domingo, novembro 12, 2006
quarta-feira, novembro 08, 2006
EDMUNDO PEDRO - MEMÓRIAS
«Em seguida ao “18 de Janeiro” o “Pavel” radicou-se na URSS como representante do PCP junto da Internacional Comunista. Foi escolhido por Manuilsky, então secretário geral da Internacional Comunista, para seu secretário.adjunto.O alto cargo que então exercia na estrutura do Comintern implicava o estatuto de permanente. Mas a vida de um revolucionário era tudo menos uma vida estável...Estava sempre sujeita a repentinas mudanças de curso.
Durante anos segui, à distância, o seu extraordinário percurso. No Tarrafal, pouco mais de um ano depois de ter ali chegado, pudera acompanhar, em parte, pelos relatos do Gilberto de Oliveira e do Domingos dos Santos, recentemente regressados da União Soviética, a sua prodigiosa ascensão no âmbito da Internacional Comunista. O Florindo de Oliveira (“Spartaco”) tinha seguido para a URSS na companhia do Bento no fim de Julho de 1935. O Domingos dos Santos (“Calabrês”) e o Cunhal partiram pouco depois, em Agosto do mesmo ano. O “Spartaco” e o “Calabrês” foram detidos pouco depois do seu regresso da União Soviética e expedidos, sem mais delongas, para Cabo Verde.
Foi justamente o “Spartaco” que me transmitiu, quando chegou ao Tarrafal, a reacção de Cunhal quando, pela primeira vez, no verão de 1935, foi apresentado ao Pavel em Moscovo[1]. A sua extensa obra literária, que ia desde a ficção à crítica de arte – especialmente em matéria de pintura mural, de que o México se tornara num paradigma, de que foi considerado o crítico mais reputado – ficou bem patente nos reflexos que teve na cultura daquele país. O Estado mexicano, país da sua forçada adopção, dedicou-lhe uma homenagem nacional como reconhecimento do precioso contributo que deu à cultura daquele país.
Pavel tinha um enorme respeito pela cultura e pelo perfil do então secretário-geral do PCP, Bento Gonçalves, enquanto indiscutível representante da classe operária. E, também, de dirigente máximo dos comunistas portugueses. Consolidei a mesma opinião ao longo do estreito convívio que mantive com ele durante muitos anos.
Em 1938 tivemos conhecimento, no Tarrafal, da nova detenção do Pavel. O impacto desse acontecimento entre os prisioneiros comunistas foi enorme.
A continuação da guerra civil de Espanha tornara importante o papel de Portugal enquanto retaguarda, não só do fascismo espanhol, mas também do fascismo europeu, liderado pela Alemanha nazi. Para a União Soviética era extremamente importante a derrota do nazi-fascismo em Espanha ou, no mínimo, atrasar a sua vitória se esta se tornasse inevitável. Precisava de tempo para reforçar a sua economia e o seu exército. Era dali que provinha, para a URSS, o maior perigo.
A acção do Pavel no nosso país assumiu para a Internacional Comunista, naquela fase, uma relevância muito superior àquela que ele então desenvolvia na URSS.
Foi por isso compelido a deixar ali a mulher – a soviética com quem casara e de quem tivera um filho – e a regressar a Portugal para assumir aqui a direcção do PCP.
A prisão, no final de 1935, dos três membros do seu secretariado nacional – e, nomeadamente do seu secretário-geral, acabado de regressara da URSS – decapitara, num momento crucial, a direcção do Partido
O Pavel voltou a Portugal em 1937. É preso cerca de um ano depois. Embora a doença estivesse controlada, o facto é que continuava tuberculoso.
A polícia conhecia o historial da sua doença. A maior parte do tempo em que esteve preso quando, pela primeira vez, caiu nas malhas da polícia, passou-o, inicialmente, na enfermaria da prisão do Limoeiro. Por isso, no decurso da organização do processo, não foi agredido.
O Pavel assumiu as suas responsabilidades de dirigente comunista. Depois de encerrado o processo, foi enviado para a enfermaria do Aljube. Encontrou ali um ex-jovem comunista, o Augusto, que ele identificou como um antigo membro da Juventude Comunista, no período de1932/33, ou seja, durante a fase em que o Pavel exerceu o cargo de secretário-geral daquela organização.
O Augusto explicou-lhe que decidira concorrer àquele lugar com a intenção de, oportunamente, prestar um grande serviço ao Partido.
O Pavel, de início, desconfiou dos reais objectivos do Augusto. Submeteu-o, segundo me disse, a várias provas. Mas acabou por se convencer de que as suas intenções eram genuínas. Pô-lo em contacto com a direcção do PCP. E elaboraram, em conjunto, o plano de fuga.
A evasão, com o apoio logístico e operacional do Partido, foi bem sucedida. O Augusto, na companhia de outro prisioneiro, fugiu com o Pavel. Este prometera levá-los para União Soviética. Estava convencido de que, no seguimento da sua fuga, passaria ali algum tempo para se ressarcir do abalo que acabara de sofrer. Tinha lá a família. Era um quadro altamente prestigiado do movimento comunista internacional. A presunção de que aceitariam o seu regresso à Rússia, no caso da fuga ser bem sucedida, tinha todo o cabimento.
Não sei se a versão que o Augusto lhe apresentou correspondia ou não à verdade, ou seja, se ele procurara chegar àquele lugar com a deliberada intenção de, no momento oportuno, ajudar algum membro importante da direcção do Partido a evadir-se. Não procurei saber o que o Pavel pensava sobre este aspecto da sua extraordinária odisseia. Penso, aliás, que nem ele próprio estaria em condições de garantir que o Augusto fizera aquele complexo percurso unicamente inspirado pelas suas persistentes convicções ideológicas. Tudo o que se pode garantir é que o Augusto agiu, naquele caso concreto, como se a sua versão fosse verdadeira, ou seja, com inegável boa fé.
É provável que a história que contou não correspondesse à verdade. O ajudante de enfermeiro terá concorrido àquele lugar, não por se ter convertido em fascista, mas porque não arranjara outro emprego. É óbvio que, ao dar esse passo, revelara uma certa fraqueza de carácter. Mas não é difícil admitir que, apesar disso, tenha conservado as convicções ideológicas do tempo em que fora jovem comunista. O Pavel terá sido para ele, a certa altura da sua vida, o que foi como para muitos outros jovens. Ele representava, no nosso imaginário, o perfil do revolucionário exemplar, tanto pelo seu saber, como pela sua fascinante personalidade. Não admira que o Augusto tenha conservado, desde o seu tempo de jovem comunista, a admiração que sentia por ele.
O Pavel não me relatou os pormenores da organização da fuga imaginada, no essencial, pelo Augusto. Contou-me apenas os tópicos mais gerais. De qualquer modo, só o ligou ao Partido, com vista ao indispensável apoio logístico, depois de o submeter a várias provas destinadas a testar a seriedade das suas intenções. O Augusto saiu-se bem de todas. Adquiriu a certeza de que ele tinha um genuíno desejo de o ajudar a evadir-se. Contar-me-ia que depois da evasão ficaram ligados por laços de amizade de tal modo fortes que, quando se instalaram no México, partilharam diariamente o pequeno-almoço, até à morte do Augusto, ocorrida muitos anos depois! O Pavel tinha a profunda convicção de que o Augusto o salvara de uma morte quase certa.
Efectivamente, se não tivesse fugido, a polícia tê-lo-ia remetido, pouco depois, sem a menor dúvida, para o Tarrafal.
A fuga, permito-me insistir, foi preparada em estreita colaboração com a direcção do PCP. O médico Ludgero Pinto Bastos, que na altura pertencia ao secretariado nacional do PCP, desempenhou nela um importante papel. Tratou-o, nomeadamente, das feridas causadas nas mãos pela fricção na corda utilizada para chegar à rua.
[1] Penso que o juízo negativo que Cunhal manifestou nessa altura sobre Bento Gonçalves, quando comparado com o Pavel, reflecte o impacto que exerceu sobre ele, um brilhante intelectual, a personalidade de um ex-operário que se transformara, graças ao seu esforço e à sua excepcional inteligência, também ele num intelectual cujo nível seria eventualmente superior ao de Álvaro Cunhal. No juízo de valor que Cunhal fez de Bento Gonçalves não entraram as reais qualidades que o distinguiam como genuíno dirigente operário. Também este aspecto ajuda a compreender a personalidade de Cunhal enquanto dirigente comunista. Nomeadamente o sentido da hierarquia intelectual, e de menosprezo pelos operários, que está implícito nesta sua apreciação. E isto apesar de ter pretendido, na última fase da sua vida, ficar para a História como “um filho adoptivo da classe operária”... Cunhal teve uma permanente preocupação de cuidar da sua imagem como dirigente operário e como líder comunista. Mas a sua real personalidade, apesar do cuidado que teve em esconde-la, projectou-se várias vezes em posições e actos públicos que deixaram a descoberto, sem lugar para dúvidas, a sua verdadeira personalidade. No capítulo que reservo à análise do seu percurso político procurarei reflectir sobre o significado de algumas posições que assumiu para consolidar a sua liderança..»
Durante anos segui, à distância, o seu extraordinário percurso. No Tarrafal, pouco mais de um ano depois de ter ali chegado, pudera acompanhar, em parte, pelos relatos do Gilberto de Oliveira e do Domingos dos Santos, recentemente regressados da União Soviética, a sua prodigiosa ascensão no âmbito da Internacional Comunista. O Florindo de Oliveira (“Spartaco”) tinha seguido para a URSS na companhia do Bento no fim de Julho de 1935. O Domingos dos Santos (“Calabrês”) e o Cunhal partiram pouco depois, em Agosto do mesmo ano. O “Spartaco” e o “Calabrês” foram detidos pouco depois do seu regresso da União Soviética e expedidos, sem mais delongas, para Cabo Verde.
Foi justamente o “Spartaco” que me transmitiu, quando chegou ao Tarrafal, a reacção de Cunhal quando, pela primeira vez, no verão de 1935, foi apresentado ao Pavel em Moscovo[1]. A sua extensa obra literária, que ia desde a ficção à crítica de arte – especialmente em matéria de pintura mural, de que o México se tornara num paradigma, de que foi considerado o crítico mais reputado – ficou bem patente nos reflexos que teve na cultura daquele país. O Estado mexicano, país da sua forçada adopção, dedicou-lhe uma homenagem nacional como reconhecimento do precioso contributo que deu à cultura daquele país.
Pavel tinha um enorme respeito pela cultura e pelo perfil do então secretário-geral do PCP, Bento Gonçalves, enquanto indiscutível representante da classe operária. E, também, de dirigente máximo dos comunistas portugueses. Consolidei a mesma opinião ao longo do estreito convívio que mantive com ele durante muitos anos.
Em 1938 tivemos conhecimento, no Tarrafal, da nova detenção do Pavel. O impacto desse acontecimento entre os prisioneiros comunistas foi enorme.
A continuação da guerra civil de Espanha tornara importante o papel de Portugal enquanto retaguarda, não só do fascismo espanhol, mas também do fascismo europeu, liderado pela Alemanha nazi. Para a União Soviética era extremamente importante a derrota do nazi-fascismo em Espanha ou, no mínimo, atrasar a sua vitória se esta se tornasse inevitável. Precisava de tempo para reforçar a sua economia e o seu exército. Era dali que provinha, para a URSS, o maior perigo.
A acção do Pavel no nosso país assumiu para a Internacional Comunista, naquela fase, uma relevância muito superior àquela que ele então desenvolvia na URSS.
Foi por isso compelido a deixar ali a mulher – a soviética com quem casara e de quem tivera um filho – e a regressar a Portugal para assumir aqui a direcção do PCP.
A prisão, no final de 1935, dos três membros do seu secretariado nacional – e, nomeadamente do seu secretário-geral, acabado de regressara da URSS – decapitara, num momento crucial, a direcção do Partido
O Pavel voltou a Portugal em 1937. É preso cerca de um ano depois. Embora a doença estivesse controlada, o facto é que continuava tuberculoso.
A polícia conhecia o historial da sua doença. A maior parte do tempo em que esteve preso quando, pela primeira vez, caiu nas malhas da polícia, passou-o, inicialmente, na enfermaria da prisão do Limoeiro. Por isso, no decurso da organização do processo, não foi agredido.
O Pavel assumiu as suas responsabilidades de dirigente comunista. Depois de encerrado o processo, foi enviado para a enfermaria do Aljube. Encontrou ali um ex-jovem comunista, o Augusto, que ele identificou como um antigo membro da Juventude Comunista, no período de1932/33, ou seja, durante a fase em que o Pavel exerceu o cargo de secretário-geral daquela organização.
O Augusto explicou-lhe que decidira concorrer àquele lugar com a intenção de, oportunamente, prestar um grande serviço ao Partido.
O Pavel, de início, desconfiou dos reais objectivos do Augusto. Submeteu-o, segundo me disse, a várias provas. Mas acabou por se convencer de que as suas intenções eram genuínas. Pô-lo em contacto com a direcção do PCP. E elaboraram, em conjunto, o plano de fuga.
A evasão, com o apoio logístico e operacional do Partido, foi bem sucedida. O Augusto, na companhia de outro prisioneiro, fugiu com o Pavel. Este prometera levá-los para União Soviética. Estava convencido de que, no seguimento da sua fuga, passaria ali algum tempo para se ressarcir do abalo que acabara de sofrer. Tinha lá a família. Era um quadro altamente prestigiado do movimento comunista internacional. A presunção de que aceitariam o seu regresso à Rússia, no caso da fuga ser bem sucedida, tinha todo o cabimento.
Não sei se a versão que o Augusto lhe apresentou correspondia ou não à verdade, ou seja, se ele procurara chegar àquele lugar com a deliberada intenção de, no momento oportuno, ajudar algum membro importante da direcção do Partido a evadir-se. Não procurei saber o que o Pavel pensava sobre este aspecto da sua extraordinária odisseia. Penso, aliás, que nem ele próprio estaria em condições de garantir que o Augusto fizera aquele complexo percurso unicamente inspirado pelas suas persistentes convicções ideológicas. Tudo o que se pode garantir é que o Augusto agiu, naquele caso concreto, como se a sua versão fosse verdadeira, ou seja, com inegável boa fé.
