domingo, setembro 23, 2012
domingo, agosto 05, 2012
COMO INTERNACIONALIZAR AS EMPRESAS PORTUGUESAS EM TEMPO DE FALTA DE CRÉDITO E DE CAPITAL
Tem
sido inúmeros, nos últimos tempos, os apelos à emigração e à
internacionalização das empresas portuguesas, especialmente por via da
instalação de filiais ou de sociedades por elas controladas, no estrangeiro.
Ainda
num dia destes, numa entrevista a um jornal, o secretário de Estado das
Comunidades, José Cesário, incentivava os empresários portugueses a procurar
parceiros na diáspora, no mesmo sentido da mensagem do primeiro ministro.
Depois
de ter aconselhado os jovens a emigrar, o governo português diz o mesmo às
empresas, como se pretendesse que o país ficasse devoluto.
A diáspora portuguesa tem um enorme
potencial, mas não me parece que haja condições para que empresários falidos ou
em dificuldades encontrem parceiros no estrangeiro, aproveitando a afinidade de
ser português.
A maior parte dos pequenos e médios empresários portugueses que
procura soluções no estrangeiro integra a fileira da construção civil, que é
aquela que sofreu o mais rude golpe com a crise.
A sua maior dificuldade reside no
facto de não disporem de capital e de, quase sistematicamente, terem as fichas
de crédito sujas pelos bancos que agora lhes recusam apoio financeiro e por
bases de dados, onde não é possivel discernir se as pretensões dos credores são
razoáveis ou não.
É hoje possivel, em qualquer país do
mundo, ter um recorte imediato das informações relativas a um empresário ou a
uma empresa, ocorrendo, com frequência, que a informação negativa se mantém,
mesmo depois de regularizadas as dividas.
Os empresários portugueses que têm
sucesso no estrangeiro manifestam, por regra, uma grande abertura à ideia de
ajudar outros portugueses, que com eles se queiram associar, em projetos que se
afigurem viáveis. Mas, também por regra,
não estão dispostos a aventurar relações com quem não tenha capital e,
sobretudo, com quem tenha o nome sujo.
Empresas de qualquer dimensão, que
tenham negócios próprios, sustentáveis e viáveis, à luz das regras dos mercados
para onde tenham a intenção de migrar, só terão sucesso se prepararem muito
cuidadosamente os seus projetos e se dispuserem de recursos suficientes para o
seu desenvolvimento.
A imagem de Portugal no exterior –
especialmente nos paises de lingua portuguesa – é muito negativa, como se o
país estivesse já a morrer de fome e se dele saissem hordas de emigrantes, que
já justificam cuidados especiais nas fronteiras.
No Brasil, por exemplo, já há,
nalguns aeroportos, restrições à entrada de portugueses, desde que eles não
informem do hotel em que se vão alojar e dos recursos de que dispõem para
passar algum tempo no país.
Embora fosse justo que os
brasileiros agissem assim, porque ainda hoje é são assim tratados os
brasileiros que chegam aos aeroportos portugueses, é minha convicção que as
autoridades só atuam deste modo para evitar que os miseráveis portugueses se
juntem aos que existem no próprio país e que inundam de sem abrigo as ruas das
grandes cidades.
É absolutamente compreensível e
justificável que as autoridades do Brasil sejam cautelosas, até porque não é
verdadeira a imagem que se tem do Brasil em Portugal.
Não há lugar para todos nem há
oportunidades para todos. Sobretudo, não há qualquer oportunidade para quem
queira investir sem ter dinheiro suficiente para alavancar o seu projeto.
Para além disso, o investimento no
Brasil é dificultado por processos
burocráticos complexos, que não admitem pressas nem atropelos e que têm
custos enormes para quem não tem condições próprias de instalação.
Os quadros não são diferentes em
Angola ou Moçambique.
Tudo isto é do conhecimento das
autoridades portuguesas que, todavia, insistem na conveniência de processos de
internacionalização por via do investimento português no estrangeiro.
Ora, na atual conjuntura há
excelentes condições para a internacionalização das nossas empresas por via de
fusões e aquisições das empresas portuguesas com/por empresas estrangeiras. E o
governo português age como quem quer ocultar esta realidade, talvez com a intenção
de destruir completamente a economia portuguesa, deixando o lugar livre para as
empresas estrangeiras representadas pelos seus apaniguados.
Em Portugal, há milhares de empresas,
em todas as áreas, que são viáveis, desde que saneadas financeiramente. Muitas
delas têm equipamentos novos ou quase novos, que serão reduzidos a sucata, se
os respetivos parques forem desmantelados. Com isso agravar-se-ão os prejuizos
do setor financeiro, que já começaram a ser suportados pelos contribuintes, por
valores astronómicos (cerca de 9.000 milhões só no que se refere ao BPN).
Para além de o desmantelamento de
uma empresa ter custos enormes, há muitos paises que não aceitam a importação
de bens de equipamentos usados, pelo que o mais interessante é revitalizar as
empresas no local em que se encontram instaladas.
Parece-me evidente que, ao invés de
incentivar os empresários portugueses, quase todos à beira da falência, a
emigrar levando uma mão à frente e outra
atrás, deveriam o governo e as agência governamentais promover a participação
de empresas estrangeiras na recuperação de empresas portuguesas que se
encontram descapitalizadas.
É certo que os salários em Portugal
são ainda ligeiramente superiores aos de países como a China ou o Brasil, mas,
após a últimas alterações ao Código do Trabalho, os niveis do garantismo
laboral passaram a situar-se abaixo dos do tempo da ditadura, aproximando-se, a
passos largos da desproteção que vigora no Oriente.
As empresas portuguesas são
especialmente interessantes para as brasileiras.
Queiramos ou não, a lingua assume
neste quadro um papel de grande relevo,
pois que é o mais importante instrumento de trabalho nas fábricas.
De outro lado, Portugal é – se não
acabarem com ele – um país moderno, com uma qualidade de ensino público muito
acima da do sistema brasileiro e com um sistema de saúde que, sendo tão bom
como os serviços privados brasileiros, é gratuito.
O Brasil é um mercado com quase 200
milhões de habitantes, mas Portugal é a porta de entrada de um mercado com
perto de 500 milhões, o da União Europeia.
Um apartamento em Lisboa custa uma
renda de menos de metade de um apartamento em São Paulo e os valores dos
condomínios são baixissimos, comparados com os dos Brasil.
As
escolas portuguesas de engenharia e de arquitetura correm o risco de
fechar porque a construção civil parou, não se sabe por quanto tempo.
Como já escrevemos aqui, um
brasileiro que mande um filho estudar em Portugal ganha um apartamento de
brinde se o comprar com a diferença do valor das prestações devidas à escola.
Todas estas razões justificavam que
o governo invertesse a lógica da internacionalização e chamasse a atenção para
estes atrativos em vez de, irresponsavelmente, mandar emigrar os empresários a
quem o esgotamento do crédito bancário e a recessão conduziram à falência.
Fortaleza,
5 de agosto de 2012
terça-feira, julho 31, 2012
Acerca no "Portugal Moderno" no ano de Portugal no Brasil
O Brasil é um país fantástico, que tem funcionado, no
imaginário português, como uma espécie de “seguro de vida” para Portugal.
O relacionamento entre Portugal e o Brasil – pesem embora
alguns momentos de glória nos últimos tempos – sempre foi marcado pela
imbecilidade portuguesa, desde que daqui saíu D. Pedro I, o IV dos portugueses.
Contam-se anedotas tão fantásticas quão carinhosas dos
portugueses que lhe dão precisamente esse tónus – o da imbecilidade – sem que
isso se possa haver como insultuoso ou ofensivo.
A sorte da maior parte dos políticos portugueses está no
facto de os correspondentes de imprensa não reproduzirem na imprensa de
Portugal o que eles afirmam no Brasil e
de a imprensa portuguesa local ser marcada por uma elegância e um respeito que
não permite tomar nota (nem sequer conhecer) as contradições.
Os portugueses e luso-descendentes até à 3ª geração deverão
ser uns 21 milhões no Brasil, com uma diferença de entre 700 mil e 1 milhão a menos, por parte dos italianos.
Estes - os italianos
– dizem que são 31 milhões no Brasil e 15 milhões na Argentina.
As autoridades de
Portugal fazem variar o número entre 500 mil e 700, como se tivessem vergonha
da imensa comunidade portuguesa neste grande país.
Diz a Embaixada de Portugal em Brasília:
«Apresentando um total de 213.203 indivíduos, incluindo
os bi-nacionais, no censo demográfico brasileiro de 2000 (amostra), e calculada
entre 500.000 e 700.000 pelos Serviços do Ministério dos Negócios Estrangeiros
português, em coerência, aliás, com o total das inscrições consulares
registadas, o que importa reter, para além da sua expressão numérica, é que
esta é uma das comunidades portuguesas mais relevantes.»
