares, pelo que é de uma enorme injustiça a onda de calúnias que lhe é dirigida.
Portugal esteve à beira de uma ditadura de sinal contrário em 1975.
Quem veio para a rua defender as liberdades? Quem tomou a liderança do grande combate que conduziu ao afastamento do Partido Comunista da área do poder?
Quem esteve na frente daquela grande manifestação na Fonte Luminosa que foi o princípio do fim do poderio dos comunistas? Quem esteve com os militares moderados do «grupo dos 9» no 25 de Novembro.
Foi novamente Mário Soares, o mesmo que, contra a opinião de Cavaco Silva forçou a entrada de Portugal na União Europeia, que arrancou o país de um quadro de miséria que a todos nos envergonhava.
Estava convencido de que o Casimiro tinha apreço por estes pequenos passos da História e que teria sido por isso que se inscreveu no Partido Socialista.
Estava convencido de que, apoiando como declarou apoiar a candidatura de Manuel Alegre – uma das personalidades mais carismáticas da luta contra o colonialismo português, a partir da rádio «Voz da Liberdade» sedeada na Argélia – não cooperaria na sujice que aqui se fez, insultando-se um cidadão que é, ele próprio, a personificação do Portugal moderno de que todos nos orgulhamos.
Enganei-me e fico triste.
Acho que o melhor que o Casimiro tem a fazer é mesmo demitir-se do Partido Socialista, onde, obviamente não podem caber pessoas que pensam como o senhor pensa. Talvez haja outro partido em que o Casimiro tenha lugar, porque a democracia tem essa enorme virtualidade que não tinha o regime do Dr. Salazar que o Presidente do PortugalClub tanto aprecia.
Espero bem que o Casimiro não venha num dia destes a defender a destruição das pontes e das auto-estradas e o encerramento das escolas, para voltarmos aquele Portugalinho que tanto se distinguia dos demais países europeus, por ser o mais miserável de todos.

Miguel Reis
Lisboa

quarta-feira, dezembro 14, 2005

Perigo e insensatez...

Há leis que são más.
Há outras que são simplesmente perigosas.
Imaginem que qualidade pode ter uma «Justiça» que exige que as alegações de um recurso de decisão num processo em que houve dezenas ou centenas de sessões sejam apresentadas no prazo de quinze dias (corridos) após a leitura da sentença.
Há julgamentos que duram mais do que 15o horas pelo que, sem mais, a audição das gravações demora um mínimo de 150 horas, que correspondem a 15 dias de 10 horas.
Pergunto como é possivel fazer um trabalho sério com estas limitações.
Um perigo e uma insensatez...
Seria razoável que o prazo fosse de quinze dias acrescidos de 1 dia por cada 5 horas de gravação.
É o mínimo para que se possa falar de seriedade de processos.
Acórdão do STJ n.º 9/2005, de 11 de Outubro de 2005
Processo n.º 3172/04, Pleno das secções criminais / Supremo Tribunal de Justiça. Henrique Gaspar, relat.
"Nestes termos, confirma-se o acórdão recorrido, fixando-se a seguinte jurisprudência: Quando o recorrente impugne a decisão em matéria de facto e as provas tenham sido gravadas, o recurso deve ser interposto no prazo de 15 dias, fixado no artigo 411.º, n.º 1, do Código de Processo Penal, não sendo subsidiariamente aplicável em processo penal o disposto no artigo 698.º, n.º 6, do Código de Processo Civil". In Diário da República. - S.1-A n.233 (6 Dez. 2005), p.6936-6941. https://www.dre.pt/ Texto disponível na Bases de Jurisprudência do STJ: http://www.dgsi.pt/jstj.nsf?OpenDatabase
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terça-feira, dezembro 13, 2005

Pelo preço que ma contaram...

LEXPRESS.fr - Le transport aérien - Airbus : les dessous du contrat chinois - L'Express

Quando da última visita de Putin a Lisboa, nos finais do ano passado, foi pedido a um empresário português, com boas relações com a Rússia, que sondasse o presidente russo no sentido de apurar da sensibilidade do seu governo para reduzir os fornecimentos de petróleo à China e melhorar os seus fornecimentos à América.
Putin terá mandado dizer que estaria disposto a aceder ao pedido desde que os americamos ajudassem a Rússia a modernizar a sua indústria aeronáutica. Segundo me contou então o referido empresário, passados dois os chineses pediram à Airbus que mandassem um enviado a Pequim.
O caixeiro-vianjante meteu-se num avião e estava lá passadas menos de 48 horas.
Os chineses terão comunicado que pretendiam que a Airbus lhe fabricasse 1.500 aviões em cinco anos, o que corresponde a bem mais do que a produção de toda a companhia.
Respondeu o viajante que era difícil e responderam os chineses que não, pois que eles próprios poderiam ajudar.
Parece que a informação tinha algum fundo de verdade.
Na semana passada viajei para Londres com um português que vive na China e que me disse que a Airbus já tem estruturas industriais na China e que e que vai fazer uma fábrica naquele grande país.

sábado, dezembro 10, 2005

A desgraça da Justiça

EXPRESSO

Isto vai de mal a pior porque os senhores que mexem na Justiça não têm a mínima noção do que andam a tratar.
Ou são advogados de negócios ou são jovens talentosos mas sem experiência.
Grave, gravíssimo, é que não tenham a minha noção do que estão a tratar.
Não é razoável pretender-se que depois, às vezes, de inúmeras sessões de julgamento na primeira instância, se pretenda que o recurso seja minutado em quinze dias.
Destroem com isto (será esse o objectivo) a qualidade da reflexão jurídica e arrastam para o abismo uma área em que ela afirma ainda alguma qualidade.
Claro que, depois do aperto dos quinze dias para as partes, os juizes vão ter todo o tempo para reflectir sobre as insuficiências das alegações das partes.
É uma tristeza...