É provável que a história que contou não correspondesse à verdade. O ajudante de enfermeiro terá concorrido àquele lugar, não por se ter convertido em fascista, mas porque não arranjara outro emprego. É óbvio que, ao dar esse passo, revelara uma certa fraqueza de carácter. Mas não é difícil admitir que, apesar disso, tenha conservado as convicções ideológicas do tempo em que fora jovem comunista. O Pavel terá sido para ele, a certa altura da sua vida, o que foi como para muitos outros jovens. Ele representava, no nosso imaginário, o perfil do revolucionário exemplar, tanto pelo seu saber, como pela sua fascinante personalidade. Não admira que o Augusto tenha conservado, desde o seu tempo de jovem comunista, a admiração que sentia por ele.
O Pavel não me relatou os pormenores da organização da fuga imaginada, no essencial, pelo Augusto. Contou-me apenas os tópicos mais gerais. De qualquer modo, só o ligou ao Partido, com vista ao indispensável apoio logístico, depois de o submeter a várias provas destinadas a testar a seriedade das suas intenções. O Augusto saiu-se bem de todas. Adquiriu a certeza de que ele tinha um genuíno desejo de o ajudar a evadir-se. Contar-me-ia que depois da evasão ficaram ligados por laços de amizade de tal modo fortes que, quando se instalaram no México, partilharam diariamente o pequeno-almoço, até à morte do Augusto, ocorrida muitos anos depois! O Pavel tinha a profunda convicção de que o Augusto o salvara de uma morte quase certa.
Efectivamente, se não tivesse fugido, a polícia tê-lo-ia remetido, pouco depois, sem a menor dúvida, para o Tarrafal.
A fuga, permito-me insistir, foi preparada em estreita colaboração com a direcção do PCP. O médico Ludgero Pinto Bastos, que na altura pertencia ao secretariado nacional do PCP, desempenhou nela um importante papel. Tratou-o, nomeadamente, das feridas causadas nas mãos pela fricção na corda utilizada para chegar à rua.
[1] Penso que o juízo negativo que Cunhal manifestou nessa altura sobre Bento Gonçalves, quando comparado com o Pavel, reflecte o impacto que exerceu sobre ele, um brilhante intelectual, a personalidade de um ex-operário que se transformara, graças ao seu esforço e à sua excepcional inteligência, também ele num intelectual cujo nível seria eventualmente superior ao de Álvaro Cunhal. No juízo de valor que Cunhal fez de Bento Gonçalves não entraram as reais qualidades que o distinguiam como genuíno dirigente operário. Também este aspecto ajuda a compreender a personalidade de Cunhal enquanto dirigente comunista. Nomeadamente o sentido da hierarquia intelectual, e de menosprezo pelos operários, que está implícito nesta sua apreciação. E isto apesar de ter pretendido, na última fase da sua vida, ficar para a História como “um filho adoptivo da classe operária”... Cunhal teve uma permanente preocupação de cuidar da sua imagem como dirigente operário e como líder comunista. Mas a sua real personalidade, apesar do cuidado que teve em esconde-la, projectou-se várias vezes em posições e actos públicos que deixaram a descoberto, sem lugar para dúvidas, a sua verdadeira personalidade. No capítulo que reservo à análise do seu percurso político procurarei reflectir sobre o significado de algumas posições que assumiu para consolidar a sua liderança..»
EDMUNDO PEDRO - MEMÓRIAS
«Numa das suas visitas a Lisboa, depois do 25 de Abril, o “Pavel” contar-me-ia que os responsáveis do Comintern (Internacional Comunista) tinham dificuldade em de compreender como é que num pequeno país, periférico e atrasado, com uma incipiente classe operária, tinha surgido um núcleo dirigente composto exclusivamente por operários de um tal nível político e cultural.
Bento fora, até à sua primeira detenção, como referi atrás, presidente do Sindicato do Pessoal do Arsenal da Marinha. Foi nessa qualidade que em 1927, aos 25 anos, visitou pela primeira vez a URSS. Fê-lo a convite da Internacional Sindical Vermelha (ISV). Era nessa altura um sindicalista altamente prestigiado. Daí a iniciativa do convite. No regresso da União Soviética, impressionado com o que observara (ou julgara observar) aderiu ao projecto político do PCP. Dois anos depois, ascendeu ao cargo de secretário-geral.
Bento Gonçalves foi operário de corpo inteiro. E nunca quis ser outra coisa. Na bela contestação que dirigiu ao Tribunal que o julgou relatou a sua aprendizagem escolar, o seu reconhecido mérito profissional, e manifestou o desejo de que o Arsenal tenha beneficiado das suas capacidades de técnico excepcional. Bento tinha orgulho no seu trabalho. Nessa contestação exprimiu a sua estima pela empresa onde se especializara e que servira com a sua extraordinária mestria.
Bento Gonçalves morreu aos 40 anos. Ninguém pode, com legitimidade, especular sobre qual seria o seu percurso político se não tivesse terminado a sua vida, precocemente, no Tarrafal. Não pôde acompanhar de perto, nomeadamente, a degenerescência do modelo soviético de poder instalado na Rússia, depois da Revolução de Outubro. Essa progressiva alteração do projecto inicial teve por diversas vezes afloramentos sangrentos, antes do colapso final, em vários países que adoptaram o mesmo sistema. Não pôde acompanhar esses acontecimentos nem tirar deles as evidentes conclusões que implicavam.
Não teve a oportunidade de assistir, por exemplo, à resistência, sangrenta e desesperada, dos operários das grandes fábricas de Budapeste, contra o “ Governo Operário” de Rakosi, apoiado pelos exércitos soviéticos. E também não pôde acompanhar a luta dramática e heróica dos operários polacos – para citar só um dos casos mais paradigmáticos –, conduzida na clandestinidade e nas condições de uma feroz repressão, pela legalização do sindicato “Solidariedade” . Esta acabaria por se impor, contra a vontade dos comunistas, como a sua central sindical verdadeiramente representativa.
Ora, se nem eu, nem ninguém, pode garantir em que medida estes acontecimentos teriam influído no percurso político de Bento Gonçalves há em todo o caso uma convicção que me atrevo a exprimir sobre o que ele, de certeza, não faria se continuasse vivo. Não daria cobertura política não só à dissolução do “Solidariedade” – decretada pelo então secretário-geral do partido comunista polaco e comandante em chefe das forças armadas polacas, general Yaruzelsky – nem à terrível repressão que se abateu sobre os dirigentes operários a seguir a essa vergonhosa iniciativa. E não o faria pela simples razão de que essa atitude do chefe comunista polaco foi em tudo semelhante – mas infinitamente mais grave, em termos de repressão! – à decisão tomada por Salazar de dissolver o sindicalismo livre e impor, à força, o sindicalismo corporativo. Bento Gonçalves lembrar-se-ia de que fora um dos dirigentes da tentativa de greve geral de protesto levada a cabo pelas organizações operárias em 18 de Janeiro de 1934 contra aquela decisão. O fracassado desse protesto implicara numerosas prisões e incontáveis sacrifícios, entre os quais o do próprio autor desta reflexão. Fora responsável, de certo modo, pela morte do próprio Bento. »
Bento fora, até à sua primeira detenção, como referi atrás, presidente do Sindicato do Pessoal do Arsenal da Marinha. Foi nessa qualidade que em 1927, aos 25 anos, visitou pela primeira vez a URSS. Fê-lo a convite da Internacional Sindical Vermelha (ISV). Era nessa altura um sindicalista altamente prestigiado. Daí a iniciativa do convite. No regresso da União Soviética, impressionado com o que observara (ou julgara observar) aderiu ao projecto político do PCP. Dois anos depois, ascendeu ao cargo de secretário-geral.
Bento Gonçalves foi operário de corpo inteiro. E nunca quis ser outra coisa. Na bela contestação que dirigiu ao Tribunal que o julgou relatou a sua aprendizagem escolar, o seu reconhecido mérito profissional, e manifestou o desejo de que o Arsenal tenha beneficiado das suas capacidades de técnico excepcional. Bento tinha orgulho no seu trabalho. Nessa contestação exprimiu a sua estima pela empresa onde se especializara e que servira com a sua extraordinária mestria.
Bento Gonçalves morreu aos 40 anos. Ninguém pode, com legitimidade, especular sobre qual seria o seu percurso político se não tivesse terminado a sua vida, precocemente, no Tarrafal. Não pôde acompanhar de perto, nomeadamente, a degenerescência do modelo soviético de poder instalado na Rússia, depois da Revolução de Outubro. Essa progressiva alteração do projecto inicial teve por diversas vezes afloramentos sangrentos, antes do colapso final, em vários países que adoptaram o mesmo sistema. Não pôde acompanhar esses acontecimentos nem tirar deles as evidentes conclusões que implicavam.
Não teve a oportunidade de assistir, por exemplo, à resistência, sangrenta e desesperada, dos operários das grandes fábricas de Budapeste, contra o “ Governo Operário” de Rakosi, apoiado pelos exércitos soviéticos. E também não pôde acompanhar a luta dramática e heróica dos operários polacos – para citar só um dos casos mais paradigmáticos –, conduzida na clandestinidade e nas condições de uma feroz repressão, pela legalização do sindicato “Solidariedade” . Esta acabaria por se impor, contra a vontade dos comunistas, como a sua central sindical verdadeiramente representativa.
Ora, se nem eu, nem ninguém, pode garantir em que medida estes acontecimentos teriam influído no percurso político de Bento Gonçalves há em todo o caso uma convicção que me atrevo a exprimir sobre o que ele, de certeza, não faria se continuasse vivo. Não daria cobertura política não só à dissolução do “Solidariedade” – decretada pelo então secretário-geral do partido comunista polaco e comandante em chefe das forças armadas polacas, general Yaruzelsky – nem à terrível repressão que se abateu sobre os dirigentes operários a seguir a essa vergonhosa iniciativa. E não o faria pela simples razão de que essa atitude do chefe comunista polaco foi em tudo semelhante – mas infinitamente mais grave, em termos de repressão! – à decisão tomada por Salazar de dissolver o sindicalismo livre e impor, à força, o sindicalismo corporativo. Bento Gonçalves lembrar-se-ia de que fora um dos dirigentes da tentativa de greve geral de protesto levada a cabo pelas organizações operárias em 18 de Janeiro de 1934 contra aquela decisão. O fracassado desse protesto implicara numerosas prisões e incontáveis sacrifícios, entre os quais o do próprio autor desta reflexão. Fora responsável, de certo modo, pela morte do próprio Bento. »
EDMUNDO PEDRO - MEMÓRIAS
«O Bento revelaria, ao longo dos poucos meses que permaneceu na empresa – aproximadamente seis meses, até onde me posso recordar – as múltiplas utilizações dos tornos mecânicos, algumas delas até ali desconhecidas.
Os tornos mecânicos são, por natureza, máquinas rotativas. Pois o Bento obrigou o seu torno, com um acessório que lhe aplicou, a fazer movimentos alternativos de vai e vem. Mostrou que, com esse movimento oscilante, os tornos, com os acessórios por ele imaginados, podiam produzir frezas e fabricar peças que nunca antes deles tinham saído.
O seu posto de trabalho transformou-se num local de romaria! Quando o almirante Cerqueira o visitava – o que, a partir da altura em que o Bento regressou à oficina, passou a ser frequente – falava com ele, demoradamente, sobre as suas experiências inovadoras e, em geral, sobre os mais variados temas técnicos. Por vezes, demorava-se junto do Bento durante mais de uma hora. Conversavam, enquanto ele trabalhava. A minha actividade na bancada dos aprendizes, a uns três ou quatro metros de distância, permitia-me acompanhar parte dessas conversas.
Criou-se à sua volta, durante o curto período em que se conservou no Arsenal, uma aura de autêntica devoção! »
Os tornos mecânicos são, por natureza, máquinas rotativas. Pois o Bento obrigou o seu torno, com um acessório que lhe aplicou, a fazer movimentos alternativos de vai e vem. Mostrou que, com esse movimento oscilante, os tornos, com os acessórios por ele imaginados, podiam produzir frezas e fabricar peças que nunca antes deles tinham saído.
O seu posto de trabalho transformou-se num local de romaria! Quando o almirante Cerqueira o visitava – o que, a partir da altura em que o Bento regressou à oficina, passou a ser frequente – falava com ele, demoradamente, sobre as suas experiências inovadoras e, em geral, sobre os mais variados temas técnicos. Por vezes, demorava-se junto do Bento durante mais de uma hora. Conversavam, enquanto ele trabalhava. A minha actividade na bancada dos aprendizes, a uns três ou quatro metros de distância, permitia-me acompanhar parte dessas conversas.
Criou-se à sua volta, durante o curto período em que se conservou no Arsenal, uma aura de autêntica devoção! »
EDMUNDO PEDRO - MEMÓRIAS
«Homem de grandes paixões, ao abraçar o ideário comunista meu pai converteu-se num militante extremamente activo. Entregou-se à actividade partidária com a profunda determinação que punha em todos os actos da sua vida.
Viveu por dentro a primeira grande crise daquele partido - crise que coincidiu, não por acaso, com outras semelhantes ocorridas, por essa altura, em quase todos os partidos comunistas. Eram, a maior parte das vezes, conflitos de interesses pessoais, normalmente em torno do problema da liderança política e do poder.
Esses conflitos eclodiam periodicamente. Reflectiam o ambiente de generalizada suspeição que reinava na URSS . Esse ambiente estendeu-se a todos os partidos que faziam parte do movimento comunista internacional. Reflectiam o temperamento autoritário e cruel do todo-poderoso Estaline.
Por essa altura, ele iniciara as “purgas” que conduziriam ao assassinato da maioria dos principais dirigentes do PCUS que tinham levado a cabo a Revolução de Outubro. Mandava prender e fuzilar todos os que considerava suspeitos de porem em causa as suas opiniões e o seu poder absoluto.
As "purgas" periódicas, inspiradas na prática estalinista, tornaram-se uma constante no seio dos partidos da III.ª Internacional, sobre a qual Estaline exercia um controlo absoluto. A “caça às bruxas”, seguindo o exemplo de Moscovo, propagava-se a partir daquele centro, em ondas concêntricas, até aos confins do planeta. Nenhum partido da IC escapava a essa lógica. O IV.º Congresso do PCE conduziu à expulsão do "grupelho provocador” constituído por Trilla, Bullegos e Adam e à eleição do novo secretário-geral, José Diaz.
O meu pai e a minha mãe (que também se filiou no PCE logo que chegou a Sevilha) participaram activamente nesse conclave. Até o meu irmão João, com apenas onze anos, esteve presente naquela reunião magna em nome dos "pioneiros portugueses" que, obviamente, não existiam! O que não o impediu de usar da palavra para saudar, em nome dessa imaginária "organização", o Congresso do PCE. Minha mãe, então com 28 anos, também usou da palavra nesse congresso em nome da organização comunista das mulheres portuguesas – organização que, tal como a dos "pioneiros", só existia na imaginação dos dirigentes comunistas...