Fábio Porta deputado brasileiro ao parlamento italiano,
escreve o seguinte, a propósito da comunidade italiana:
«Não temos petróleo, energia atômica, dimensões enormes
como têm China, Rússia, Índia. Temos esse patrimônio que ninguém tem: 31
milhões de italianos no Brasil, 15 milhões na Argentina. E essa riqueza
está um tanto adormecida por falta de atenção e entendimento político do
potencial destes “países” que vivem fora da Itália. »
Ora, entre 1881 e 2010 emigraram para o Brasil 1.514.057
portugueses e 1.507.695 italianos. Mesmo sem contar os portugueses que vieram
para o Brasil desde a descoberta até 1881, as projeções das familias tipo e do
número de emigrantes apontam para que a comunidade portuguesa, considerada como
a dos portugueses e luso-descendentes até à 3ª geração (netos), será maior que
a italiana e se fixará em torno daqueles números.
Quando falo disto parece que estou a fazer um sacrilégio,
apesar de ser consensual que os italianos não são os tais 31 milhões de que
fala Fábio Porta.
Os portugueses apoucam-se e deixam que os seus governantes
os apouquem e continuem com essa afirmação de que são 5 milhões fora de
Portugal, Brasil incluído, afirmação que tem mais de 20 anos e que é uma confabulação
sem nenhum fundamento sério.
Tanto o Brasil como Portugal aceitam a dupla nacionalidade
e desconsideram a nacionalidade estrangeira dos que também são seus nacionais,
quando residentes nos respetivos territórios, não contando esses “estrangeiros”
como tal, porque são nacionais.
É, porém, lastimável que o que é apenas uma verdade
estatística tenha servido para satisfazer a tradicional preguiça das
chancelarias, desvalorizando-se os brasileiros que, no Brasil, são também
portugueses e os portugueses que, em Portugal, são também brasileiros.
Com essa falta de visão – que é luso-brasileira – se anulam
boa parte dos efeitos mais salutares do regime da plurinacionalidade.
De setembro de 2012
a junho de 2013 vamos viver o ano de Portugal no Brasil e do Brasil em
Portugal.
A propaganda oficial
de Portugal tem sido marcada pela crise financeira e pela afirmação da intenção
de aumentar os investimentos portugueses no Brasil, como se o país estivesse em
condições de fomentar investimentos fora das suas fronteiras.
Os políticos portugueses, que vêm ao Brasil e se instalam,
como nababos em hotéis com preços proibitivos, frequentando restaurantes cujos
preços não encontram comparação em Lisboa, só dão estes conselhos porque não pagam
as contas.
Os preços no Brasil atingiram níveis proibitivos para as
pequenas empresas de qualquer dos paises da União Europeia, a não ser que elas
disponham (o que é raro) de avultados stocks
de capital e estejam vocacionadas para o proteger num país muito atrativo
em termos financeiros. Porém, se tiverem de recorrer ao crédito, precisam, para
além de histórico, de pagar taxas que são elevadíssimas.
Os últimos números relativos ao investimento estrangeiro
dão conta de que, no primeiro semestre, Portugal, um país em que o crédito
secou, investiu mais de 300 milhões de euros no Brasil, enquanto o Brasil, que
está a nadar em dinheiro, investiu apenas 60 milhões de euros em Portugal.
Poderemos estar a assistir ao uso de Portugal como veiculo
para o investimento no Brasil por parte de outros países, nomeadamente da
China, que, como é sabido, tem um acordo cambial com o Brasil, transacionando
em real e yuan, desde 2009. Aliás, em julho de 2012, já há 91 paises (contra 65
de há um ano) a processar as transações com a China em yuan.
O Brasil está sobre-aquecido, em consequência da crise
internacional e do facto de ter sido transformado numa placa giratória de
negócios financeiros com os Estados Unidos e com a China, como que se tivesse
assumido a função de substituir os asiáticos no negócio da dívida americana, perspetivando-se
que substitua os chineses na posição de maior credor, a breve prazo.
Entre 2008 e o fim do primeiro trimestre de 2012 o
investimento chinês na Europa cresceu sete vezes, atingindo valores
astronómicos. No Brasil, cresceu de forma exponencial desde 2010,
inviabilizando uma boa parte da indústria brasileira e contribuindo para que o
Brasil assuma, cada vez mais, uma estrutura de tipo colonial, exportadora de
matérias primas e com a industria, sobretudo a que existe com vocação
exportadora, condenada à falência.
Tanto no Brasil como na Europa e nos Estados Unidos há cada
vez mais indícios da existência de um
conluio dos governos, do sistema financeiro e dos dirigentes do Partido
Comunista da China, no sentido de substituir os pagamentos dos produtos
importados da R.P.C. por títulos de dívida. Ou seja: os chineses são tão amigos
dos ocidentais que lhes fornecem tudo – desde os equipamentos mais sofisticados
até às cuecas de griffe – sem nada
receber, ou melhor, recebendo títulos de divida.
Depois de se ter transformado no maior credor dos Estados
Unidos – o que serve para provar que a aversão dos americanos ao comunismo é
uma estrondosa mentira - a República
Popular da China, que é o único país comunista vitorioso, prepara-se para se
transformar no principal credor dos países da União Europeia e do Brasil, após
ter assumido posições especialmente relevantes em Angola e Moçambique.
Como pode ler-se num texto da Embaixada da
China em Brasília, “para as empresas chinesas, o mercado brasileiro parece
um bolo gostoso, que, no entanto, não é fácil de saborear.”
Eles têm o problema da língua; mas esse será, ao menos em
parte, resolvido com a ajuda de
Portugal, envolvendo entidades e recursos públicos. Ninguém nos ajuda a
aprender mandarim, mas o nosso país, que está falido, como ainda recentemente
reconheceu a ministra da Justiça, esbanja recursos a ensinar aos chineses o que
não ensina aos próprios portugueses.
Os chineses já anunciaram a sua intenção de entrar no
negócio da construição civil no Brasil, começando por instalar as próprias
fabricas de equipamentos. Antes de entrar, a sério, no mercado preparam o
terreno, com recurso
a órgãos de comunicação prestigiados.
É com este pano de fundo que ouvimos os apelos às pequenas
e médias empresas portuguesas para que invistam no Brasil.
Os tempos não são propícios para uma boa parte dos
investimentos, sobretudo na indústria e, especialmente, na indústria da
construção civil.
Em primeiro lugar, porque o mercado imobiliário está
sobreaquecido e não é seguro que não
assistamos, a muito curto prazo, a uma crise semelhante à que se vive
atualmente no sul da Europa.
Em segundo lugar, porque a flecha do aumento do custo de
vida disparou de forma vertiginosa, começando a ameaçar o equilibrio social,
por via da inacessibilidade de muitos cidadãos da classes mais humildes a bens
essenciais, como o arroz ou o feijão, o que se vem traduzindo num
recrudescimento da violência.
Em terceiro lugar, porque o custo do dinheiro (e da dívida
pública, que este ano se deve fixar em cerca de 2 triliões de reais) é
brutalmente mais alto do que nos Estados Unidos ou na Europa. As taxas
de juros mensais nos financiamentos dos particulares e da empresas são
desproporcionadamente altas, por comparação com o que as nossas empresas estão
habituadas a pagar.
Em quarto lugar,
porque o Brasil é um país muito burocratizado, muito dificil e com um
sistema jurídico muito diferente do que temos em Portugal.
Todos os dias vemos anúncios de vendedores de ilusões,
aliciando empresários portugueses para projetos de investimento que não têm,
quase por regra, a mínima viabilidade.
As ofertas são, geralmente, de coisas rápidas, como se os
trouxessem a um feira de pechinchas, de pegar ou largar.
Do mal o menos quando o desastre pára na conta dos
consultores, não se perdendo tudo, porque o Brasil é um país que vale a pena
ser visitado.
Há hoje um número elevado de empresas portuguesas, em
estado de insolvência, porque se tentaram salvar no Brasil, envolvendo, de
forma imprudente, os recursos de que dispunham.
Essas agonizam em Portugal, enquanto os seus filhos, salvas
algumas honrosas exceções, ou morreram nas praias brasileiras ou abortaram mesmo antes da
nascença.
Claro que nem tudo é mau; e que há grandes oportunidades de
negócios, acessíveis a empresas portuguesas, no Brasil, sobretudo em áreas em
que elas possam ser inovadoras ou apresentar padrões de qualidade dificilmente
atingíveis por outros operadores no mercado.
Os pequenos negócios – ou os grandes negócios expansíveis
de forma modular – são os que se nos afiguram com menos risco, pois que podem
ser financiados com poucos recursos e, como soe dizer-se, “com o pelo do cão”.
Restaurantes com sabor português, tasquinhas, pastelarias
de qualidade podem ser boas saidas para quem tenha algum dinheiro, necessário
talento e vontade de mudar para uma terra tão acolhedora como dificil. Qualquer
refeição que em Portugal não custaria mais de 10 €, custa em São Paulo ou no
Rio um mínimo de 70 reais (cerca de 25 €). Um café, que não tem comparação com
o que estamos habituados a beber em Portugal, custa 5 reais (mais de 2 €) e um
pastel de nata, geralmente de qualidade duvidosa, pode custar 8 reais (3,20 €).
A área das novas tecnologias já foi chão que deu uvas,
porque os informáticos são já muito mais caros no Brasil que em Portugal. O
Brasil é um bom destino para os informáticos desempregados, nomeadamente
porque, após as mais recentes reformas da legislação laboral portuguesa,
oferece níveis de proteção no emprego muito mais fortes que as portuguesas.
Mas, tanto nesta área como noutras, o que é interessante é,
justamente, o movimento inverso.
Os tempos são especialmente propícios ao investimento das
empresas brasileiras em Portugal, porque as retribuições das profissões
técnicas especialmente qualificadas são, atualmente, mais baixas do que no
Brasil, as facilidades de despedimento foram alargadas e as empresas ainda
podem beneficiar de apoios e incentivos fiscais se criarem novos empregos.
Enquanto a constituição de uma empresa no Brasil demora
pelo menos 6 meses e não pode funcionar sem um administrador brasileiro ou com
visto válido de residência, em Portugal constitui-se uma sociedade, em termos
de poder começar a funcionar imediatamente, em menos de 24 horas e ela pode ser
administrada por um estrangeiro, mesmo que não residente.
O custo de vida em Lisboa, que é a cidade portuguesa mais
cara, é, atualmente, de menos de metade do de São Paulo, a saúde e o ensino
público são gratuitos, o que reduz, de forma sensível os custos de contexto
associados ao emprego, especialmente dos jovens, tomando em consideração que um
plano de saúde não custa menos de 600 reais (241,00 € mensais) e um infantário
não custa menos de 750 reais (301,00 €). A mensalidade de um curso
universitário numa universidade pública pode custar no Brasil até 3.800 reais (1.530
€) custando em Portugal cerca de 80 €.
Depois de o primeiro ministro Passos Coelho ter aconselhado
os jovens – em que o Estado investiu milhões, com a educação – a emigrar, como se
quisesse transformar o velho País num país de velhos, veio a máquina do Estado
lançar uma campanha para que sejam as próprias empresas a sair de Portugal e a
ir para o Brasil.
Numa recente entrevista
a uma estação de televisão, o comissário do ano, Horta e Costa, iludiu a realidade, afirmando que o dinheiro
aparece, quando a experiência nos tem ensinado que desaparece.
Em setembro e outubro vão realizar-se vários “encontros de
negócios”, no Brasil, para os quais o comissário apelou à deslocação de
empresários portugueses.
A onda do ano de Portugal no Brasil é uma onda muito
parecida com a que marcou a história da fotografia no tempo de José Estaline. O
que parece pretender-se, antes de tudo, é repintar a imagem de Portugal no
Brasil, como este Portugal do ano –
espécie de Beaujaulais Village - fosse um outro que nada tem a ver com os mais
de 20 milhões de emigrantes portugueses e seus descendentes, que representam
mais de 10% da população brasileira.
Em tempos, referindo ao Portugal
moderno, que é esse Portugal falido de que falaram a ministra da Justiça e,
agora, o comissário do governo, houve um agente cultural do Ministério dos
Negócios Estrangeiros que afirmou, em Brasília, que Portugal já não é um país
de padeiros.
Os padeiros portugueses – gente honrada – que faz parte
dessa imagem que se pretende apagar com a imposição Portugal moderno, são, na
sua grande maioria multimilionários, gente que construiu fortunas com suor e
honradez.
São impérios familiares, espalhados por todo o Brasil, em
homenagem ao trabalho, à solidariedade e ao talento empresarial.
Os primeiros sinais dos anúncios do ano de Portugal no Brasil
ofendem essa gente fina, que cresceu por si própria, sem mensalões, como se os quisessem apagar da História.
Muitos deles chegaram ao Brasil, com a roupa numa sacola,
em tempos de falência como os de hoje. Singraram porque se entreajudaram na
compreensão desta fantástica realidade que é o Brasil, em vez de tentarem
entradas perdulárias, como as que conduziram à falência dos pipis de chapéu de
palhinha, empresários de outros tempos, que também vieram ao Brasil, em viagens
de negócios e nos deixaram fabulosos retratos a la minute.
Todos conhecemos as histórias dos brasileiros de água doce,
que aqui delapadiram o resto das suas fortunas, a última vez após o fim da II
Guerra Mundial, quase todos industriais, de terno branco e chapéu da mesma cor,
com um bigode retorcido.
Vieram à procura da árvore das patacas e tiverem que pedir
dinheiro emprestado para regressar.
É importante evitar que isso aconteça de novo e volte a
alimentar o fabuloso anedotário brasileiro.
O ano de Portugal no Brasil nunca o será se quiser passar à
margem (isto é: marginalizar) os mais de 20 milhões de emigrantes portugueses
(de origem até à terceira geração) que o Brasil incorporou como seus filhos,
mas que continuam portugueses como os que aqui chegaram.
São esses sim: os padeiros, os comendadores, todos aqueles
que aparecem nas fotografias dos jornais da comunidade e que os políticos
(geralmente pindéricos ou incultos) tratam como saloios, apesar de eles serem
não a imagem do sucesso mas o próprio sucesso. Gente de respeito, que construiu
tudo com trabalho e que, por isso, se dói, quando sente que a querem apagar dos
retratos.
Poderiam ser esses Senhores (com S maiúsculo) os Mestres da
arte de investir no Brasil e ter sucesso. São muito mais antigos e muito mais
importantes do que todas as PT’s e todos os Hortas, que não conseguiram sequer
manter-se no mercado e deixaram uma péssima memória a todos os consumidores.
Mas não: em vez de os congregar, o Estado afasta-os e
ofende-os, com a propaganda do Portugal
moderno, desenhada em termos que lhes não pertencem.
Lastimável é que, apesar da multiplicação dos naufrágios em
tempos recentes, num momento em que Portugal precisa, mais do que nunca, de
sucesso, que não se alcança sem lucidez e realismo, a máquina da propaganda e
da vaidade prepara-se para, da forma mais irresponsável, para contribuir para o
agravamento dos desastres.
Há uns anos era frequente
ver empresários do Norte de Portugal, que não pagavam salários, gastar
fortunas num conhecido puteiro de Lisboa, chamado Elefante Branco.
Hoje, quando entram em insolvência, viajam para o Brasil,
normalmente em classe executiva, aconselhados por firmas de consultores que
voltam a vender o sonho da árvore das patacas, a troco de umas visitas aqui e
ali e do alojamento coletivo, por conta dos otários, em hoteis de primeira
linha.
O Brasil oferece excelentes oportunidades mas não é o
caixote do lixo de Portugal. Mais dramático é que haja quem tente transformar
este maravilhoso país numa espécie de cemitério de empresas portuguesas.
Era bom que houvesse bom senso e que isso se evitasse.
Miguel Reis
São Paulo, 31/7/2012
sábado, julho 21, 2012
Que nojo...
Caiu-me isto no Facebook, pela mão do Rodrigo Sousa e Castro:
Folha salarial (da responsabilidade da Câmara Municipal) dos administradores e de outros figurões, da Fundação Cidade de Guimarães, criada para a Capital da Cultura 2012:
- Jorge Sampaio - Presidente do Conselho de Administração:
14.300 € (2 860 contos) mensais + Carro + Telemóvel + 500 € por reunião
- Carla Morais - Administradora Executiva
12.500 € (2 500 contos) mensais + Carro + Telemóvel + 300 € por reunião
- João B. Serra - Administrador Executivo
12.500 € mensais + Carro + Telemóvel + 300 € por reunião
- Manuel Alves Monteiro - Vogal Executivo
2.000 € mensais + 300 € por reunião
Todos os 15 componentes do Conselho Geral, de entre os quais se destacam Jorge Sampaio, Adriano Moreira, Diogo Freitas do Amaral e Eduardo Lourenço, recebem 300 € por reunião, à excepção do Presidente (Jorge Sampaio) que recebe 500 €.
Em resumo: 1,3 milhões de Euros por ano (dinheiro injectado pelo Estado Português) em salários.
Como a Fundação vai manter-se em funções até finais de 2015, as despesas com pessoal deverão ser de quase 8 milhões de Euros!!!
Reparem bem: Administradores ganhando mais do que o PR e o PM!
Esta obscenidade acontece numa região, como a do Vale do Ave, onde o desemprego é enorme.
O Dr Jorge Sampaio e outros com a idade dele, não estariam melhor a jogar golfe ou sentados a ver as imagens da selva no National Geografic?
E o Governo a pagar €300,00 mensais a enfermeiros contratados por 7 horas diárias para os Centros de Saúde!..."
Esta gente é um nojo... Que vergonha.
"...