Não recebera, como parece evidente, qualquer mandato para intervir em nome das mulheres portuguesas. Não creio que existisse naquele tempo uma estrutura comunista que as agrupasse. Só muito mais tarde o PCP viria a criar essas organizações. Contudo, na óptica dos dirigentes comunistas presentes no Congresso, o que tinha importância era, aparentemente, a representação simbólica – aspecto a que o movimento comunista sempre ligou uma extrema importância.
A URSS tornara-se o modelo universal do movimento comunista. Por isso a prática do Partido Bolchevique – por definição o Partido Guia e, portanto, o inspirador de todos os outros – era copiada, em todos os aspectos, pelos restantes partidos da Internacional Comunista. O enquadramento dos vários grupos sociais – crianças, jovens, intelectuais, operários, camponeses, ex-combatentes, mulheres, deficientes, os reformados, etc., etc. – de modo a integrá-los na dinâmica do movimento comunista, constituiu, desde cedo, uma prática imperativa seguida por todos os partidos comunistas.
E foi assim que minha mãe e meu irmão se viram transformados, nesse congresso, em representantes de imaginárias organizações... Tudo isso viria a contribuir para se tornaram, eles também, activos elementos do movimento comunista – situação que lhes viria a acarretar, cada um à sua maneira, trágicas consequências pessoais.[1]
Como era esperar, visto que os partidos comunistas mantinham entre si uma estreita colaboração – e os poucos que subsistem continuam a mantê-la, a despeito da sua crescente rarefacção e decomposição – os meus pais acabariam por conhecer em Espanha alguns dirigentes do PCP. O mais provável (embora disso não esteja certo) é que esse contacto tenha sido estabelecido com o representante dos comunistas portugueses naquele congresso. O resultado desse contacto foi o convite da direcção do PCP, dirigido aos meus pais, para ingressarem nele e regressarem clandestinamente a Portugal para se dedicarem, a tempo inteiro, à actividade partidária. Assumiriam o estatuto de funcionários políticos.
Ambos aceitaram a proposta. No fim de 1931 (ou no início de 1932, não posso precisar exactamente) os meus pais entraram no nosso País clandestinamente para se entregarem, em exclusivo, à actividade revolucionária.
Sob a influência dos dirigentes comunistas com quem passara a contactar, minha mãe, que era dotada de um alto espírito de sacrifício e de justiça, ajudada pelos catecismos que lhe deram a ler, acabaria por se identificar totalmente com a ideologia marxista-leninista. Penso, no entanto, que embora essas leituras e contactos a tivessem influenciado, a sua principal motivação, ao aceitar a proposta do PCP, foi a circunstância de continuar apaixonada pelo marido. Estivera sempre disposta a acompanha-lo em todos os passos importantes da sua vida.
[1] Efectivamente, meu irmão faleceria cerca de três anos depois em consequência de uma agressão sofrida no rescaldo de uma manifestação estudantil - e minha mãe acabaria por ser detida, passados dois anos sobre estes acontecimentos, como quadro responsável do PCP.»
Viveu por dentro a primeira grande crise daquele partido - crise que coincidiu, não por acaso, com outras semelhantes ocorridas, por essa altura, em quase todos os partidos comunistas. Eram, a maior parte das vezes, conflitos de interesses pessoais, normalmente em torno do problema da liderança política e do poder.
Esses conflitos eclodiam periodicamente. Reflectiam o ambiente de generalizada suspeição que reinava na URSS . Esse ambiente estendeu-se a todos os partidos que faziam parte do movimento comunista internacional. Reflectiam o temperamento autoritário e cruel do todo-poderoso Estaline.
Por essa altura, ele iniciara as “purgas” que conduziriam ao assassinato da maioria dos principais dirigentes do PCUS que tinham levado a cabo a Revolução de Outubro. Mandava prender e fuzilar todos os que considerava suspeitos de porem em causa as suas opiniões e o seu poder absoluto.
As "purgas" periódicas, inspiradas na prática estalinista, tornaram-se uma constante no seio dos partidos da III.ª Internacional, sobre a qual Estaline exercia um controlo absoluto. A “caça às bruxas”, seguindo o exemplo de Moscovo, propagava-se a partir daquele centro, em ondas concêntricas, até aos confins do planeta. Nenhum partido da IC escapava a essa lógica. O IV.º Congresso do PCE conduziu à expulsão do "grupelho provocador” constituído por Trilla, Bullegos e Adam e à eleição do novo secretário-geral, José Diaz.
O meu pai e a minha mãe (que também se filiou no PCE logo que chegou a Sevilha) participaram activamente nesse conclave. Até o meu irmão João, com apenas onze anos, esteve presente naquela reunião magna em nome dos "pioneiros portugueses" que, obviamente, não existiam! O que não o impediu de usar da palavra para saudar, em nome dessa imaginária "organização", o Congresso do PCE. Minha mãe, então com 28 anos, também usou da palavra nesse congresso em nome da organização comunista das mulheres portuguesas – organização que, tal como a dos "pioneiros", só existia na imaginação dos dirigentes comunistas...
Não recebera, como parece evidente, qualquer mandato para intervir em nome das mulheres portuguesas. Não creio que existisse naquele tempo uma estrutura comunista que as agrupasse. Só muito mais tarde o PCP viria a criar essas organizações. Contudo, na óptica dos dirigentes comunistas presentes no Congresso, o que tinha importância era, aparentemente, a representação simbólica – aspecto a que o movimento comunista sempre ligou uma extrema importância.
A URSS tornara-se o modelo universal do movimento comunista. Por isso a prática do Partido Bolchevique – por definição o Partido Guia e, portanto, o inspirador de todos os outros – era copiada, em todos os aspectos, pelos restantes partidos da Internacional Comunista. O enquadramento dos vários grupos sociais – crianças, jovens, intelectuais, operários, camponeses, ex-combatentes, mulheres, deficientes, os reformados, etc., etc. – de modo a integrá-los na dinâmica do movimento comunista, constituiu, desde cedo, uma prática imperativa seguida por todos os partidos comunistas.
E foi assim que minha mãe e meu irmão se viram transformados, nesse congresso, em representantes de imaginárias organizações... Tudo isso viria a contribuir para se tornaram, eles também, activos elementos do movimento comunista – situação que lhes viria a acarretar, cada um à sua maneira, trágicas consequências pessoais.[1]
Como era esperar, visto que os partidos comunistas mantinham entre si uma estreita colaboração – e os poucos que subsistem continuam a mantê-la, a despeito da sua crescente rarefacção e decomposição – os meus pais acabariam por conhecer em Espanha alguns dirigentes do PCP. O mais provável (embora disso não esteja certo) é que esse contacto tenha sido estabelecido com o representante dos comunistas portugueses naquele congresso. O resultado desse contacto foi o convite da direcção do PCP, dirigido aos meus pais, para ingressarem nele e regressarem clandestinamente a Portugal para se dedicarem, a tempo inteiro, à actividade partidária. Assumiriam o estatuto de funcionários políticos.
Ambos aceitaram a proposta. No fim de 1931 (ou no início de 1932, não posso precisar exactamente) os meus pais entraram no nosso País clandestinamente para se entregarem, em exclusivo, à actividade revolucionária.
Sob a influência dos dirigentes comunistas com quem passara a contactar, minha mãe, que era dotada de um alto espírito de sacrifício e de justiça, ajudada pelos catecismos que lhe deram a ler, acabaria por se identificar totalmente com a ideologia marxista-leninista. Penso, no entanto, que embora essas leituras e contactos a tivessem influenciado, a sua principal motivação, ao aceitar a proposta do PCP, foi a circunstância de continuar apaixonada pelo marido. Estivera sempre disposta a acompanha-lo em todos os passos importantes da sua vida.
[1] Efectivamente, meu irmão faleceria cerca de três anos depois em consequência de uma agressão sofrida no rescaldo de uma manifestação estudantil - e minha mãe acabaria por ser detida, passados dois anos sobre estes acontecimentos, como quadro responsável do PCP.»
EDMUNDO PEDRO - MEMÓRIAS
« Recordo-me de ter acompanhado com um interesse apaixonado, apesar de ter apenas catorze anos, o complexo processo político que, no ano de 1933, se desenrolou na Alemanha. A República de Weimar mergulhara no caos político provocado pela crise económica do pós-guerra. Milhões de trabalhadores foram atirados para o desemprego. Hitler, que enfrentava um movimento operário dividido por insanáveis rivalidades via aberto diante de si o caminho do poder.[1]
Próximo do fim do ano, algum tempo depois de Hitler, chamado pelo marechal Hindenburg, ter formado o seu governo, o Reichtag – o Parlamento alemão – foi incendiado. A notícia, transmitida no contexto de um país agitado por fortes convulsões – com os comunistas, derrotados em 1919, em plena ascensão –, correu mundo. Os hitlerianos acusaram três comunistas búlgaros de serem os autores do atentado.
O julgamento dos pretensos incendiários, entre os quais se destacara o nome de Dimitrof, começou algum tempo depois de ter ocorrido aquela provocação.
Dimitrof tornar-se-ia, rapidamente, no símbolo do heroísmo e da firmeza dos comunistas. A audácia com que enfrentou os seus acusadores, assumindo ele próprio a função de juiz do regime hitleriano, enchia-me de orgulho. Via confirmar-se no meu espírito, já preparado por inúmeras leituras, a superioridade moral dos comunistas. Orgulhava-me de ter ocupado, entre eles, o meu lugar de combate... A real personalidade do meu herói de então só muito mais tarde se tornaria conhecida..[2]
O que é facto é que naquele ano de 1933 a figura de Dimitrof assumira a aos meus olhos o perfil paradigmático do revolucionário coerente e audaz. Inspirado pela nova moral e pelos valores do movimento comunista, colocara a sua vida ao serviço da grande causa da emancipação humana, representada pelo projecto comunista.
Esse sentimento, habilmente cultivado, predispunha os propagadores do novo credo para o sacrifício total.
Foi naquele contexto global, tão carregado de certezas, de promessas e de exaltação heróica, que eu interiorizei as profundas convicções ideológicas que ditaram o meu futuro. Tudo parecia confirmar o rigor das previsões do movimento comunista, nomeadamente o aparente êxito da experiência soviética e a superioridade moral dos seus principais agentes pessoais. Nesse contexto pesou também, como era natural, a influência familiar e o ambiente político, muito especial, do Arsenal da Marinha.
[1] Os comunistas tinham eleito, como inimigo principal, os socialistas, situação que ainda hoje se verifica. Nas últimas eleições, os comunistas tinham averbado nas urnas cerca de 6 milhões de votos. Os social-democratas à volta de 9. Os nazis, com 12 milhões de votos, tinham sido o partido mais votado. Mas os socialistas e comunistas, em conjunto, recolheram nas urnas cerca de 15 milhões. Face à evidente incapacidade de entendimento entre aquelas forças - situação cuja responsabilidade era imputada pelos comunistas aos social-democratas, apelidados de "social-traidores" e de “amarelos” , o Partido Nacional Socialista, chefiado por Hitler, como partido maioritário, assumiu legalmente o poder.
[2] O caso de Dimitrof viria a constituir para mim um dos muitos desenganos que me ajudariam a compreender a face oculta do projecto comunista. Dimitrof abandonou à sua sorte, nos anos mais negros do terror estalinista, os seus companheiros de processo. Permitiu que um dele, Popof, permanecesse dez anos no Goulag sob a acusação de ser “inimigo do povo”. Esse reverso da medalha, a verdadeita face da sua personalidade, só viria a ser conhecido muitos anos depois. Dimitrof queria para si, em exclusivo, a glória de ter enfrentado o Tribunal nazi. Acusou os seus companheiros de se terem limitado, no decurso do julgamento, a uma defesa meramente pessoal. Revelou aos soviéticos que Tanef teria proposto, em 1929, no Comité Central do Partido Comunista Búlgaro - a que os três pertenciam - uma discussão em volta do caso de Trotsky... Permitiu uma intromissão abusiva de Estaline na vida interna do partido de que era secretário-geral . Esta “terrível” acusação levou os seus camaradas de processo a cairem em desgraça perante os comunistas russos. Tanef foi acusado de simpatia por Trotsky - o que constituía, naquela altura, um grave crime anti-soviético...Durante a guerra foi lançado de pára-quedas no interior do território búlgaro. Foi ali abatido em circunstâncias estranhas... Depois da chegada do PC Búlgaro ao poder, só Dimitrof foi considerado digno de figurar na galeria dos do heróis... Este, para conservar a confiança de Estaline, e manter o seu lugar de secretário-geral da Internacional Comunista, não hesitou em acusar os seus camaradas de crimes imaginários. Esta era a “moral” dos homens que simbolizaram, durante muito tempo, os valores do comunismo. »
Próximo do fim do ano, algum tempo depois de Hitler, chamado pelo marechal Hindenburg, ter formado o seu governo, o Reichtag – o Parlamento alemão – foi incendiado. A notícia, transmitida no contexto de um país agitado por fortes convulsões – com os comunistas, derrotados em 1919, em plena ascensão –, correu mundo. Os hitlerianos acusaram três comunistas búlgaros de serem os autores do atentado.
O julgamento dos pretensos incendiários, entre os quais se destacara o nome de Dimitrof, começou algum tempo depois de ter ocorrido aquela provocação.
Dimitrof tornar-se-ia, rapidamente, no símbolo do heroísmo e da firmeza dos comunistas. A audácia com que enfrentou os seus acusadores, assumindo ele próprio a função de juiz do regime hitleriano, enchia-me de orgulho. Via confirmar-se no meu espírito, já preparado por inúmeras leituras, a superioridade moral dos comunistas. Orgulhava-me de ter ocupado, entre eles, o meu lugar de combate... A real personalidade do meu herói de então só muito mais tarde se tornaria conhecida..[2]
O que é facto é que naquele ano de 1933 a figura de Dimitrof assumira a aos meus olhos o perfil paradigmático do revolucionário coerente e audaz. Inspirado pela nova moral e pelos valores do movimento comunista, colocara a sua vida ao serviço da grande causa da emancipação humana, representada pelo projecto comunista.
Esse sentimento, habilmente cultivado, predispunha os propagadores do novo credo para o sacrifício total.