Folha salarial da Fundação Cidade de GuimarãesFolha salarial (da responsabilidade da Câmara Municipal) dos administradores e de outros figurões, da Fundação Cidade de Guimarães, criada para a Capital da Cultura 2012:
- Jorge Sampaio - Presidente do Conselho de Administração:
14.300 € (2 860 contos) mensais + Carro + Telemóvel + 500 € por reunião
- Carla Morais - Administradora Executiva
12.500 € (2 500 contos) mensais + Carro + Telemóvel + 300 € por reunião
- João B. Serra - Administrador Executivo
12.500 € mensais + Carro + Telemóvel + 300 € por reunião
- Manuel Alves Monteiro - Vogal Executivo
2.000 € mensais + 300 € por reunião
Todos os 15 componentes do Conselho Geral, de entre os quais se destacam Jorge Sampaio, Adriano Moreira, Diogo Freitas do Amaral e Eduardo Lourenço, recebem 300 € por reunião, à excepção do Presidente (Jorge Sampaio) que recebe 500 €.
Em resumo: 1,3 milhões de Euros por ano (dinheiro injectado pelo Estado Português) em salários.
Como a Fundação vai manter-se em funções até finais de 2015, as despesas com pessoal deverão ser de quase 8 milhões de Euros!!!
Reparem bem: Administradores ganhando mais do que o PR e o PM!
Esta obscenidade acontece numa região, como a do Vale do Ave, onde o desemprego é enorme.
O Dr Jorge Sampaio e outros com a idade dele, não estariam melhor a jogar golfe ou sentados a ver as imagens da selva no National Geografic?
E o Governo a pagar €300,00 mensais a enfermeiros contratados por 7 horas diárias para os Centros de Saúde!..."
Esta gente é um nojo... Que vergonha.
quinta-feira, julho 19, 2012
sábado, junho 30, 2012
Portugueses, estrangeiros e luso-descendentes II
II
Viriato foi, como é sabido, o mais importante chefe tribal
dos lusitanos, a tribo de que deriva a expressão de luso-descendentes.
As primeiras referências a Viriato aparecem em escritos de
Diodoro da Sicília (90 a.c – 30 a.c) que o identifica como o lider das tribos
lusitanas, que habitavam a Península Ibérica do lado do Atlântico.
Tito Lívio (59 a.c. – 17) descreve-o como sendo um pastor
que se transformou em guerreiro e acabou por ser reconhecido pelos romanos como
o dux lusitanorum, uma espécie de rei
de uma uma tribo a que chamaram de lusitanos.
Em 147 a.c. o cacique lusitano opôs-se à rendição perante
Caio Vetílio, que matou, anos mais tarde no desfiladeiro de Ronda, junto ao
Guadalquivir.
Somou sucessivas vitórias contra Caio Pláucio, Cláudio Unimano e Fábio Máximo, irmão de
Cipião, o Africano.
Só numa batalha, em 140 a.c., o cônsul romano Fábio Máximo
perdeu mais de 3.000 soldados, perante as tropas lusas.
Perante a humilhação a que foi sujeita pela tribo
lusitana, Roma enviou novos
contingentes, liderados por Servilio Cipião e Popílio Lenas, que acabaram por
ser também derrotados pelos lusitanos.
Cipião contratou três comissários, que gozavam da confiança
de Viriato – Audas, Ditalco e Minuros – que se incumbiram de o matar enquanto
dormia. E só depois disto é que Decius Junius Brutus conseguiu atravessar o
Douro, tomar a Galiza e todo o território que era ocupado pelos lusitanos.
Sertório foi escolhido para substituir Viriato, mas acabou
por sucumbir nas mãos dos romanos, acabando com ele a Lusitânia, os lusitanos e
os luso-descendentes.
Essa tribo – a Lusitânia – que Estrabão qualificou como “a
mais poderosa das nações da Peninsula Ibérica, a que, entre todas, por mais
tempo deteve as armas romanas”, acabou em 139 a.c..
E quando Audas, Ditalco e Minuros se apresentaram em Roma
para receber o preço do assassínio receberam essa resposta que atravessou a
memória dos povos até hoje: Roma não paga
a traidores.
Portugal nasceria apenas em 1143, ou seja 1283 anos depois.
E Portugal, que é um dos países mais velhos da Europa tem
apenas 869 anos, ou seja menos 414 anos do que o tempo que mediou entre o fim
da Lusitânia e a fundação da nacionalidade.
Viriato e a Lusitânia acabaram há 2151 anos.
Portugueses, estrangeiros e luso-descendentes I
I
De
um ponto de vista jurídico, a Constituição da República Portuguesa distingue os
cidadãos portugueses dos estrangeiros, sem fazer qualquer menção
a essa nova espécie, que os políticos apelidaram e luso-descendentes, na base de uma construção racial, muito
semelhante à do arianismo nazi ou do racismo assumido (maxime por via do Dia da Raça) pelo fascismo português.
Dispõe a constituição portuguesa de
1976 que “são cidadãos portugueses todos aqueles que como tal sejam
considerados pela lei ou por convenção internacional” (artº 4º).
“Os cidadãos portugueses que se
encontrem ou residam no estrangeiro gozam da protecção do Estado para o
exercício dos direitos e estão sujeitos aos deveres que não sejam incompatíveis
com a ausência do país” (artº 14º).
“Os estrangeiros
e os apátridas que se encontrem ou residam em Portugal gozam dos direitos e
estão sujeitos aos deveres do cidadão português”, com exceção dos direitos
políticos, do exercício das funções públicas que não tenham carácter
predominantemente técnico e dos direitos e deveres reservados pela Constituição
e pela lei exclusivamente aos cidadãos portugueses.
A expressão luso-descendente não existe, uma vez que seja, na Constituição da República Portuguesa.
A expressão luso-descendente não existe, uma vez que seja, na Constituição da República Portuguesa.
A Declaração Universal dos Direitos do Homem estabelece, no
seu artº 15º, que todo
o indivíduo tem direito a ter uma nacionalidade.
O artº 2º da Convenção Europeia sobre a Nacionalidade define nacionalidade estabelecendo que o conceito “designa o vínculo jurídico entre um
indivíduo e um Estado, não indicando, contudo, a origem étnica desse
indivíduo.”
A Lei n.º 66-A/2007, de 11 de
dezembro, que define as competências,
modo de organização e funcionamento do Conselho das Comunidades Portuguesas, é
inequivoca no sentido de que só são eleitores e elegíveis para essa conselho os
nacionais portugueses, matriculados como tal nos consulados de Portugal.
São muito reduzidas as referências aos
luso-descendentes na nossa literatura normativa, surgindo algumas referências
na sucessivas Opções do Plano, para o identificar com os estrangeiros que têm
portugueses como ascendentes.
O Regulamento Consular de 1997 faz-lhes
uma concreta referência ao estabelecer que constitui atribuição dos consulados
“a incentivação à participação dos luso-descendentes na cultura portuguesa.”
Apesar de, os reconhecer, expressa e
implicitamente como estrangeiros, Portugal parece manter, relativamente aos
luso-descendentes uma vocação colonial, não escondendo a sua pretensão de que
participem na cultura portuguesa, para o que devem ser incentivados pelos
funcionários consulares.
Os luso-descendentes são,
inequivocamente, tratados como não portugueses (ou seja estrangeiros). Todavia,
embora, aparentemente, sejam alvo de uma
discriminação positiva, eles acabam por ser tratados como estrangeiros de
segunda, que se pretendem vulneráveis a uma espécie de colonização cultural à
outrance.
Devem, por isso, proceder os consulados
à referida “incentivação”, nomeadamente porque (embora sejam estrangeiros) podem
eles ser usados pelos interesses portugueses como instrumentos do lobbying económico.
Esta contrução envolve uma conceção
retrógrada da nacionalidade, das qualidades do status de nacional et pour
cause também do estatuto de estrangeiro.
A nacionalidade
é “o vínculo jurídico entre um
indivíduo e um Estado, não indicando, contudo, a origem étnica desse
indivíduo”, como se encontra definido na já citada Convenção Europeia sobre a
Nacionalidade, de que Portugal é parte.
Importa questionar, desde logo, até que
ponto é admissível a invocação da origem ética, em termos tão disctiminatórios
como ela se perfila no conceito de luso-descente,
que é um conceito assente na origem étnica, como é o de ariano no cenário do nazismo, sem prejuizo de o mesmo não nos surgir
como ligado à nacionalidade, mas, ao contrário, à omissão da nacionalidade
portuguesa ou – mais grave do que isso – à descaraterização da nacionalidade
estrangeira.
O conceito de luso-descendente não tem
nenhum utilidade para os portugueses nascidos
no estrangeiro, sejam eles nacionais originários (porque filhos de
portugueses de origem), tenham adquirido a nacionalidade de forma derivada, por efeito da vontade (por
serem filhos menores de quem adquiriu a nacionalidade portuguesa, por casamento
ou por adoção) ou por naturalização.
Esses são tão portugueses como os
nascidos e residentes em Portugal.
Tal conceito só tem utilidade para a
descaraterização da qualidade de estrangeiros dos que, sendo estrangeiros mas
descendentes de portugueses, não querem ser portugueses mas pretendem, de forma
oportunística, beneficiar de um estatuto que deriva, exclusivamente, da sua
origem étnica.
É claro e inequivoco que todo o
indivíduo tem direito a ter uma nacionalidade, como proclama a Declaração
Universal dos Direitos do Homem, no seu artº 15º.
Até pode ter mais do que uma nacionalidade, se isso for
admitido pelas leis dos Estados de que é nacional.