Foi naquele contexto global, tão carregado de certezas, de promessas e de exaltação heróica, que eu interiorizei as profundas convicções ideológicas que ditaram o meu futuro. Tudo parecia confirmar o rigor das previsões do movimento comunista, nomeadamente o aparente êxito da experiência soviética e a superioridade moral dos seus principais agentes pessoais. Nesse contexto pesou também, como era natural, a influência familiar e o ambiente político, muito especial, do Arsenal da Marinha.
[1] Os comunistas tinham eleito, como inimigo principal, os socialistas, situação que ainda hoje se verifica. Nas últimas eleições, os comunistas tinham averbado nas urnas cerca de 6 milhões de votos. Os social-democratas à volta de 9. Os nazis, com 12 milhões de votos, tinham sido o partido mais votado. Mas os socialistas e comunistas, em conjunto, recolheram nas urnas cerca de 15 milhões. Face à evidente incapacidade de entendimento entre aquelas forças - situação cuja responsabilidade era imputada pelos comunistas aos social-democratas, apelidados de "social-traidores" e de “amarelos” , o Partido Nacional Socialista, chefiado por Hitler, como partido maioritário, assumiu legalmente o poder.
[2] O caso de Dimitrof viria a constituir para mim um dos muitos desenganos que me ajudariam a compreender a face oculta do projecto comunista. Dimitrof abandonou à sua sorte, nos anos mais negros do terror estalinista, os seus companheiros de processo. Permitiu que um dele, Popof, permanecesse dez anos no Goulag sob a acusação de ser “inimigo do povo”. Esse reverso da medalha, a verdadeita face da sua personalidade, só viria a ser conhecido muitos anos depois. Dimitrof queria para si, em exclusivo, a glória de ter enfrentado o Tribunal nazi. Acusou os seus companheiros de se terem limitado, no decurso do julgamento, a uma defesa meramente pessoal. Revelou aos soviéticos que Tanef teria proposto, em 1929, no Comité Central do Partido Comunista Búlgaro - a que os três pertenciam - uma discussão em volta do caso de Trotsky... Permitiu uma intromissão abusiva de Estaline na vida interna do partido de que era secretário-geral . Esta “terrível” acusação levou os seus camaradas de processo a cairem em desgraça perante os comunistas russos. Tanef foi acusado de simpatia por Trotsky - o que constituía, naquela altura, um grave crime anti-soviético...Durante a guerra foi lançado de pára-quedas no interior do território búlgaro. Foi ali abatido em circunstâncias estranhas... Depois da chegada do PC Búlgaro ao poder, só Dimitrof foi considerado digno de figurar na galeria dos do heróis... Este, para conservar a confiança de Estaline, e manter o seu lugar de secretário-geral da Internacional Comunista, não hesitou em acusar os seus camaradas de crimes imaginários. Esta era a “moral” dos homens que simbolizaram, durante muito tempo, os valores do comunismo. »
EDMUNDO PEDRO - MEMÓRIAS
«Naquele ano de 1933, tudo parecia apoiar a ideia de que a marcha para o comunismo – representada pela conclusão, antes do tempo previsto, do 1º. Plano Quinquenal – era imparável. Esse plano lançara as bases da indústria pesada soviética. As gigantescas empresas industriais implantados nos Urais e as colossais barragens hidroeléctricas (de que a do Dinieper, considerada, na altura, a maior do mundo, se tornara um símbolo), cuja construção coincidiu com a fase em que o mundo capitalista se afundava na maior crise da sua história, pareciam credenciar a ideia de que nada poderia deter a marcha triunfante da União Soviética. .
O mundo capitalista, aterrado perante a força de atracção que esse aparente triunfo representava, reforçara, em torno da URSS, um eficaz do "cordão sanitário" destinado a impedir a propagação da influência soviética. Desde os países bálticos, no norte, até à Roménia, no sul, estendia-se um vasto sistema de contenção constituído por países dominados por regimes de cariz totalitário onde as liberdades públicas tinham sido fortemente restringidas ou pura e simplesmente anuladas. A única excepção era a Checoslováquia. Nesse país existia uma economia florescente que proporcionava aos trabalhadores um nível de vida muito acima do que reinava nos restantes países que integravam aquele "cordão". Esse nível punha-os ao abrigo das tentações revolucionárias inspiradas no exemplo soviético.
Os rápidos progressos do movimento comunista internacional (que tinha suplantado no nosso País, em pouco tempo, a influência predominante que os anarco-sindicalistas haviam exercido no movimento operário) exprimiam uma confiança cada vez maior naquele projecto. Um número crescente de intelectuais de grande prestígio deixava-se seduzir pelas aparências, habilmente montadas, da propaganda comunista. Esta punha em evidência uma realidade dificilmente contestável: perante uma economia capitalista atolada numa crise da qual parecia não poder sair (que o "crack" da Bolsa de Nova Iorque, em 1929, generalizara a todo o mundo), acontecimento que levara por toda a parte ao encerramento de empresas e à emergência de milhões de desempregados; perante uma economia que não sabia o que fazer à sua colossal produção de bens de consumo (nomeadamente alimentares, que apodreciam ou eram atirados para as caldeiras das locomotivas, tais como o trigo e o café, por não terem colocação rentável no mercado); no quadro de uma economia que sabia produzir, mas se mostrava incapaz de distribuir racionalmente o que produzia, milhões de pessoas morriam de fome. Em face dessa economia contraditória e em ruínas, parecia estar a erguer-se, pela primeira vez na história da humanidade, uma economia baseada na racionalidade científica e na justiça. Essa nova economia anunciava que elegera o Homem, e não o lucro, como fim supremo a atingir. A única solução que aparentemente restava ao sistema capitalista agonizante era, pois, o recurso à repressão contra todos aqueles que se dispunham a lutar contra as suas gritantes contradições e injustiças.
A repressão que, como uma imensa vaga, ia submetendo os povos da Europa ao jugo totalitário começara a ser liderada pela Alemanha nazi e pela Itália fascista – repressão que se propunha, antes de tudo, fazer face ao chamado “perigo comunista”. Aliás, em todos os países capitalistas, mesmo naqueles onde subsistiam regimes democráticos, era notório o receio provocado pela força de atracção de um projecto revolucionário que parecia contrapor à decrépita economia de mercado, afundada na crise, a aparentemente vigorosa economia planificada soviética, isenta de crises e posta ao serviço, pela primeira vez na atribulada história da humanidade, do bem-estar colectivo...
Os livros em que bebi as certezas que o mundo à minha volta parecia irrefutavelmente confirmar foram aqueles em que basicamente assentava o primeiro nível de formação dos militantes, a saber: o "Manifesto Comunista", de Marx e Engels, o "Estado e a Revolução", "Imperialismo, Última Fase do Capitalismo", "Que Fazer", de Lenine, e "Os Fundamentos do Leninismo", de Estaline. O "Materialismo Histórico", de Bukarine, ajudou-me a compreender, com o precioso apoio do Pavel, as leis dialécticas do processo social, baseado na luta de classes. Essas leis implicariam a inevitabilidade do acesso da classe operária ao poder...
Até aos quinze anos devorei os principais livros que fundamentavam a teoria e a prática marxista-leninista. Li também alguns romances e novelas da literatura soviética, inspirada no chamado “realismo socialista”. Referiam-se não só ao período da guerra civil, destacando o papel dos heróicos guerrilheiros e o empenhamento dos trabalhadores na luta que conduzira à consolidação do novo poder, como à fase posterior em que foram lançadas as bases da reconstrução económica. Os heróis do trabalho, que nos eram apresentados como indivíduos cheios de entusiasmo e devoção, como apoiantes incondicionais do novo regime, ajudavam a completar o quadro social altamente motivador em que decorreria a edificação da nova sociedade.
A biblioteca do Arsenal era, aliás, excelente. E a escolha dos livros fora feita sob a influência, entre outros, de Bento Gonçalves e de Francisco Paula de Oliveira. Estava politicamente bem orientada.... Visitava-a sempre que podia.
Essas leituras, comentadas e discutidas com verdadeiros mestres da cultura marxista, firmaram-me na convicção de que pela primeira vez na História a classe operária, “com o apoio dos camponeses pobres e dos intelectuais que tinham feito uma nova opção de classe”, tinha conquistado o poder na Rússia. Não tinha dúvidas de que se estabelecera ali, sob a direcção do “partido da classe operária” (o Partido Bolchevique) uma ditadura de novo tipo, uma ditadura, ao contrário de todas as que a tinham precedido, da “maioria explorada sobre a minoria exploradora”, uma “ditadura de classe”, como fora definida por Lenine. Não tinha dúvidas de que a “pátria do socialismo” - cuja força, com o apoio dos seus inesgotáveis recursos materiais e com a solidariedade dos explorados de todo o mundo, cresceria continuamente - se teria transformado numa garantia de que o projecto comunista estava destinado a estender-se a todo o planeta... Essa convicção levava-me a considerar que um dos principais deveres dos comunistas de todo o mundo consistia na defesa daquela experiência exemplar. A União Soviética transformara-se na “fortaleza do socialismo”. Todos nós, comunistas, tínhamos a obrigação de lutar contra o “cerco capitalista” de que o país dos sovietes se sentiria alvo. »
O mundo capitalista, aterrado perante a força de atracção que esse aparente triunfo representava, reforçara, em torno da URSS, um eficaz do "cordão sanitário" destinado a impedir a propagação da influência soviética. Desde os países bálticos, no norte, até à Roménia, no sul, estendia-se um vasto sistema de contenção constituído por países dominados por regimes de cariz totalitário onde as liberdades públicas tinham sido fortemente restringidas ou pura e simplesmente anuladas. A única excepção era a Checoslováquia. Nesse país existia uma economia florescente que proporcionava aos trabalhadores um nível de vida muito acima do que reinava nos restantes países que integravam aquele "cordão". Esse nível punha-os ao abrigo das tentações revolucionárias inspiradas no exemplo soviético.
Os rápidos progressos do movimento comunista internacional (que tinha suplantado no nosso País, em pouco tempo, a influência predominante que os anarco-sindicalistas haviam exercido no movimento operário) exprimiam uma confiança cada vez maior naquele projecto. Um número crescente de intelectuais de grande prestígio deixava-se seduzir pelas aparências, habilmente montadas, da propaganda comunista. Esta punha em evidência uma realidade dificilmente contestável: perante uma economia capitalista atolada numa crise da qual parecia não poder sair (que o "crack" da Bolsa de Nova Iorque, em 1929, generalizara a todo o mundo), acontecimento que levara por toda a parte ao encerramento de empresas e à emergência de milhões de desempregados; perante uma economia que não sabia o que fazer à sua colossal produção de bens de consumo (nomeadamente alimentares, que apodreciam ou eram atirados para as caldeiras das locomotivas, tais como o trigo e o café, por não terem colocação rentável no mercado); no quadro de uma economia que sabia produzir, mas se mostrava incapaz de distribuir racionalmente o que produzia, milhões de pessoas morriam de fome. Em face dessa economia contraditória e em ruínas, parecia estar a erguer-se, pela primeira vez na história da humanidade, uma economia baseada na racionalidade científica e na justiça. Essa nova economia anunciava que elegera o Homem, e não o lucro, como fim supremo a atingir. A única solução que aparentemente restava ao sistema capitalista agonizante era, pois, o recurso à repressão contra todos aqueles que se dispunham a lutar contra as suas gritantes contradições e injustiças.
A repressão que, como uma imensa vaga, ia submetendo os povos da Europa ao jugo totalitário começara a ser liderada pela Alemanha nazi e pela Itália fascista – repressão que se propunha, antes de tudo, fazer face ao chamado “perigo comunista”. Aliás, em todos os países capitalistas, mesmo naqueles onde subsistiam regimes democráticos, era notório o receio provocado pela força de atracção de um projecto revolucionário que parecia contrapor à decrépita economia de mercado, afundada na crise, a aparentemente vigorosa economia planificada soviética, isenta de crises e posta ao serviço, pela primeira vez na atribulada história da humanidade, do bem-estar colectivo...
Os livros em que bebi as certezas que o mundo à minha volta parecia irrefutavelmente confirmar foram aqueles em que basicamente assentava o primeiro nível de formação dos militantes, a saber: o "Manifesto Comunista", de Marx e Engels, o "Estado e a Revolução", "Imperialismo, Última Fase do Capitalismo", "Que Fazer", de Lenine, e "Os Fundamentos do Leninismo", de Estaline. O "Materialismo Histórico", de Bukarine, ajudou-me a compreender, com o precioso apoio do Pavel, as leis dialécticas do processo social, baseado na luta de classes. Essas leis implicariam a inevitabilidade do acesso da classe operária ao poder...
Até aos quinze anos devorei os principais livros que fundamentavam a teoria e a prática marxista-leninista. Li também alguns romances e novelas da literatura soviética, inspirada no chamado “realismo socialista”. Referiam-se não só ao período da guerra civil, destacando o papel dos heróicos guerrilheiros e o empenhamento dos trabalhadores na luta que conduzira à consolidação do novo poder, como à fase posterior em que foram lançadas as bases da reconstrução económica. Os heróis do trabalho, que nos eram apresentados como indivíduos cheios de entusiasmo e devoção, como apoiantes incondicionais do novo regime, ajudavam a completar o quadro social altamente motivador em que decorreria a edificação da nova sociedade.
A biblioteca do Arsenal era, aliás, excelente. E a escolha dos livros fora feita sob a influência, entre outros, de Bento Gonçalves e de Francisco Paula de Oliveira. Estava politicamente bem orientada.... Visitava-a sempre que podia.