O que se nos afigura inaceitável é que um Estado mine a
confiança que os outros Estados têm nos seus nacionais, sem consideração da
respetiva origem étnica, por via de uma descaraterização de base base racial,
como é essa em que assenta o conceito de luso-descendente.
Lembra-nos tudo isto um velho ditado, de origem lusitana,
que diz que Roma não paga a traidores... É,
provavelvente, a primeira história de luso-descendentes.
domingo, junho 24, 2012
Saudade do subsidio
Saudade do subsidio
Este governo está a conduzir Portugal para limiares inferiores aos que foram garantidos no tempo da ditadura.
O desrespeito pelas pessoas, especialmente pelos trabalhadores por conta de outrém e pelos idosos nucna foi tão grande, desde os tempos do Dr. Salazar.
sábado, junho 09, 2012
A comemoração do 10 de junho de 2012
CAMÕES, DEMAGOGIA E XENOFOBIA
Miguel Reis
«... Que eu
canto o peito ilustre lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram».
A quem Neptuno e Marte obedeceram».
Lusíadas, Canto I
É conhecida a controvérsia sobre a questão da data da fundação de Portugal.
Alguns historiadores dizem que foi fundado em 1139, por declaração unilateral
de D. Afonso Henriques. Outros sustentam que o país nasceu, por obra do papa
Alexandre III, com a bula Manifestis
Probatum, em 1179. A mim e a muitos outros portugueses, ensinaram que
Portugal nasceu em 1143.[1]
Uma diferença de 40
anos não tem uma grande importância para um Estado que tem no mínimo 833 anos e
no máximo 873.
Importante é que não
consta que Portugal tenha vivido, durante algum período da sua longa história, uma
crise de identidade tão grande como aquela que vive atualmente.
Continuando, embora, a
homenagear o poeta que, ainda que em mera réstea, é o mais importante memorial
de um povo que existiu e sempre se renovou, este Portugal, agora travesti
europeu, parece querer matar esse povo ou, pelo menos, fazê-lo desaparecer da
História, como se vivêssemos uma fantástica réplica da arte fotográfica
estalinista.
Passaram apenas 37
anos sobre a descolonização das principais colónias portuguesas (1975) e 50
anos sobre o conturbado início desse processo, com a ocupação dos territórios
do Estado da Índia pelas forças da União Indiana (1961).
Foi de 463 anos o
intervalo entre a chegada de Vasco da Gama a Calecute e a expulsão do
representante do governo de Oliveira Salazar, no Estado da Índia. Mais de metade da idade de Portugal foi
passada na Índia; no Brasil, a estadia não foi superior a 322 anos.
É certo que a presença
portuguesa em Angola, Moçambique, Guiné e Cabo Verde chegou aos 475 anos,
período que foi mesmo ultrapassado em Macau e em Timor. Mas em nenhum desses
territórios ela foi tão vincada como na Índia e no Brasil.
Nunca foi a Europa um
espaço de liberdade para os portugueses. A Europa significou sempre guerra,
desde o tempo de D. Afonso Henriques, que guerreou a sua própria mãe e o amante
Fernão Peres da Trava (1130) até à Guerra das Laranjas (1801) que nos tomou o
termo de Olivença e abriu as portas às invasões napoleónicas.
A nossa liberdade,
encontramo-la sempre por via da fronteira marítima, galgando oceanos e construindo
um império de cumplicidades com civilizações das mais dispares, império esse
que foi abalado na Europa, com a formatação do colonialismo moderno na
Conferência de Berlim (1884).
Olhando a História com
o distanciamento que ela merece, é especialmente relevante a necessidade de
corrigir a ideia feita de que somos um país de conquistadores.
Essa ideia não passa
de mera bazófia, aliás demonstrada, de forma tão inequívoca por uma sementeira
de fortalezas defensivas, espalhadas por todo o Mundo, por onde passaram os portugueses,
construídas pelos nossos antepassados para nelas se refugiarem e se
reproduzirem. Foi aí que se inventaram as mulatas e os mulatos.
A grande aventura
lusíada não foi a da conquista das terras, mas a da conquista das pessoas, a da
sedução dos povos com quem os portugueses se relacionaram, envolvidos numa
mística que Camões transformou em poema.
O peito ilustre
lusitano a quem (as fantasias de) Neptuno e Marte obedeceram está em cada um de
nós, nos nossos relacionamentos, nessa imensa rede sobre a qual construímos a
nossa liberdade, em mais de 500 anos de navegação.
Somos os indianos da
Europa; abusamos da pimenta, por causa desse nosso passado e recriamos, num ror
de pequenos gestos, os exercícios que fizemos no Oriente, na África e no Brasil.
Mas procuramos fazê-lo, agora, às escondidas, porque parece ser politicamente
incorreto, desde que passamos a ser europeus, como se existisse uma povo europeu,
num gesto de contrariedade daquela máxima de Voltaire que dizia que au delà des Pyrenées, c'est l'Afrique.
Nós, os portugueses, sempre
fomos um povo, mesmo quando nos protegemos sob diversas bandeiras, como é
próprio dos povos dispersos. Fomos, sem nenhuma dúvida, os inventores da
plurinacionalidade, de que e encontram os mais antigos vestígios no reino cristão
da Etiópia, no século XV, onde acorremos à procura do Preste João.
Agora ganhamos a mania
de que deixamos de o ser, para nos diluirmos num espaço de tragédia, que é esta
Europa de europeus, uma Europa de coisa nenhuma, em vez de uma Europa de povos.
Os Lusíadas, cuja
morte se comemora todos os anos em 10 de junho, estão a sofrer o mesmo ataque
que sofreu o fado, nos tempos do gonçalvismo.
Os nossos governantes
dividem-se por todo o mundo em sardinhadas acesas à sombra de Camões, como se
ele fosse um pescador da Nazaré, sem dele recitarem uma estrofe ou recordarem
uma ideia, quando o poeta está mais morto do que vivo.
Já o mataram nas
escolas, com o pretexto de era difícil dividir-lhe as orações, tudo para
esconder a questão essencial que é ideológica: a melhor forma de matar um povo
é matar quem o cantou.
É um sinal
preocupante, da mesma natureza, mas bem mais preocupante do que o ataque ao
fado, de que ele já se recuperou, aliás, com a cambiante de ter deixado de ser
nosso para ser da Humanidade.
O que se mata quando,
ainda que em morte lenta, se matam Os Lusíadas é a liberdade diaspórica que o poeta
propagandeia com lógicas de grandeza, de vitória e de glória, que os dignificam
em qualquer espaço, desde a ocidental praia lusitana até para além da
Taprobana, ao invés da lógica de miséria que a troika tenta impôr a todos os
povos do sul, a começar pela Grécia, que está à direita do mapa, acabando, inevitavelmente em nós, que estamos à esquerda.
Tudo é uma questão de
tempo e de respeito pelo movimento de rotação da Terra.
A ditadura comemorou o
10 de junho como o "dia da raça", como se fôssemos todos charoleses, nelores,
frísios, ou barrosões. Era a mesma lógica da manada que obrigava os portugueses
a pedir autorização ao governo para sair do país e definia contingentes de
emigração, tratando-os como gado.
Foram milhões os que
partiram, no século passado, em grandes vagas de emigração, primeiro para as
Américas e a Austrália e depois para a França e a Alemanha. Fizeram de Paris a
maior cidade portuguesa dos anos 60, onde Maria passou a significar concierge.
Tudo como
abre o livro de Ferreira de Castro: Os homens transitam do Norte para o Sul,
de Leste para Oeste, de país para país, em busca de pão e de um futuro melhor.
Porque, como dizia Torga, eles não cabiam no país que era o seu pequeno berço.
Os
Lusíadas são também o poema da grandeza de ser, por relação à miséria de não
ser ou de não ter.
Deformaram-lhe
o sentido louvando-se na raça em vez de se louvarem nas virtudes.
As pessoas eram, no
tempo da ditadura - em boa verdade e contra o espírito do poema, onde sempre
são representadas como não cativas - objeto de exportação, geradora dos invisíveis
correntes, com que se equilibrava a balança de pagamentos, segundo os
relatórios do Banco de Portugal, que - muitos não sabem - era até ao verão de
1975 um banco privado, não se sabendo ainda hoje de quem é, porque não se
desvendou o mistério de saber se foram pagas as indemnização da nacionalização.
As polícias prendiam
os que tentavam fugir a salto e os que os ajudavam, como se todos os cidadãos
estivessem obrigados por uma obrigação passiva universal, que garantisse o
cárcere dos demais.
Foram heróis boa parte
dos que partiram, mártires ou desprotegidos da sorte, os outros.
Depois do 25 de abril,
adularam-nos sempre nos períodos de crise, procurando captar-lhes as poupanças,
por via dos mais variados artifícios, a começar pelas comendas, mas sempre com
um profundo desprezo, como se todos os emigrantes fosse uns atrasados, que
pararam no tempo da ditadura e continuam a arrastar-se dentro dos layouts fechados dos corridinhos e dos
viras, iguais na indumentária, na dança e na música, ao que eram há 50 anos.