Essas leituras, comentadas e discutidas com verdadeiros mestres da cultura marxista, firmaram-me na convicção de que pela primeira vez na História a classe operária, “com o apoio dos camponeses pobres e dos intelectuais que tinham feito uma nova opção de classe”, tinha conquistado o poder na Rússia. Não tinha dúvidas de que se estabelecera ali, sob a direcção do “partido da classe operária” (o Partido Bolchevique) uma ditadura de novo tipo, uma ditadura, ao contrário de todas as que a tinham precedido, da “maioria explorada sobre a minoria exploradora”, uma “ditadura de classe”, como fora definida por Lenine. Não tinha dúvidas de que a “pátria do socialismo” - cuja força, com o apoio dos seus inesgotáveis recursos materiais e com a solidariedade dos explorados de todo o mundo, cresceria continuamente - se teria transformado numa garantia de que o projecto comunista estava destinado a estender-se a todo o planeta... Essa convicção levava-me a considerar que um dos principais deveres dos comunistas de todo o mundo consistia na defesa daquela experiência exemplar. A União Soviética transformara-se na “fortaleza do socialismo”. Todos nós, comunistas, tínhamos a obrigação de lutar contra o “cerco capitalista” de que o país dos sovietes se sentiria alvo. »
EDMUNDO PEDRO - MEMÓRIAS
«A minha amizade com a dona Rosa foi vivida próximo do fim do verão de 1933. Nessa altura, a minha actividade no plano sindical e político tinha-se intensificado, embora, por razões que adiante relatarei, tivesse assumido formas diferentes. Durante o tempo em que trabalhei no Arsenal, em resultado dos contactos secretos que mantive, ao longo de quase dois anos, com meus pais (sem que meus tios disso se apercebessem) e com alguns dos mais destacados quadros dirigentes do PCP, a minha formação política avançara rapidamente. Além de ser um elemento activo da célula juvenil daquela empresa estatal, tomara eu próprio a iniciativa de organizar, entre os estudantes da Escola Industrial Machado de Castro (quase todos jovens operários) uma célula da Juventude Comunista – célula que eu dirigia e animava. Estava, pois, empenhado numa actividade cujo ritmo e exigências eram cada vez maiores.
Aproximava-se o termo do ano que marcaria o fim de uma época do movimento operário português. A tensão, nos meios sindicais e políticos, crescia rapidamente. Vivia-se já a atmosfera febril que iria desembocar, meses depois, na tentativa de greve geral de 18 de Janeiro de 1934. Por meu lado, entrara num tal ritmo de actividade que, como era fácil de prever, me faria cair, a curto prazo, nas garras da polícia política.
Sem o apoio da dona Rosa ter-me-ia sido muito mais difícil, naquela fase cada vez mais exigente da luta em que me empenhara, desempenhar as inúmeras tarefas que me eram cometidas. Ela assegurara o funcionamento de um verdadeiro e eficaz depósito de trânsito para a imprensa clandestina que eu distribuía. Ao sair de casa, a caminho da escola ou da empresa, ela encontrava quase sempre maneira de me passar os manifestos ou outros documentos que escondera e que eu, na altura, lhe pedia.
Mas, por via de regra, o que é bom de mais, depressa acaba.
A minha tia, inopinadamente, e sem qualquer razão aparente, despediu a dona Rosa. Na altura, não me apercebi dos motivos que a levaram a tomar essa decisão. Ela viera pôr um ponto final numa relação que, a vários títulos, ficaria gravada na minha memória como um acontecimento marcante. Aquela senhora, para além da preciosa ajuda que me prestara, constituíra, durante algum tempo, um bálsamo importante numa existência que, desde os seis anos, fora marcada por um forte sentimento de abandono – sentimento para o qual a exigente e distante relação com a minha tia muito contribuíra. Esta adoptara, no seu trato comigo, o comportamento que considerava mais adequado para me proteger das "más influências", ou seja, das "companhias perigosas" – e para me conduzir àquele que ela pensava ser o "bom caminho". »
Aproximava-se o termo do ano que marcaria o fim de uma época do movimento operário português. A tensão, nos meios sindicais e políticos, crescia rapidamente. Vivia-se já a atmosfera febril que iria desembocar, meses depois, na tentativa de greve geral de 18 de Janeiro de 1934. Por meu lado, entrara num tal ritmo de actividade que, como era fácil de prever, me faria cair, a curto prazo, nas garras da polícia política.
Sem o apoio da dona Rosa ter-me-ia sido muito mais difícil, naquela fase cada vez mais exigente da luta em que me empenhara, desempenhar as inúmeras tarefas que me eram cometidas. Ela assegurara o funcionamento de um verdadeiro e eficaz depósito de trânsito para a imprensa clandestina que eu distribuía. Ao sair de casa, a caminho da escola ou da empresa, ela encontrava quase sempre maneira de me passar os manifestos ou outros documentos que escondera e que eu, na altura, lhe pedia.
Mas, por via de regra, o que é bom de mais, depressa acaba.
A minha tia, inopinadamente, e sem qualquer razão aparente, despediu a dona Rosa. Na altura, não me apercebi dos motivos que a levaram a tomar essa decisão. Ela viera pôr um ponto final numa relação que, a vários títulos, ficaria gravada na minha memória como um acontecimento marcante. Aquela senhora, para além da preciosa ajuda que me prestara, constituíra, durante algum tempo, um bálsamo importante numa existência que, desde os seis anos, fora marcada por um forte sentimento de abandono – sentimento para o qual a exigente e distante relação com a minha tia muito contribuíra. Esta adoptara, no seu trato comigo, o comportamento que considerava mais adequado para me proteger das "más influências", ou seja, das "companhias perigosas" – e para me conduzir àquele que ela pensava ser o "bom caminho". »
EDMUNDO PEDRO - MEMÓRIAS
«Uns três meses antes de fugir de casa dos meus tios entrou ao serviço uma senhora cuja idade andaria entre os cinquenta e cinco e os sessenta anos. A dona Rosa (assim se chamava) era uma senhora de feições delicadas e onde eram ainda bem visíveis os traços da pretérita beleza. Enviuvara algum tempo antes de se empregar. Aquele era, aliás, o seu primeiro emprego. Nunca trabalhara fora de casa. A morte do marido deixara-a numa situação difícil. Por isso, fora forçada a aceitar aquele emprego que, visivelmente, a humilhava.
Tal como tinha acontecido com outras, transformei-a, rapidamente, em minha confidente. A dona Rosa não tivera filhos. Lamentava esse facto, visto que, depois de enviuvar, acabara por ficar só.
Depressa se estabeleceu entre nós uma grande confiança. Percebendo a minha carência afectiva, começou, como acontecera com outras, por me prodigalizar os seus carinhos maternais. Depois de confessarmos mutuamente as nossas frustrações, a mãe recalcada que nela existia veio ao de cima. Deve ter visto em mim, no início do nosso relacionamento, o filho que lamentava não ter tido. Eu estava próximo dos quinze anos. As carícias que passou a prodigalizar-me – que se revestiam, no início, de cunho manifestamente maternal – constituíam para mim, no meio do ambiente gelado que me rodeava, um enorme lenitivo. A partir de certa altura, porém, a ternura da dona Rosa começou a assumir o carácter de uma intimidade que era tudo menos maternal...
O complexo de Édipo tolheu, durante algum tempo, a minha iniciativa. Mais do que mãe, sentia-a minha avó... Mas o sexo, que despertara em mim, e as carícias cada vez mais audaciosas da dona Rosa, depressa venceram as minhas hesitações...
Uma noite, depois do meu regresso da escola, anunciou-me, no decurso do jantar que me preparara (e que, por via de regra, acompanhava), que deixaria a porta do quarto aberta para que eu, se o desejasse, fosse ter com ela...
. Escusado será dizer que me pediu para tomar todas as precauções de modo a evitar que meus tios se apercebessem da minha eventual incursão nocturna... Fiquei, como se compreende, excitadíssimo com aquela agradável proposta...»
Tal como tinha acontecido com outras, transformei-a, rapidamente, em minha confidente. A dona Rosa não tivera filhos. Lamentava esse facto, visto que, depois de enviuvar, acabara por ficar só.
Depressa se estabeleceu entre nós uma grande confiança. Percebendo a minha carência afectiva, começou, como acontecera com outras, por me prodigalizar os seus carinhos maternais. Depois de confessarmos mutuamente as nossas frustrações, a mãe recalcada que nela existia veio ao de cima. Deve ter visto em mim, no início do nosso relacionamento, o filho que lamentava não ter tido. Eu estava próximo dos quinze anos. As carícias que passou a prodigalizar-me – que se revestiam, no início, de cunho manifestamente maternal – constituíam para mim, no meio do ambiente gelado que me rodeava, um enorme lenitivo. A partir de certa altura, porém, a ternura da dona Rosa começou a assumir o carácter de uma intimidade que era tudo menos maternal...
O complexo de Édipo tolheu, durante algum tempo, a minha iniciativa. Mais do que mãe, sentia-a minha avó... Mas o sexo, que despertara em mim, e as carícias cada vez mais audaciosas da dona Rosa, depressa venceram as minhas hesitações...
Uma noite, depois do meu regresso da escola, anunciou-me, no decurso do jantar que me preparara (e que, por via de regra, acompanhava), que deixaria a porta do quarto aberta para que eu, se o desejasse, fosse ter com ela...
. Escusado será dizer que me pediu para tomar todas as precauções de modo a evitar que meus tios se apercebessem da minha eventual incursão nocturna... Fiquei, como se compreende, excitadíssimo com aquela agradável proposta...»
EDMUNDO PEDRO FAZ 88 ANOS
Edmundo Pedro comemora hoje 88 anos, poucos dias antes da publicação do primeiro volume das suas memórias.
Trata-se de um livro notável, em que Pedro recorda o fervor da sua crença no comunismo e a perda da fé, perante a desilução.
O livro promete ser um sucesso editorial... Não resisto a algumas citações.
«O meu irmão João, mais novo do que eu dois anos, foi, como eu, jovem comunista. A sua identificação ideológica com o comunismo foi ainda mais precoce do que a minha. Iniciou a sua militância com apenas onze anos! É também pensando no significado de uma tal precocidade que escrevo este livro!
Com efeito, tinha essa idade quando o convidaram a saudar, em nome dos "pioneiros" portugueses (obviamente inexistentes!), o IV.º Congresso do Partido Comunista Espanhol realizado em Sevilha no fim de 1931 ou no início de 1932. O meu pai, Gabriel Pedro, recentemente ali chegado, depois de ter fugido da Guiné, acabara de aderir àquele partido. Participou no congresso, bem como a minha mãe, Margarida Tavares Ervedoso, que, mais uma vez, saindo de Portugal, se lhe juntou. O meu irmão acompanhou-a. Antes disso, esteve com os meus pais na Guiné. A minha mãe deslocou-se para junto do marido quando este ali estive deportado. O João foi o filho que mais de perto seguiu a trajectória do pai – e que por isso mais directamente sofreu a sua influência moral e ideológica.
Meu pobre e querido irmão! Com que transbordante entusiasma ele me relatava a saudação que endereçara aos comunistas do país vizinho presentes naquela reunião! Com que admiração ele evocara, algum tempo antes de morrer, os admiráveis êxitos da industrialização em curso na União Soviética no âmbito do II.º Plano Quinquenal! Ele, apesar dos seus catorze anos, já acompanhava de perto, com uma paixão idêntica à minha, os resultados obtidos por aquele plano! Sabia de cor os milhões de toneladas de carvão saídos das minas do Donbass e os megawatts produzidos na nova central hidro-eléctrica do Dienieper!»
Com efeito, tinha essa idade quando o convidaram a saudar, em nome dos "pioneiros" portugueses (obviamente inexistentes!), o IV.º Congresso do Partido Comunista Espanhol realizado em Sevilha no fim de 1931 ou no início de 1932. O meu pai, Gabriel Pedro, recentemente ali chegado, depois de ter fugido da Guiné, acabara de aderir àquele partido. Participou no congresso, bem como a minha mãe, Margarida Tavares Ervedoso, que, mais uma vez, saindo de Portugal, se lhe juntou. O meu irmão acompanhou-a. Antes disso, esteve com os meus pais na Guiné. A minha mãe deslocou-se para junto do marido quando este ali estive deportado. O João foi o filho que mais de perto seguiu a trajectória do pai – e que por isso mais directamente sofreu a sua influência moral e ideológica.
Meu pobre e querido irmão! Com que transbordante entusiasma ele me relatava a saudação que endereçara aos comunistas do país vizinho presentes naquela reunião! Com que admiração ele evocara, algum tempo antes de morrer, os admiráveis êxitos da industrialização em curso na União Soviética no âmbito do II.º Plano Quinquenal! Ele, apesar dos seus catorze anos, já acompanhava de perto, com uma paixão idêntica à minha, os resultados obtidos por aquele plano! Sabia de cor os milhões de toneladas de carvão saídos das minas do Donbass e os megawatts produzidos na nova central hidro-eléctrica do Dienieper!»
domingo, novembro 05, 2006
Paradoxos...
Tive a oportunidade de ouvir o que disse o ministro da presidência, Pedro Silva Pereira, na Assembleia da República, a propósito das políticas de imigração.
O Estado vai gastar milhões de euros para «apoio aos imigrantes» quando isso se não justifica de todo.
O ACIME, que agora vai mudar de nome, justificava-se quando o país foi invadido por centenas de milhar de eslavos, que não falavam uma palavra de português nem compreendiam o funcionamento do nosso sistema político e social.
Muitos desses imigrantes já partiram e os que cá estão dominam razoávelmente a lingua portuguesa e estão perfeitamente integrados na sociedade.
Precisam, apenas, que o Estado clarifique as condições para a sua legalização.
Não faz nenhum sentido manter a discriminação dos primeiros tempos dessa onda de imigração, porque qualquer desses cidadãos tem hoje a possibilidade e a facilidade de aceder aos normais serviços públicos.
Parece-me que o ACIME deve, pura e simplesmente, ser dissolvido, até como forma de deixar lugar ao funcionamento da sociedade civil, através das próprias associações dos imigrantes.
Estas, se desenvolverem um trabalho social sério devem ser apoiadas, mas com uma especial exigência no que se refere à gestão dos fundos.
Não faz nenhum sentido poupar-se de um lado para se gastar do outro.
No seu discurso, o ministro anunciou que vai criar gabinetes para apoiar os imigrantes no acesso à nacionalidade dos seus filhos. Mais jobs for the boys, que não têm a minima justificação. Há conservatórias do registo civil em todo o país, com capacidade e competência para realizar esse trabalho. Mas quê criar mais estruturas, quando nos dizem que o país tem que poupar?
E é bom que o Estado volte a pensar nos emigrantes portugueses, ao menos nos mesmos termos em que pensa nos imigrantes estrangeiros.
Imigração responsável...
Portugal esteve representado por Cavaco Silva e José Sócrates na Cimeira Ibero-Americana, em Montevideu.
O prato forte foram as politicas de imigração.
Segundo os jornais «o primeiro-ministro, José Sócrates, defendeu uma "abertura responsável" à imigração, garantindo que Portugal pratica essa política e se insere numa União Europeia que tem como valores o realismo, a tolerância e o humanismo».
Sócrates, que tem dado ao país a imagem de um homem de acção começa a manifestar um claro cansaço, com discursos repetidos e forçados, perante a inacção da burocracia que afecta Portugal.
O governo está no poder há ano e meio e não fez nada de sensível nesta área. Tem uma proposta de lei razoável, a aguardar aprovação na Assembleia da República. Mas corre o risco de não ter imigrantes, quando a lei for aprovada.