Há, em Portugal, de
forma clara e inequívoca, uma política discriminatória por relação aos portugueses
emigrados fora do território da União Europeia.
Estes - os que residem
no território da União - são tratados não como emigrantes, mas como cidadãos
europeus, que são, de jure, tal e
qual os demais portugueses, que vivem na Austrália ou nos Estados Unidos, no
Brasil, na Venezuela, na África do Sul ou na Índia.
Não há, aparentemente,
nenhum mal nesta atitude, embora ela contenha, de forma implícita, uma reação
passiva por relação a um projeto de destruição da identidade lusíada, que é
parte de um projeto global de destruição da identidade dos povos europeus, como
mecanismo essencial para a criação laboratorial de uma identidade europeia,
coincidente com - e tão artificial como - a cidadania da União.
Os soviéticos tentaram
fazer o mesmo, mas nunca o conseguiram; e hoje não há soviéticos, como amanhã
não haverá europeus se a construção da Europa se fizer na base dos mesmos
métodos e das mesmas mentiras.
Aquilo a que hoje
assistimos é apenas... sinal dos tempos. Ainda há uns dias, quando tentava
discutir estas questões com um desses jovens espertos que, vendo a desgraça em
que está a cair essa coisa a que chamam Europa, se antecipou e deu em deputado,
falei d'Os Lusíadas e do vate,
sugerindo-lhe que o relessem e lhe dessem atenção. O jovem limitou-se a pedir um
VAT69, que eu paguei como uma lição dos tempos que correm.
Nunca tive a mania das
perseguições, nem sequer nos tempos de adolescência, marcados pelos livros de
Emílio Salgari, misturados com a nossa História
Trágico Marítima e com a Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto.
Estou hoje
absolutamente convencido de que há, em Portugal, uma política vetorizada para a
destruição do povo português, como
entidade autónoma, individualizada por via de uma história com quase 9 séculos,
por via da sua dissolução num
espaço e num conceito semelhante ao conceito soviético: o conceito de povo europeu, que não tem nenhuma
realidade e é uma contradição na sua própria essência.
Explico-vos,
sumariamente, em que factos fundamento a minha convicção.
i. O discurso político da integração nas comunidades de acolhimento
Sobretudo
após o Tratado de Maastricht (1993), os dirigentes políticos portugueses
mataram completamente a ideia do regresso
dos emigrantes.
Essa ideia
foi sempre uma ideia mítica dos povos com vocação de emigração, como é o
português. Partia-se para enriquecer e voltar, devolvendo-se os ossos no país
onde se nasceu.
Só os
desgraçados ou aqueles a quem a sorte traía ficavam sepultados nos destinos.
Esse mito
acompanhou os portugueses durante séculos, enchendo milhares de páginas da
nossa literatura e marcando muitos dos nossos escritores.
Foi assim
que nasceram o brasileiro e, mais
recentemente, na segunda metade do século XX, o francês, que polvilhou as colinas portuguesas com casas do tipo maison, com janelas tipo fenêtre.
Esta idiossincrasia
do emigrante, contendo uma cultura de grandeza e de sucesso que marca o poema
de Camões como elemento estruturante do nosso povo, conduziu sempre a comportamentos
engrandecedores das terras de origem de cada um e do país, por iniciativa dos
próprios emigrantes ou por via da sedução que, ao seu ego moveram os banqueiros
e os políticos ao longo de toda a História.
Há exemplos
disso em todo o Portugal, desde o continente até às ilhas, sendo que são
inúmeros os exemplos dos últimos 50 anos.
Os
emigrantes assumiram, sempre, uma papel relevantíssimo no desenvolvimento do
país, especialmente no que se refere ao do setor do imobiliário.
Nas décadas
de 70 e 80 do século XX, os governos tomaram em devida consideração esse
fenómeno e facilitaram-lhes a vida, com algumas isenções fiscais e com
modalidades de crédito bonificado.
As
facilidades e os incentivos que eram dados aos emigrantes para investir em
Portugal foram drasticamente reduzidos, como se estivesse a apostar, de forma
direta e frontal, na sua substituição pelos estrangeiros, especialmente pelos
chineses, que já controlam algumas da principais empresas portuguesas, como é o
caso da que tem o monopólio da energia elétrica.
Em parte
por causa disso, temos agora 800.000 unidades de habitação a mais, o que coloca
os preços do imobiliário, em termos comparativos, no nível mais baixo dos
últimos 200 anos.
O discurso
oficial passou a ser o de que a emigração é um processo sem retorno e o de que
os portugueses residentes no estrangeiro devem integrar-se nas sociedades de
acolhimento, passando a valorizar-se, de forma especialíssima, mais a
intervenção política dos emigrantes nos países em que residem do que a sua
intervenção em Portugal.
O discurso
oficial do governo de Passos Coelho, perante um desemprego juvenil que se
aproxima dos 30%, aconselha os jovens a partir para o estrangeiro, como se isso
fosse um desígnio nacional, num país com uma pirâmide etária muito envelhecida.
Há qualquer
coisa de sinistro neste discurso, em que o desemprego, recentemente qualificado
como «coiso» pelo ministro da Economia, é havido não como um mal mas como uma
boa oportunidade, especialmente se essa oportunidade for encontrada no
estrangeiro.
Parece
haver uma espécie de plano B, para o destino deste pequeno país, que passe por
o deixar vago, de forma a que possa ser ocupado por outros.
A grande
mudança política operada pelo governo de Passos Coelho por relação aos que o
antecederam, nomeadamente o de José Sócrates, está em que estes afirmavam
apostar em políticas de inserção em Portugal das camadas jovens da população,
investindo fortemente na educação, no ensino e num plano tecnológico, enquanto
o governo social democrata desinveste na educação tecnológica e aposta na emigração dos jovens.
A única
coisa que têm de comum - movimento que, aliás, tem já vários anos - é o desenvolvimento
de ações políticas visando evitar que os portugueses residentes no estrangeiro
regressem a Portugal, como se eles, vindo de países mais desenvolvidos,
pudessem estorvar.
Cultiva-se
em Portugal, relativamente aos emigrantes, especialmente aos do Brasil - nem
sei bem porquê, porque o Brasil foi sempre uma espécie de seguro de vida para
Portugal - a ideia de que são mais atrasados, ou são estúpidos ou impreparados,
como se tivessem ficado parados no tempo e só Portugal tivesse evoluído.
É uma ideia
injusta, irrazoável e hipócrita, que só
faz sentido se interpretarmos como
resultante de uma estratégia defensiva.
Desde que a
democracia foi restaurada em 1975, sempre os dirigentes político portugueses
tiveram medo dos portugueses da diáspora, talvez em razão do peso que, logo a
seguir ao 25 de abril de 1975, assumiram os emigrantes na política portuguesa.
Há alguns
anos passou a ser claro que os portugueses do estrangeiro que queiram
desenvolver atividade política o devem fazer nos outros países de que também
sejam nacionais.
Os últimos
governos têm gasto milhões de euros para apoiar iniciativas que visam a ação
política no estrangeiro de pessoas que
também têm nacionalidade portuguesa, apesar de a lei da nacionalidade
portuguesa ser expressa, no sentido de que em Portugal, sendo um português
binacional, só releva a nacionalidade estrangeira na relação que o cidadão
tenha com o outro Estado.
Um
luso-americano só é americano na América, como um luso-francês só é francês em
França ou um luso-brasileiro só é brasileiro no Brasil.
Portugal,
em vez de os valorizar como portugueses em Portugal, valoriza-os como políticos
da outra nacionalidade nos países de que também são nacionais, como se quisesse
afastá-los (ao menos enquanto políticos) da comunidade portuguesa.
Há
situações que, para além de ultrapassarem o campo do ridículo, são
manifestamente delicadas, como a que aconteceu, ainda muito recentemente, com a
presidente do Parlamento português a intervir junto das autoridades da
República Popular da China, em defesa de um traficante de droga chinês, tanto à
luz das leis da China como do disposto no artº 28º da Lei da Nacionalidade
Portuguesa.[2]
Esta gente
perdeu, há já alguns anos o sentido de identidade, que há séculos nos acompanha
e sempre nos distinguiu dos cativos, procurando vender-nos a qualquer preço,
como se o retângulo português fosse uma coutada, destinada a uma espécie de
macauização, assente na venda aos chineses dos portos de Sines e de Aveiro e
nas duas linhas de caminho de ferro por via das quais se cumprirão os caminhos
do retorno, agora com produtos chineses.
Mas para
que o projeto de substituição do sudoeste asiático pelo sul da Europa possa
realizar-se, numa comunhão de esforços da Europa central com a China, liderada
deste lado pela Senhora Angela Merkl, necessário se torna que os que forem não voltem e que os que estão
aqui partam.
Já tínhamos
visto a primeira parte do programa, que se desenvolveu há anos, com uma
explosão de panegíricos aos dirigentes luso-descendentes no estrangeiro.
Estamos
agora a ver a segunda parte.