Uma boa parte deles - os melhores ou os mais arrojados - já partiram para outros países, cansados de esperar, na situação de ilegalidade em que viviam.
E afinal - como sustento há longo tempo - seria tudo tão simples, se houvesse bom senso. Bastava que se desse uma oportunidade aos que têm trabalho, para procederem a um registo (via Internet, naturalmente) informando dos seus dados e dos dados da entidade patronal, com referência, naturalmente, à data de admissão.
O mesmo programa informático, poderia gerar os dados para a contabilização imediata dos impostos e dos créditos da Segurança Social.
Este é o tipo de medidas que não pode ser adiado. Para além do cansaço que a insegurança gera, são milhões os valores que o Estado e a Segurança Social perdem todos os dias.
Os discursos são muito bonitos, mas ao cabo de se matraquearem tanto tempo sem acção transformam-se em conversas da treta que só desacreditam quem os profere.
sábado, novembro 04, 2006
sexta-feira, outubro 27, 2006
Comerciante deportada de Dublin denuncia espancamento na Europa
Uma vergonha...
Luzia Procópio foi confundida com prostituta e foi presa na Irlanda
Mariana Rios
Luzia Procópio foi confundida com prostituta e foi presa na Irlanda
Mariana Rios
Em sete dias, a comerciante paulista Luzia Procópio, 34 anos, conheceu o inferno na Europa. Detida no aeroporto de Dublin, de onde foi deportada pelo serviço de imigração irlandês, ela desembarcou ontem à noite no Aeroporto Internacional Deputado Luís Eduardo Magalhães. Abatida, prestou depoimento no posto da Polícia Federal e relatou o preconceito, as agressões e humilhações pelas quais passou em território europeu. Casada, mãe de dois filhos, Luzia, bastante emocionada, conversou com jornalistas sobre o sonho transformado no pior pesadelo de sua vida.
Foram dois dias, em uma solitária em Dublin, interrogatórios, as roupas jogadas no chão, a mala remexida, a agenda vasculhada. Os agentes de imigração procuravam o contato de Luzia numa possível rede de prostituição na Irlanda. Com os lábios trêmulos, contou sobre os socos que levou de duas policiais femininas, na altura do estômago, no lado direito, e dos pontapés, quando colocaram-na numa pequena cela, que chamou de solitária. Intérprete, através de um telefone, só no segundo dia.
De volta a Lisboa, aguardou por cinco dias numa sala, alimentando-se, conforme relatou, com sobras de alimentos servidos em aviões. Queixando-se de dores, recebeu um analgésico. Dividiu em 12 parcelas de R$295 o desejo de conhecer capitais européias e mesmo com a passagem de volta em mãos foi tratada como uma intrusa. “Quero justiça. Vou encaminhar o meu protesto ao Consulado em Brasília. Se não queriam minha presença lá, não precisavam agredir. Nunca me senti tão humilhada”, afirmou, explicando que por uma questão de saúde, perda progressiva da visão, o marido não pôde acompanhá-la.
A brasileira não seguiu para São Paulo porque não tinha 248 euros. Desembolsou cem euros para comprar a passagem de volta para Salvador. Ela seguiu para Lisboa no dia 16 de outubro, chegou em Dublin no dia 18, e pretendia seguir para Madri e Paris, e retornar para a capital portuguesa. Desembarcaria no Brasil, no próximo dia 16. “Não volto nunca mais”, disse Luzia antes de prestar depoimento ao coordenador da Polícia Federal no aeroporto, Francisco Gonçalves, informado sobre o caso pelo adido do órgão na Europa.
Após o pouso da aeronave da TAP Air Portugal, cujo vôo durou cerca de oito horas até o Brasil, mais quase três horas de atraso para o desembarque, em razão das condições climáticas, Luzia contou sua saga. Nas mãos, o passaporte, que apresentou ao coordenador, com o carimbo da imigração irlandesa, que traz uma cruz, símbolo de que não foi aceita, e outro da imigração portuguesa. Ela entregou ainda uma carta do serviço irlandês de que não foi aceita e notificação da polícia portuguesa, obrigada, por um acordo internacional a cumprir as deportações dos países signatários.
Segundo Gonçalves, o depoimento e toda a documentação seguem para a Divisão de Controle de Imigração da Polícia Federal, em Brasília. Então, será encaminhada para o Ministério de Justiça e para a Comissão de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU). “O governo brasileiro cobrará uma posição sobre o que aconteceu”, declarou. Somente essa semana, pontuou, foram 15 brasileiros deportados que desembarcaram em Salvador. “As mulheres são mais discriminadas na Europa. Brasileira, sozinha, na Europa é taxada de prostituta”, concluiu Gonçalves.
Perguntado sobre como a atitude de Luzia mudaria tal situação, pontuou que a denúncia é uma forma de protesto. “São poucos os deportados que nos procuram”. Até as 21h de ontem, o dia de Luzia não tinha terminado. Ela continuava depondo na Polícia Federal.
http://www.correiodabahia.com.br/
segunda-feira, outubro 23, 2006
Luso-descendências...
Não resisto a publicar esta mensagem enviada por uma luso-descendente ao PortugalClub.
Sem comentários. Vale para memória futura.
Prezados Amigos,
Agradeço por vocês por me aceitarem no grupo, mas antes quero esclarecê-los do porque sobre a minha decisão. Eu estou no Brasil e sou filha de português e bisneta de espanhois e alemão, logo o passaporte português ficou "mais fácil" para eu tirar, então, esperei muito tempo (desde 2004) a boa bontade do Consulado Geral de São Paulo para que isto finalmente acontecesse em Maio deste mesmo ano. Logo, eu começei a acessar muitos sites sobre Londres e achei bastante coisas interessantes. Como eu sei que ficar longe da pátria é difícil, já tem um bom tempo que procuro me enturmar com pessoas de minha língua para trocar informações sobre a cultura britânica, emprego, etc., antes de embarcar.
Como sei um pouco de inglês, localizei algumas agências em Londres e já saio do Brasil empregada em Outubro de 2006, graças a Deus! Estou nos preparativos.
Mas enfim, procurei contatos interessantes e lamentavelmente no msn achei um grupo de pessoas brasileiras falsificando passaportes na maior cara de pau e oferecendo para quem ainda está no Brasil. E infelizmente o nosso, é o que tem maior giro!
Eu estou envergonhada da palhaçada que infelizmente alguns brasileiros estão fazendo descaradamente e ainda humilhar as pessoas decentes que debatem contra este tipo de coisa.Eu coloquei este e-mail critico69@servidor.com.br , porque o outro e-mail pessoal que havia cadastrado anteriormente, recebi insultos de uma tal de Darlene da Silva me chamando de ignorante e que as pessoas no Brasil morrem de fome, por isto fazem este tipo de coisa.
Que eu saiba, apenas no Norte e Nordeste isto acontece, porque no Sul o padrão de vida é muito bom e parece um pedaço da Europa e as cidades são limpas e organizadas. Gramado é um verdadeiro sonho! Em São Paulo, tem muita pobreza e crimes organizados, pessoas perambulando pelas ruas, mas no final de feira é um pecado tantas frutas e legumes que sobram e ficam pelo chão! Então, eu tenho 36 anos de SP e nunca vi ninguém morrer de fome e sim de frio , mendigos de rua que não suportam nosso inverno. O programa que nosso presidente tanto fala da fome zero é para pessoas do Norte, Nordeste, daí sim isto acontece!
Mas elas são tão miseráveis que vivem em meio rural e não sabem nem o que é um automóvel! Acho improvável que saibam o que é uma viagem internacional e como penetrar em países de 1º mundo. É lógico, que no Nordeste, devido ao turismo tem muitas prostitutas que acabam tendo este acesso e querem uma vida melhor em troca de "serviços" e também temos problemas de conjuntura em todo país com nossa economia instável, taxas e impostos que lamentavelmente nossos governantes não param de aumentar a cada dia, mas é um absurdo usar estes argumentos como desculpas esfarrapadas para pessoas se venderem e conquistar dinheiro!
Uma passagem custa mais de R$ 2500,00 e documento falso também não é barato!
O pior foi receber o e-mail em letras maiúsculas, o que denota total falta de educação me chamando de filinha de papai e ignorante.
Ainda com erro grosseiro de português! Quem sabe foi um erro de digitação, mas é vergonhoso que até o termo nóis é usado frequentemente por algumas destas pessoas. Então, infelizmente vou ter que procurar outros grupos para conversarmos coisas que me enriquecem culturalmente e me trazem paz de espírito. Porque eu posso até concordar com a mesma que realmente sou "ignorante" e nunca saí de minha pátria, então eu admito que tenho muito para aprender... Mas aqui no Brasil eu cursei 3 Universidades e tenho ótima formação e não sou filhinha de papai como a mesma citou em suas ofensas. Meu pai veio para o Brasil em 1951 e trabalhou duro para deixar 3 filhas com diploma superior. Deixo saudações para os que estão longe de suas famílias, porque só estando fora para sentir o gosto desta experiência que vou sentir a partir de Outubro.
Eu pretendo contribuir com este espaço com boas informações e peço desculpas pelo meu desabafo e minha indignação.
Sem comentários. Vale para memória futura.
Prezados Amigos,
Agradeço por vocês por me aceitarem no grupo, mas antes quero esclarecê-los do porque sobre a minha decisão. Eu estou no Brasil e sou filha de português e bisneta de espanhois e alemão, logo o passaporte português ficou "mais fácil" para eu tirar, então, esperei muito tempo (desde 2004) a boa bontade do Consulado Geral de São Paulo para que isto finalmente acontecesse em Maio deste mesmo ano. Logo, eu começei a acessar muitos sites sobre Londres e achei bastante coisas interessantes. Como eu sei que ficar longe da pátria é difícil, já tem um bom tempo que procuro me enturmar com pessoas de minha língua para trocar informações sobre a cultura britânica, emprego, etc., antes de embarcar.
Como sei um pouco de inglês, localizei algumas agências em Londres e já saio do Brasil empregada em Outubro de 2006, graças a Deus! Estou nos preparativos.
Mas enfim, procurei contatos interessantes e lamentavelmente no msn achei um grupo de pessoas brasileiras falsificando passaportes na maior cara de pau e oferecendo para quem ainda está no Brasil. E infelizmente o nosso, é o que tem maior giro!
Eu estou envergonhada da palhaçada que infelizmente alguns brasileiros estão fazendo descaradamente e ainda humilhar as pessoas decentes que debatem contra este tipo de coisa.Eu coloquei este e-mail critico69@servidor.com.br , porque o outro e-mail pessoal que havia cadastrado anteriormente, recebi insultos de uma tal de Darlene da Silva me chamando de ignorante e que as pessoas no Brasil morrem de fome, por isto fazem este tipo de coisa.
Que eu saiba, apenas no Norte e Nordeste isto acontece, porque no Sul o padrão de vida é muito bom e parece um pedaço da Europa e as cidades são limpas e organizadas. Gramado é um verdadeiro sonho! Em São Paulo, tem muita pobreza e crimes organizados, pessoas perambulando pelas ruas, mas no final de feira é um pecado tantas frutas e legumes que sobram e ficam pelo chão! Então, eu tenho 36 anos de SP e nunca vi ninguém morrer de fome e sim de frio , mendigos de rua que não suportam nosso inverno. O programa que nosso presidente tanto fala da fome zero é para pessoas do Norte, Nordeste, daí sim isto acontece!
Mas elas são tão miseráveis que vivem em meio rural e não sabem nem o que é um automóvel! Acho improvável que saibam o que é uma viagem internacional e como penetrar em países de 1º mundo. É lógico, que no Nordeste, devido ao turismo tem muitas prostitutas que acabam tendo este acesso e querem uma vida melhor em troca de "serviços" e também temos problemas de conjuntura em todo país com nossa economia instável, taxas e impostos que lamentavelmente nossos governantes não param de aumentar a cada dia, mas é um absurdo usar estes argumentos como desculpas esfarrapadas para pessoas se venderem e conquistar dinheiro!
Uma passagem custa mais de R$ 2500,00 e documento falso também não é barato!
O pior foi receber o e-mail em letras maiúsculas, o que denota total falta de educação me chamando de filinha de papai e ignorante.
Ainda com erro grosseiro de português! Quem sabe foi um erro de digitação, mas é vergonhoso que até o termo nóis é usado frequentemente por algumas destas pessoas. Então, infelizmente vou ter que procurar outros grupos para conversarmos coisas que me enriquecem culturalmente e me trazem paz de espírito. Porque eu posso até concordar com a mesma que realmente sou "ignorante" e nunca saí de minha pátria, então eu admito que tenho muito para aprender... Mas aqui no Brasil eu cursei 3 Universidades e tenho ótima formação e não sou filhinha de papai como a mesma citou em suas ofensas. Meu pai veio para o Brasil em 1951 e trabalhou duro para deixar 3 filhas com diploma superior. Deixo saudações para os que estão longe de suas famílias, porque só estando fora para sentir o gosto desta experiência que vou sentir a partir de Outubro.
Eu pretendo contribuir com este espaço com boas informações e peço desculpas pelo meu desabafo e minha indignação.
Magali Parreira
quinta-feira, outubro 12, 2006
Comunicado do Consulado de Portugal em S. Paulo
Tinha decidido evitar, tanto quanto possível, voltar a referir nest blog os acontecimentos do Consulado Geral de Portugal em S. Paulo.
Publiquei a carta dos funcionários, que é por si sintomática.
Não posso deixar de publicar a resposta do Cônsul, agora conhecida através de comunicado:
Comunicado
Não posso deixar de manifestar publicamente a minha enorme indignação com mais uma peça de finíssima manipulação lançada para o caldeirão dos azedumes, infâmias e mentiras que um pequeno grupo de pessoas vêm enchendo e remexendo desde que acabaram as filas de espera no Consulado-geral em São Paulo, há dois anos atrás.
Trata-se de uma carta enviada ao Senhor Ministro dos Negócios Estrangeiros, datada de 28 de Setembro mas tornada hoje pública, cujos 15 subscritores, “funcionários dos quadros” que são também membros do sindicato STCDE, ou, como a si próprios se classificam, os “donos da casa”, se queixam de estar a ser “moralmente assediados”, não só por mim, o que não seria novo, como por uma coligação de “coniventes”, composta afinal por todos os outros, desde os restantes 15 trabalhadores administrativos, dos quais 12 são depreciativamente chamados de “visitas”, isto é, “prestadores de serviço” e “contratados”, até aos agentes de segurança e às empregadas da limpeza, acusados unanimemente de terem “arrogância”.