Alguns
antigos ministros do PSD já integram lugares de confiança do comité central do Partido
Comunista da China, que hoje controla EDP. Não tardará que aí vejamos
personalidades do Partido Socialista.
Tudo
começou pela desvalorização efetiva do papel político dos portugueses no
estrangeiro...
José Lello
e António Braga (PS) e, atualmente, José Cesário (PSD) são exemplos expressivos
dessa linha política que, em síntese, aproveita a valorização do protagonismo
dos portugueses noutros países para os afastar do destino português e os
desvalorizar como portugueses.
Apesar de a
Constituição garantir que os portugueses residentes no estrangeiro são tão
portugueses como os demais, a verdade é que eles nunca tiveram uma efetiva representação
parlamentar, apesar de as leis eleitorais terem reduzido o princípio da
representatividade a uma miséria de 5 deputados para um universo que,
unanimemente, é de, pelo menos 5 milhões de cidadãos.
Os outros
10 milhões, que são só o dobro têm 225 deputados, num conjunto de 230.
Ou seja:
enquanto um deputado do continente e das ilhas representa 44.444 cidadãos um
deputado da emigração representa 1.000.000 de cidadãos.
Significa
isso que cada português emigrante vale, em termos políticos, apenas 22% de um
português residente em qualquer parte do território que ainda é considerado
território português.
Até esses 5
miseráveis representantes dos emigrantes foram confiscados pelas centrais
partidárias para os seus funcionários metropolitanos.
ii. O tratamento colonial das comunidades da diáspora
As
comunidades portuguesas da Diáspora continuam a ser tratadas numa ótica
colonial, com um completo vazio de ideias e uma completa falta de informação,
como se se estivesse a preparar uma «descolonização» de que já há sintomas
claros e inequívocos.
Em vez de
incentivar a vida associativa, riquíssima, nomeadamente no plano das trocas
culturais, o Estado tudo tem feito para reduzir essa vida associativa ao
folclore, que tem um valor extraordinário como repositório de memórias
estereotipadas, mas é extremamente redutor de tudo o que seja atividade
intelectual e acaba por se transformar num elemento canibal da cultura, da
política e da intervenção cívica.[3]
É
importante que se deixe claro que o folclore tem uma importância extraordinária
na vida das nossas comunidades da diáspora, como repositório de artes e de
memórias. Mas que ele importa consigo o perigo de matar toda a vegetação que
queira crescer ao lado, porque, por natureza é imutável nos seus estereótipos,
nada se distinguindo quando está ao serviço da democracia ou da ditadura.
Aprendemos
isso tanto com as experiências das ditaduras europeias como com experiência das
ditaduras asiáticas, nomeadamente da soviética e da chinesa.
A grande
vantagem do folclore é a normalização da qualidade dos líderes a quem os
espetáculos são oferecidos. Não há diferença nenhuma, sem prejuízo da qualidade
dos dançarinos, entre o vira dançado para Marcelo Caetano, José Lello ou José
Cesário, sendo certo que também não é diferente a atitude de qualquer deles por
relação à dança.
O correto e
o decente seria que os dirigentes políticos não se aproveitassem desta
realidade e procurassem ter respeito pelos seus concidadãos, catalisando o
desenvolvimento de outras atividades.
iii. A xenofobia no tratamento dos familiares estrangeiros de nacionais portugueses
Apesar de
em 2006 se ter desenvolvido um profundo debate sobre as questões da cidadania,
conexas com as problemáticas da diáspora - que deu origem à Lei Orgânica nº
37/81, de 3 de outubro, o Governo português e o Ministério Público continuam a
adotar políticas racistas e xenófobas, que ofendem os princípios estruturantes
dessa importante lei.
As leis
portuguesas garantiram, desde sempre, o acesso à nacionalidade portuguesa às
mulheres que casavam com portugueses e aos filhos menores que estas tivessem
antes do casamento.
Foi com
esse espírito agregador das famílias que se construiu este povo, nos últimos
500 anos, marcado pela mescla de raças e culturas, cantada por um Camões, agora
defunto - e de quem, por isso mesmo (ou por mero ignorância...) ninguém fala.
A Lei da
Nacionalidade de 1981 (Lei nº 37/81, de 3 de Outubro) passou a garantir o
direito de acesso à nacionalidade portuguesa por parte dos cônjuges
estrangeiros de nacionais portugueses, independentemente do sexo.
Em 1994 -
era primeiro-ministro o Prof. Cavaco Silva - foi publicada a Lei nº 25/94, da
iniciativa do Governo, que passou a exigir que tanto os cônjuges estrangeiros
de nacionais portugueses como os filhos menores dos que a adquirissem a
nacionalidade portuguesa fizessem prova de uma ligação efetiva à comunidade
nacional, não definindo, porém, talvez por incapacidade intelectual do
legislador, o que era essa «ligação efetiva».
Ao longo de
anos, os tribunais «inventaram» e definiram conceitos que são absolutamente
racistas e xenófobos, como se tivesse passado a ser exigível que os cônjuges e
os filhos menores, de nacionalidade estrangeira, casados com nacionais
portugueses tivessem que fazer uma espécie de prova de virgindade, para poderem
aceder à nacionalidade portuguesa.
Essa
exigência e, sobretudo, a interpretação que lhe foi dada pelos tribunais
começou a suscitar problemas de constitucionalidade e problemas de respeito
tanto pela Convenção Europeia sobre a Nacionalidade como por diversas
convenções internacionais sobre eliminação de formas de discriminação racial[4].
Por isso -
e especialmente porque a exigência do artº 9º da Lei da Nacionalidade, no que
se refere às exigências de prova de ligação à comunidade nacional por parte dos
cônjuges dos portugueses e dos filhos menores dos que adquirissem a
nacionalidade portuguesa era frontalmente ofensiva de normas constitucionais e
da Convenção Europeia sobre a Nacionalidade - foi alterado esse normativo, no
sentido de deixar de ser exigível a apresentação de provas de ligação à
comunidade nacional, passando a ser possível a oposição à aquisição da
nacionalidade apenas quando o Ministério Público provasse «a inexistência de
ligação efetiva à comunidade nacional.».
A Lei Orgânica
nº 2/2006, de 17 de abril, entrou em vigor no dia 15 de dezembro de 2006 e, em
vez de se reduzir o número de processos de oposição à aquisição da
nacionalidade portuguesa, por parte de familiares de nacionais portugueses, esse
número tem vindo a crescer.
Isso
acontece não por força da lei, mas em consequência de instruções do Governo,
que é a entidade que tutela o Instituto dos Registos e do Notariado, o qual,
por sua vez, controla a Conservatória dos Registos Centrais.
Com exceção
dos casamentos entre pessoas do mesmo sexo[5] -
independentemente do sexo - a Conservatória dos Registos Centrais pede ao
Ministério Público que promova a oposição à aquisição da nacionalidade
portuguesa na maioria dos casos que lhe são apresentados.
Tratando-se
de uma instituição que é controlada pelo Governo, esta atitude só se compreende
em consequência de instruções governamentais, do mesmo modo que só se
compreende a promoção da oposição pelo Ministério Público em razão de
instruções enviadas pela cadeia hierárquica.
Para além
da ingerência do Estado na constituição das famílias, em que este tipo de
oposição redunda, é absolutamente chocante a estrutura racista e xenófoba das
intervenções, que ofende, sem nenhuma dúvida princípios constitucionais
estruturantes da República Portuguesa e convenções internacionais a que
Portugal aderiu.
Por regra,
a argumentação da Conservatória dos Registos Centrais e Ministério Público é no
sentido de que os estrangeiros que pretendem adquirir a nacionalidade não são
residentes em Portugal, não conhecem a história de Portugal e as suas idiossincrasias,
tendo uma ligação cultural e sociológica especialmente relevante por relação a
outra sociedade e a outro país.
Não conheço
um único caso em que se tenha feito alguma averiguação, razão pela qual comparo
estes processos aos da Santa Inquisição, em que bastava o promotor dizer que o
réu era infiel, para ele poder ser passado pelas brasas.
Mas o mais
chocante é que, em, pelo menos, metade das situações, a ligação cultural e
sociológica do requerente a Portugal, nos termos assim configurados, é igual à
do cônjuge português ou do progenitor que adquiriu a nacionalidade portuguesa.
Os quadros
em que são manifestamente inequívoco o racismo e a xenofobia das autoridades
portuguesas são os seguintes:
·
A oposição
à aquisição da nacionalidade requerida por cônjuges de nacionais portugueses
que, para além do sangue, não têm
quaisquer outras ligações a Portugal e à comunidade portuguesa que os distingam
do candidato à nacionalidade.
É
o caso, por exemplo, de uma brasileira que casa com um português de origem ,
porque filho de português de origem, mas que já pertence à 3ª geração nascida
no Brasil...
Só
uma lógica racista e xenófoba justifica que se considere esta mulher uma
marginal, mesmo que ela tenha, para além do marido português, dois ou três
filhos, que, sendo embora portugueses de 4ª geração, são também portugueses de
origem.
·
A oposição
à aquisição da nacionalidade por parte de crianças, filhas dos que adquiriram a
nacionalidade portuguesa.