Ao meu escândalo incontido com esta desconsideração inqualificável pelos que hoje em dia mais contribuem para os níveis elevadíssimos de serviço do Consulado, e cujo comportamento pessoal se caracteriza justamente pela discrição e humildade, soma-se também a perplexidade com o que poderia eventualmente substanciar tais queixas de perseguição:
Perseguidos porque a sua correspondência privada é violada? Não, certamente, pois não se compreenderia que o endereço do Consulado-geral de Portugal em São Paulo continuasse a ser usado para fins privativos.
Porque são deliberadamente filmados? Mas para quê e como, pois se, das dez câmaras que são usadas no Consulado, sete estão no exterior, uma na Sala de Espera dos utentes, e duas no Centro Emissor de BI, das quais uma por dentro e outra por cima da respectiva porta de acesso ?
Porque não podem comunicar-se com o exterior ? Também não, pois cada um dos subscritores da carta tem um número externo próprio de telefone e acesso irrestrito às máquinas de fax e à net.
Porque são más as instalações onde trabalham ? Não, certamente, pois todos os que as conhecem são unânimes em considerá-las muito, muito acima da média da rede consular portuguesa, em todos os aspectos.
Porque têm que lidar directamente com utentes enfurecidos pelos atrasos no processamento dos seus requerimentos ? Não, pois há mais de dois anos que acabaram as filas de espera físicas e administrativas no Consulado de São Paulo.
Porque têm que responder a centenas de perguntas? Ainda menos, pois desde 2001 que uma Central de Atendimento Telefónico as processa, mais de 600 por dia.
Porque são obrigados a trabalhar muito? Não, pois nunca nenhum membro da “gerência” pediu que trabalhassem mais do que as 5,30 horas que a lei estipula, e que são escrupulosamente respeitadas pela maioria dos signatários.
Porque ganham pouco ? Também não, pois, até mesmo em Portugal, é muito robusto o vencimento médio que os 15 subscritores auferem, de 3130 dólares por mês, líquidos de impostos, 14 vezes por ano.
Porquê então ?
Será que a “perseguição moral” de que se queixam advém de ser intolerável conviver na mesma sala com as 12 “visitas”, pessoas esforçadas e motivadas que trabalham voluntariamente mais de dez horas por dia, e amiúde durante o fim-de-semana, para evitar qualquer atraso no processamento dos requerimentos dos utentes, apesar de auferirem remunerações bem menores ?
Ou será que resulta de ser moralmente inaceitável verificar todos os dias a contradição entre a propalada insatisfação dos utentes com o Consulado e o verdadeiro contentamento que a esmagadora maioria teima testemunhar a quem estiver genuinamente interessado em saber ?
Será que se deve a não termos ainda conseguido encontrar o paradeiro da maioria dos mais de 7000 utentes cujos Bilhetes de Identidade e Passaportes válidos estavam no Consulado à espera de serem levantados, porque nunca ninguém se preocupou em perguntar-lhes se queriam recebê-los em casa ?
Ou será por fim que a percepção de “assédio moral” resulta de o número de portugueses que se inscreveram nos Cadernos Eleitorais desde Setembro de 2004 já ter ultrapassado os 6000, depois de 20 nos 4 anos precedentes, tornando cada mais (in)compreensível a “manifestação” de 10 adultos e 5 meninos que teve lugar em frente do Consulado dia 10 de Janeiro, contra o “fecho das portas” e consequentes “dificuldades de recenseamento” ?
Só os próprios poderão responder.
Espero no entanto que a opinião pública portuguesa de São Paulo ajuíze com serenidade, sobretudo aqueles que têm suficiente experiência de vida para poder comparar o que foi com o que é, e concluir se agora o Consulado-geral está ou não mais perto dos utentes ─ os que fomos educados a acreditar serem os únicos “donos da casa”, na qual quem trabalha não passariam de meros servidores, que só se deveriam distinguir entre si pela intensidade do “serviço” que todos foram “contratados” para prestar, com a máxima isenção.
O Cônsul-geral
Em 10 de Outubro de 2006
quarta-feira, outubro 11, 2006
Grande diplomata...
Depois de nos ter surpreendido recentemente com um livro excelente - porque são cada vez mais raras as manifestações de frontalidade - eis que Francisco Seixas da Costa nos trouxe ontem um novo contributo para a reflexão sobre as relações internacionais.
Homenageado pela Câmara de Comércio e Indústria Luso-Brasileira, como personalidade do Ano 2005, Seixas da Costa proferiu um importante discurso, que não resisto a reproduzir:
«Permitam-me que comece por agradecer à Câmara de Comércio e Indústria Luso-Brasileira, na pessoa do seu Presidente, Dr. António Bustorff, o facto de ter escolhido o meu nome para receber esta prestigiosa distinção.
Fico muito grato por se terem lembrado de mim e só espero que o meu trabalho futuro continue a não desiludi-los.
A circunstância de ter recebido este prémio das mãos do Presidente Fernando Henrique Cardoso, que é uma figura que há muitos anos me habituei a ler e a apreciar, bem antes de ele próprio vir a ter elevadas funções políticas, acresce ainda mais à honra que sinto neste momento.
E gostava também de dizer que estou feliz pelo facto de ter, como parceiro neste dia, o empresário André Jordan, uma personalidade que faz hoje parte da história do desenvolvimento do turismo de elevada qualidade em Portugal.
Quero também felicitá-lo, pessoalmente, neste momento.
E se agradeço a presença de todos, julgo que me perdoarão se sublinhar o facto de termos hoje connosco nesta mesa o meu querido amigo Dr.Jorge Sampaio.
Confesso que, quando fui informado da ideia de me destinarem este prémio, fiquei um pouco perplexo, como o Dr. António Bustorff se lembrará.
É que, pela primeira vez na minha vida, estava a ser distinguido, muito simplesmente, por ter cumprido o meu dever.
E nós, portugueses, não estamos muito habituados a isso...
O acompanhamento e o apoio à acção empresarial portuguesa no exterior foi sempre, historicamente, uma função típica da diplomacia.
Ao longo das mais de três décadas que levo na carreira diplomática, sempre observei colegas meus muito empenhados no trabalho de suporte às empresas na sua actividade internacional.
Tenho hoje aqui, como meu convidado, o meu amigo Embaixador Paulo Ennes, o qual, precisamente há 30 anos, e então como sub-director geral dos Negócios Económicos, me deu as primeiras directrizes sobre o modo como um diplomata deve trabalhar, no apoio às movimentações internacionais dos nossos empreendedores.
O novo Secretário-Geral do Ministério, Embaixador Fernando Neves, que entrou comigo no mesmo dia para as Necessidades, é testemunha privilegiada do que acabo de dizer.
Recordo, desse interessante trabalho que então fizémos sob a sua direcção, o reforço das relação aos mercados árabes, onde, por exemplo, abrimos caminhos para empresas portuguesas construírem alguns palácios, num país do Médio Oriente cujo nome agora me escapa, palácios esses que hoje, ao que se sabe, parece estarem outra vez a necessitar de obras...
Nessa altura, aprendi como o MNE sabia articular-se com o então Fundo de Fomento de Exportação, com a velha Direcção-Geral do Comércio Externo, bem como com os sectores de relações internacionais dos ministérios económicos.
Desde esse tempo, todos adaptámos a nossa maneira de trabalhar, os organismos interlocutores foram evoluindo, uma maior exigência e até uma maior tecnicidade foi necessária.
O próprio Ministério dos Negócios Estrangeiros alterou as suas estruturas, eliminou estranhamente a sua Direcção-Geral dos Negócios Económicos e, bem mais tarde, veio a ter de criar, para corrigir aquela decisão, um Gabinete de Assuntos Económicos.
Mas, no que pessoalmente me toca, tenho a sensação de que, não obstante essas mutações formais, me fui sempre comportando de forma basicamente similar em todos os postos onde servi, quer em relação aos agentes económicos privados, quer na articulação com os restantes ministérios.
E vi sempre os meus colegas fazê-lo, naturalmente cada um a seu modo, alguns com mais vocação que outros, mas, na esmagadora maioria dos casos, com um elevado sentido de responsabilidade e de empenhamento.
Por essa razão, quando, aqui há poucos anos, apareceram por aí uns “descobridores da pólvora” a dar-se ares de que estavam a criar uma coisa nova chamada “diplomacia económica”, só me não ri porque estas coisas do serviço público são muito sérias e não tem nenhuma graça vê-las tratadas de forma leviana.
As estruturas diplomáticas e consulares portuguesas, que são órgãos de apoio a toda a acção económica externa, sempre estiveram, e devem continuar a estar, ao serviço dos empresários nacionais que actuam no exterior.
Repito aquilo que tenho dito e redito no Brasil, aos nossos empresários, em todos os contextos: usem a nossa embaixada, usem os nossos consulados, peçam-nos para os apoiarmos nas vossas diligências, utilizem os nossos serviços.
As vossas empresas pagam impostos para terem, ao dispor, uma rede de acompanhamento e apoio oficial no exterior.
Se não funcionarmos eficazmente, se não satisfizermos os vossos interesses – os interesses legítimos e razoáveis, naturalmente – peço que reclamem.
Se a culpa não for nossa, ou se não dispusermos de meios para corresponder aos vossos pedidos, lá estarão o embaixador ou os cônsules para dizerem isso mesmo à respectiva tutela.
Nós somos servidores públicos – e eu quero dizer, neste que é um ambiente onde prevalece uma cultura de economia privada, que tenho um grande orgulho pelo facto de, há mais de 35 anos, ser servidor do Estado português.
Digo-o bem alto num tempo em que se assiste a alguma diabolização do serviço público.
Também eu me queixo do mau serviço público, da burocracia, do deixa-andar, da indiferença, da incompetência, da arrogância de quem tem um balcão ou um carimbo como fonte medíocre de poder.
Mas o que a administração publica portuguesa necessita, mais do que soluções simplistas e caricaturais, de quem parece que vê o Estado como um eterno inimigo, ou um mero intermediador de subsídios europeus, é de uma cultura de transparência e de responsabilização.
A nossa administração deve ser sujeita a um escrutínio constante de funcionalidade, de saber abrir-se a um juízo sério de “accountability”.
É que, também no serviço público, quem não deve não teme.
E quero poder interpretar, na distinção que hoje me é atribuída – e que eu desejo partilhar com todos os meus colaboradores no Brasil –, que ela representa a vossa apreciação de que, afinal, há sectores do serviço do Estado que merecem um juízo e uma avaliação positiva da vossa parte.
E isso, naquilo que me toca, deixa-me imensamente satisfeito.
Permitam-me ainda algumas palavras, mais directamente voltadas para a minha actividade no Brasil.
Nestes quase dois anos que levo no país, pude concluir que, para um diplomata português, servir no Brasil é um raro privilégio.
Digo-o com a maior sinceridade, até porque nem sempre tive exactamente essa ideia.
Há, no relacionamento entre Portugal e o Brasil, algo de atípico, de muito diferente, difícil de definir, nos encontros e nos desencontros, que nos estimula a procurar trabalhar mais e a perceber melhor.
Sem retóricas, e deixando por uma vez as caravelas de lado, aprendi que há cada vez mais, no Brasil de hoje, um espaço muito interessante para a actividade dos agentes económicos portugueses.
Mas também aprendi que, no campo específico do comércio, não vale a pena sermos megalómanos nas nossas ambições, nem ficar iludidos pelo fenómeno do crescimento anual a dois dígitos das nossas trocas bilaterais.
Os números do nosso comércio são o que são, podem crescer imenso mas, por muito tempo, atendendo ao seu ponto de partida, serão um pouco mais que irrelevantes, no contexto geral do comércio externo dos nossos dois países.
Se não conseguirmos mudar o paradigma dos nossos produtos de exportação, as coisas podem continuar a evoluir, mas o seu ritmo nunca será significativo.
Além disso, permanece no Brasil uma ideosincrasia proteccionista que, ainda hoje, nos cria grandes dificuldades na área comercial e que só um acordo entre a União Europeia e o Mercosul permitiria ajudar a superar.
Pode parecer politicamente incorrecto estar a dizer isto, de forma tão frontal, mas a mim pagam-me para trabalhar com a verdade.
Já no que toca aos investimentos, as coisas têm outra dimensão.
Se alguns parâmetros essenciais se mantiverem no Brasil, nomeadamente nos equilíbrios macro-económicos a médio prazo – e creio que, no essencial, devem manter-se, se dependerem apenas da vontade interna brasileira -, o Brasil continuará a ser um mercado muito interessante para os investidores portugueses.
Alguns deles, porém, talvez tenham de aprender a trabalhar mais em articulação com outros parceiros, europeus ou doutras origens, para poderem ganhar uma escala competitiva, num mercado que tende a tornar-se mais exigente.
E estou a falar de empresas de maior dimensão: no caso das PME’s, o panorama não é exactamente o mesmo e haverá que ter uma atenção bastante maior, em especial em certos sectores.
É que há importantes diferenças entre o ambiente empresarial brasileiro e a cultura de inserção - normativa administrativa e de crédito - em que as empresas portuguesas dessa dimensão estão habituadas a actuar na Europa, ou mesmo em outros mercados, tidos como de recuperação rápida dos investimentos.
Esta é uma mensagem que pretendo de cautela, embora não deva ser lida como desmotivadora.
É neste trabalho com as PME’s que me parece da maior relevância o papel das Câmaras de Comércio portuguesas no Brasil, cuja articulação em rede tenho vindo a estimular, desde que cheguei ao país.
Temos actualmente 10 Câmaras de Comércio portuguesas no Brasil, uma das quais criada há poucos meses, e conto podermos anunciar a criação de uma outra, muito em breve.
Mas, no trabalho da nossa promoção no Brasil, em que muitos têm feito esforços louváveis e meritórios, temos de nos convencer a mudar radicalmente o perfil de algumas iniciativas.
Os eventos não podem, como muitas vezes acontece, continuar a ser meros “talking shops”, intermináveis seminários, colóquios, simpósios e quejandos, uma espécie de conversas quase só luso-portuguesas, com meia dúzia de “habitués” brasileiros, e que ficariam bem mais baratas se fossem feitas “off season” na Costa da Caparica.
Temos de habituar-nos a trabalhar melhor a montante desses eventos, despertar e assegurar o interesse dos potenciais contrapartes brasileiros e, só então, avançar com realizações de eventos concretos.
Organizar reuniões só para inventariar ou actualizar os números do passado e expressar intenções para o futuro, pode sossegar as almas, mas, há que reconhecer, acaba por transformar-se em momentos de clamorosa inutilidade.
E as pessoas têm cada vez menos tempo para ouvir sempre as mesmas coisas.
Uma última palavra – e prometo que com isto termino: é importante que saibamos ser muito mais agressivos na captação do investimento directo brasileiro.
Temos de saber explicar melhor aos nossos amigos brasileiros que uma qualquer empresa criada em Portugal passa a ser uma empresa europeia, com tudo o que isso significa de oportunidades num imenso mercado.
O Brasil, pela dimensão do seu próprio mercado interno e pela habituação de trabalho com a sua vizinhança próxima, tem uma experiência pouco diversificada, embora já bastante rica, em termos de investimento nos mercados externos.
Tenho a sensação de que a percepção dos responsáveis económicos brasileiros para as novas oportunidades, numa economia global onde o Brasil tende a estar cada vez mais presente, está a mudar muito rapidamente.
Acho que Portugal pode ajudar a reforçar esta percepção e sugerir-se como um óptimo terreno, com vantagens comparativas ímpares, para concretização de interesses dos nossos parceiros brasileiros.
Sinto que, também aqui, as coisas estão a mudar. »
Como já um dia disse, e contrariamente ao que cantava Chico Buarque, sinto que agora já não há “tanto mar” a nos separar.
Sem deixar de ser fiel à sua gente, Seixas da Costa pôs o dedo nalgumas feridas e afirmou princípios que deveriam ser melhor ouvidos.
Fico muito grato por se terem lembrado de mim e só espero que o meu trabalho futuro continue a não desiludi-los.
A circunstância de ter recebido este prémio das mãos do Presidente Fernando Henrique Cardoso, que é uma figura que há muitos anos me habituei a ler e a apreciar, bem antes de ele próprio vir a ter elevadas funções políticas, acresce ainda mais à honra que sinto neste momento.
E gostava também de dizer que estou feliz pelo facto de ter, como parceiro neste dia, o empresário André Jordan, uma personalidade que faz hoje parte da história do desenvolvimento do turismo de elevada qualidade em Portugal.
Quero também felicitá-lo, pessoalmente, neste momento.
E se agradeço a presença de todos, julgo que me perdoarão se sublinhar o facto de termos hoje connosco nesta mesa o meu querido amigo Dr.Jorge Sampaio.
Confesso que, quando fui informado da ideia de me destinarem este prémio, fiquei um pouco perplexo, como o Dr. António Bustorff se lembrará.
É que, pela primeira vez na minha vida, estava a ser distinguido, muito simplesmente, por ter cumprido o meu dever.
E nós, portugueses, não estamos muito habituados a isso...
O acompanhamento e o apoio à acção empresarial portuguesa no exterior foi sempre, historicamente, uma função típica da diplomacia.
Ao longo das mais de três décadas que levo na carreira diplomática, sempre observei colegas meus muito empenhados no trabalho de suporte às empresas na sua actividade internacional.
Tenho hoje aqui, como meu convidado, o meu amigo Embaixador Paulo Ennes, o qual, precisamente há 30 anos, e então como sub-director geral dos Negócios Económicos, me deu as primeiras directrizes sobre o modo como um diplomata deve trabalhar, no apoio às movimentações internacionais dos nossos empreendedores.
O novo Secretário-Geral do Ministério, Embaixador Fernando Neves, que entrou comigo no mesmo dia para as Necessidades, é testemunha privilegiada do que acabo de dizer.
Recordo, desse interessante trabalho que então fizémos sob a sua direcção, o reforço das relação aos mercados árabes, onde, por exemplo, abrimos caminhos para empresas portuguesas construírem alguns palácios, num país do Médio Oriente cujo nome agora me escapa, palácios esses que hoje, ao que se sabe, parece estarem outra vez a necessitar de obras...
Nessa altura, aprendi como o MNE sabia articular-se com o então Fundo de Fomento de Exportação, com a velha Direcção-Geral do Comércio Externo, bem como com os sectores de relações internacionais dos ministérios económicos.
Desde esse tempo, todos adaptámos a nossa maneira de trabalhar, os organismos interlocutores foram evoluindo, uma maior exigência e até uma maior tecnicidade foi necessária.
O próprio Ministério dos Negócios Estrangeiros alterou as suas estruturas, eliminou estranhamente a sua Direcção-Geral dos Negócios Económicos e, bem mais tarde, veio a ter de criar, para corrigir aquela decisão, um Gabinete de Assuntos Económicos.
Mas, no que pessoalmente me toca, tenho a sensação de que, não obstante essas mutações formais, me fui sempre comportando de forma basicamente similar em todos os postos onde servi, quer em relação aos agentes económicos privados, quer na articulação com os restantes ministérios.
E vi sempre os meus colegas fazê-lo, naturalmente cada um a seu modo, alguns com mais vocação que outros, mas, na esmagadora maioria dos casos, com um elevado sentido de responsabilidade e de empenhamento.
Por essa razão, quando, aqui há poucos anos, apareceram por aí uns “descobridores da pólvora” a dar-se ares de que estavam a criar uma coisa nova chamada “diplomacia económica”, só me não ri porque estas coisas do serviço público são muito sérias e não tem nenhuma graça vê-las tratadas de forma leviana.
As estruturas diplomáticas e consulares portuguesas, que são órgãos de apoio a toda a acção económica externa, sempre estiveram, e devem continuar a estar, ao serviço dos empresários nacionais que actuam no exterior.
Repito aquilo que tenho dito e redito no Brasil, aos nossos empresários, em todos os contextos: usem a nossa embaixada, usem os nossos consulados, peçam-nos para os apoiarmos nas vossas diligências, utilizem os nossos serviços.
As vossas empresas pagam impostos para terem, ao dispor, uma rede de acompanhamento e apoio oficial no exterior.
Se não funcionarmos eficazmente, se não satisfizermos os vossos interesses – os interesses legítimos e razoáveis, naturalmente – peço que reclamem.
Se a culpa não for nossa, ou se não dispusermos de meios para corresponder aos vossos pedidos, lá estarão o embaixador ou os cônsules para dizerem isso mesmo à respectiva tutela.
Nós somos servidores públicos – e eu quero dizer, neste que é um ambiente onde prevalece uma cultura de economia privada, que tenho um grande orgulho pelo facto de, há mais de 35 anos, ser servidor do Estado português.
Digo-o bem alto num tempo em que se assiste a alguma diabolização do serviço público.
Também eu me queixo do mau serviço público, da burocracia, do deixa-andar, da indiferença, da incompetência, da arrogância de quem tem um balcão ou um carimbo como fonte medíocre de poder.
Mas o que a administração publica portuguesa necessita, mais do que soluções simplistas e caricaturais, de quem parece que vê o Estado como um eterno inimigo, ou um mero intermediador de subsídios europeus, é de uma cultura de transparência e de responsabilização.
A nossa administração deve ser sujeita a um escrutínio constante de funcionalidade, de saber abrir-se a um juízo sério de “accountability”.
É que, também no serviço público, quem não deve não teme.
E quero poder interpretar, na distinção que hoje me é atribuída – e que eu desejo partilhar com todos os meus colaboradores no Brasil –, que ela representa a vossa apreciação de que, afinal, há sectores do serviço do Estado que merecem um juízo e uma avaliação positiva da vossa parte.
E isso, naquilo que me toca, deixa-me imensamente satisfeito.
Permitam-me ainda algumas palavras, mais directamente voltadas para a minha actividade no Brasil.
Nestes quase dois anos que levo no país, pude concluir que, para um diplomata português, servir no Brasil é um raro privilégio.
Digo-o com a maior sinceridade, até porque nem sempre tive exactamente essa ideia.
Há, no relacionamento entre Portugal e o Brasil, algo de atípico, de muito diferente, difícil de definir, nos encontros e nos desencontros, que nos estimula a procurar trabalhar mais e a perceber melhor.
Sem retóricas, e deixando por uma vez as caravelas de lado, aprendi que há cada vez mais, no Brasil de hoje, um espaço muito interessante para a actividade dos agentes económicos portugueses.
Mas também aprendi que, no campo específico do comércio, não vale a pena sermos megalómanos nas nossas ambições, nem ficar iludidos pelo fenómeno do crescimento anual a dois dígitos das nossas trocas bilaterais.
Os números do nosso comércio são o que são, podem crescer imenso mas, por muito tempo, atendendo ao seu ponto de partida, serão um pouco mais que irrelevantes, no contexto geral do comércio externo dos nossos dois países.
Se não conseguirmos mudar o paradigma dos nossos produtos de exportação, as coisas podem continuar a evoluir, mas o seu ritmo nunca será significativo.
Além disso, permanece no Brasil uma ideosincrasia proteccionista que, ainda hoje, nos cria grandes dificuldades na área comercial e que só um acordo entre a União Europeia e o Mercosul permitiria ajudar a superar.
Pode parecer politicamente incorrecto estar a dizer isto, de forma tão frontal, mas a mim pagam-me para trabalhar com a verdade.
Já no que toca aos investimentos, as coisas têm outra dimensão.
Se alguns parâmetros essenciais se mantiverem no Brasil, nomeadamente nos equilíbrios macro-económicos a médio prazo – e creio que, no essencial, devem manter-se, se dependerem apenas da vontade interna brasileira -, o Brasil continuará a ser um mercado muito interessante para os investidores portugueses.
Alguns deles, porém, talvez tenham de aprender a trabalhar mais em articulação com outros parceiros, europeus ou doutras origens, para poderem ganhar uma escala competitiva, num mercado que tende a tornar-se mais exigente.
E estou a falar de empresas de maior dimensão: no caso das PME’s, o panorama não é exactamente o mesmo e haverá que ter uma atenção bastante maior, em especial em certos sectores.
É que há importantes diferenças entre o ambiente empresarial brasileiro e a cultura de inserção - normativa administrativa e de crédito - em que as empresas portuguesas dessa dimensão estão habituadas a actuar na Europa, ou mesmo em outros mercados, tidos como de recuperação rápida dos investimentos.
Esta é uma mensagem que pretendo de cautela, embora não deva ser lida como desmotivadora.
É neste trabalho com as PME’s que me parece da maior relevância o papel das Câmaras de Comércio portuguesas no Brasil, cuja articulação em rede tenho vindo a estimular, desde que cheguei ao país.
Temos actualmente 10 Câmaras de Comércio portuguesas no Brasil, uma das quais criada há poucos meses, e conto podermos anunciar a criação de uma outra, muito em breve.
Mas, no trabalho da nossa promoção no Brasil, em que muitos têm feito esforços louváveis e meritórios, temos de nos convencer a mudar radicalmente o perfil de algumas iniciativas.
Os eventos não podem, como muitas vezes acontece, continuar a ser meros “talking shops”, intermináveis seminários, colóquios, simpósios e quejandos, uma espécie de conversas quase só luso-portuguesas, com meia dúzia de “habitués” brasileiros, e que ficariam bem mais baratas se fossem feitas “off season” na Costa da Caparica.
Temos de habituar-nos a trabalhar melhor a montante desses eventos, despertar e assegurar o interesse dos potenciais contrapartes brasileiros e, só então, avançar com realizações de eventos concretos.
Organizar reuniões só para inventariar ou actualizar os números do passado e expressar intenções para o futuro, pode sossegar as almas, mas, há que reconhecer, acaba por transformar-se em momentos de clamorosa inutilidade.
E as pessoas têm cada vez menos tempo para ouvir sempre as mesmas coisas.
Uma última palavra – e prometo que com isto termino: é importante que saibamos ser muito mais agressivos na captação do investimento directo brasileiro.
Temos de saber explicar melhor aos nossos amigos brasileiros que uma qualquer empresa criada em Portugal passa a ser uma empresa europeia, com tudo o que isso significa de oportunidades num imenso mercado.
O Brasil, pela dimensão do seu próprio mercado interno e pela habituação de trabalho com a sua vizinhança próxima, tem uma experiência pouco diversificada, embora já bastante rica, em termos de investimento nos mercados externos.
Tenho a sensação de que a percepção dos responsáveis económicos brasileiros para as novas oportunidades, numa economia global onde o Brasil tende a estar cada vez mais presente, está a mudar muito rapidamente.
Acho que Portugal pode ajudar a reforçar esta percepção e sugerir-se como um óptimo terreno, com vantagens comparativas ímpares, para concretização de interesses dos nossos parceiros brasileiros.
Sinto que, também aqui, as coisas estão a mudar. »
Como já um dia disse, e contrariamente ao que cantava Chico Buarque, sinto que agora já não há “tanto mar” a nos separar.
Sem deixar de ser fiel à sua gente, Seixas da Costa pôs o dedo nalgumas feridas e afirmou princípios que deveriam ser melhor ouvidos.
Gostei especialmente desta tirada:
«Mas, no trabalho da nossa promoção no Brasil, em que muitos têm feito esforços louváveis e meritórios, temos de nos convencer a mudar radicalmente o perfil de algumas iniciativas.
Os eventos não podem, como muitas vezes acontece, continuar a ser meros “talking shops”, intermináveis seminários, colóquios, simpósios e quejandos, uma espécie de conversas quase só luso-portuguesas, com meia dúzia de “habitués” brasileiros, e que ficariam bem mais baratas se fossem feitas “off season” na Costa da Caparica.»
Os eventos não podem, como muitas vezes acontece, continuar a ser meros “talking shops”, intermináveis seminários, colóquios, simpósios e quejandos, uma espécie de conversas quase só luso-portuguesas, com meia dúzia de “habitués” brasileiros, e que ficariam bem mais baratas se fossem feitas “off season” na Costa da Caparica.»
Parabéns... E vamos ver se alguém o ouve...
segunda-feira, outubro 02, 2006
Gerir silêncios...
Às vezes é preferível gerir silêncios do que dizer o que temos atravessado na garganta. É o que tenho feito, nos últimos tempos, sobretudo para não melindrar amigos nem chocar pessoas com quem tenho excelentes relações.
Fiz 55 anos no dia 7 de Setembro e sinto, cada vez mais, uma grande necessidade de medir as palavras e de reduzir o sentido cáustico da escrita.
Talvez sejam sinais do meu tempo e dos tempos que vivemos.
Respondo com isto a várias mensagens que questionam o meu silêncio. Podem ter os meus amigos a certeza de que não me calei... Tenho, aliás, escrito sobre outras coisas. Veja-se, por exemplo A Falência da Justiça...
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