Este é um
quadro ainda mais chocante, que nos magoa especialmente porque defendemos
crianças,muitas com menos de 10 anos, em dezenas de casos com esta tipologia.
Imagine-se,
por exemplo, que um estrangeiro ou uma estrangeira, com um ou dois filhos
menores, casa com um nacional português.
Ou
imagine-se que um neto de cidadão português só recentemente descobriu que tem
direito à nacionalidade portuguesa e a peticiona, pretendendo, depois,
peticionar a aquisição da nacionalidade para os seus filhos, de 2 e 3 anos.
A lei
prevê, sem nenhuma condição, que os filhos menores ou incapazes dos que
adquiram a nacionalidade portuguesa também a possam adquirir, mediante
declaração de vontade feita pelos seus legais representantes.
Esse
direito caduca quando os menores adquirem a maioridade, só podendo ser exercido,
pela natureza das coisas, pelos representantes legais do menor, durante a
menoridade.
Também
nestes casos, mesmo que se trate de crianças de 2 ou 3 anos, é sistemática a
propositura pelo Ministério Público de ações especiais de oposição à aquisição
da nacionalidade portuguesa, requerida pelos menores estrangeiro, representados
pelos seus progenitores, o que também só se compreende por razões de xenofobia.
Apesar de
terem perfeita consciência desta barbaridade, a verdade é que os últimos dois
governos (o do José Sócrates e o de Passos Coelho), que são os que governaram
após a Lei Orgânica nº 2/2006, de 17 de abril, têm, rigorosamente a mesma
política racista e xenófoba relativamente a esses grupos de cidadãos
estrangeiros que integram as famílias portuguesas.
Apesar da
alteração do artº 9º da Lei da Nacionalidade, todos os consulados de Portugal
continuam a exigir a tal prova de ligação a comunidade nacional, coisa que é muito
mais exigente do que a declaração de que não era comunista, apresentada pelo
Prof. Cavaco Silva na antiga Polícia Política.
Estas
instruções e estas atitudes dos serviços (desde os Consulados à Conservatória
dos Registos Centrais e à Procuradoria Geral da República) só podem entender-se
como processadas em obediência a instruções hierarquizadas, que têm, por
natureza, uma motivação política.
Essa
motivação política, óbvia e manifesta, tem como teleologia a destruição das famílias
portuguesa e a criação de um espírito de dissolução nas comunidades de
acolhimento, por via da rejeição da qualidade de nacional português, por reação
a tal ofensa.
A esse
propósito é especialmente expressivo que escreve o PROF. MOURA RAMOS, atual
presidente do Tribunal Constitucional português, a propósito dos normativos
relativos à oposição à aquisição da nacionalidade portuguesa: O instituto da oposição aparece (...) concebido
como que em termos de resposta orgânica do tecido social organizado à invasão
de agentes poluidores que se entende devam ficar arredados do corpus social
nacional.(...) Justifica-se (...) que a oposição só possa ser deduzida em
circunstâncias que indiciem de alguma forma a indesejabilidade de quem pretenda
adquirir a nacionalidade portuguesa.»
Ora, o que os dois últimos
governos fizeram foi, pura e simplesmente dar instruções aos serviços para
considerar indesejáveis todos os cônjuges de nacionais portugueses e filhos
menores dos que adquiram a nacionalidade portuguesa, especialmente se forem de
países terceiros (ou seja de países não europeus), o que, em termos
estratégicos, beneficia a mesma lógica de assimilação destruição do povo
português por um povo artificial, neo-soviético, a que se chama de «europeu».
iv. A inexistência de arquivos em Portugal dos atos relativos aos portugueses residentes no estrangeiro
O maior golpe
nessa ideia de povo lusíada - cuja morte agora se comemora em 10 de junho - foi
iniciado pelo governo de José Sócrates e está a ser meticulosamente continuado
pelo governo de Pedro Passos Coelho.
Trata-se da
destruição dos arquivos relativos ao registo civil dos cidadãos portugueses
residentes no estrangeiro.
Durante
séculos, os registos relativos à vida civil das pessoas foram organizados pela
Igreja católica.
A I
República instituiu o registo civil como uma das primeiras garantias de
cidadania, implantando um sistema de registo civil perfeito e eficaz, que assimilou os livros dos registos
canónicos.
Os
consulados de Portugal, sendo estruturas muito frágeis, nunca mereceram a
confiança dos governantes, por ser manifesto, tanto antes como agora, que não há as mínimas condições para os
inspecionar nem condições financeiras para os dotar de conservadores de registo
civil.
Por isso
mesmo, os consulados sempre foram - e apenas foram sempre - «órgãos especiais»
do registo civil que «a título excecional podem desempenhar funções de registo
civil» (artº 9º do Código do Registo Civil).
Tanto
quanto é do meu conhecimento não há nenhuma repartição consular portuguesa no
mundo que tenha no seu quadro um conservador do registo civil ou sequer um
funcionário qualificado para o exercício de funções de registo civil.
Os
consulados não têm competência própria para o processamento de atos de registo
civil nos termos do Código do Registo Civil.
Todavia
processam-nos e diluem completamente a sua responsabilidade por via de um
sistema de gestão completamente anacrónico e irresponsável, que conduz a que os
registos processados, de facto, nos consulados, sejam introduzidos na base de
dados do registo civil (SIRIC) como se o tivessem sido numa das múltiplas
repartições de registo civil distribuídas pelo território português, sem que
tenha a mínima conexão com ela e sem que o respetivo funcionário ou o
conservador possam verificar os documentos de suporte.
O governo
português viu-se obrigado, há uns anos, a centralizar a emissão de passaportes,
porque o passaporte português tinha perdido toda a credibilidade, perante o
volume de falsificações que era operado.
A
transformação dos consulados em verdadeiros postos de registo civil agrava, de
forma muito substancial, os riscos de falsificação de documentos e de perda de
identidade, pois que os documentos de suporte dos registos deixaram de ser
arquivados em Portugal.
Não são
conhecidos até hoje, porque não foram divulgados, os níveis de segurança do
acesso ao sistema informático do registo civil.
Apesar de
termos questionado os responsáveis, não conseguimos saber até hoje como pode
esclarecer-se quem assinou determinado ato de registo, não sendo claro se os
atos processados eletronicamente são ou não assinados digitalmente.
A nosso
ver, a falta de assinatura eletrónica num registo digital implica a sua
nulidade. E esta nulidade pode muito bem ser uma nulidade preparada, de forma
estratégica, para eliminar os portugueses residentes no estrangeiro.
A verdade -
verdade sublime de que ninguém quer que se fale - é que os dois últimos
governos tudo têm feito para evitar que os portugueses residentes no
estrangeiro tenham os documentos que lhe respeitem em Portugal.
Mais grave
do que isso é que ambos tenham alijado completamente as responsabilidades.
O governo
de José Sócrates procedeu a duas alterações importantíssimas do Código do
Registo Civil.
O artº 17º
, 1 desse Código passou a determinar a destruição imediata de todos os
documentos que foram digitalizados, o que, a um tempo, impede completamente a
demonstração de uma falsificação e, em simultânio, permite usar o documento destruído para
multiplicar documentos falsos.
O artº 15º
determina que quando se destruir algum suporte digital que contenha atos de
registo deve o mesmo ser reconstituído, nos termos de portaria aí anunciada. A
portaria em causa tem o nº 1119/2009, de
25 de setembro e lança toda a responsabilidade da reconstituição para os
ombros dos interessados.
Ou seja: se
o interessado não tiver documentos de suporte dos registos desaparecidos
não poderá reconstituir o registo.
Tudo isto é
agravado pelo facto de nunca se saber - ser impossível de saber - a que
conservatória foi afeto o registo desaparecido, porque ele tanto podia ser de
Caminha como de Vila Real de Santo António.
v.
Está tudo preparado para poder acabar com a
diáspora portuguesa a qualquer momento
A
Declaração Universal dos Direitos do Homem, aprovada em 10 de dezembro de 1948,
já previa, no seu artº 13º que «toda a pessoa em o direito de livremente
circular e escolher a sua residência no interior de um Estado», bem como «o
direito de abandonar o país em que se encontra e o direito de regressar ao seu
país.»
O artº 15º
da mesma Declaração Universal garante que «todo o indivíduo tem o direito de
ter uma nacionalidade» e «ninguém pode ser arbitrariamente privado da sua
nacionalidade nem do direito de mudar de nacionalidade».
Apesar
disso, todos sabemos que muitos Estados, nomeadamente Portugal, não respeitam
estas regras.
Portugal
«assassinou» em massa milhares de portugueses nos últimos 60 anos.
O primeiro
«assassinato» em massa aconteceu em 1957, com a publicação do Decreto nº 40980,
de 17 de janeiro, que mandou limpar dos registos dos consulados e das
conservatórias do registo civil os nomes das pessoas que, no prazo de um ano
não requeressem ao Ministro da Justiça a ratificação da nacionalidade portuguesa.
O segundo
«assassinato» em massa diz respeito aos portugueses de Goa e seus descendentes
que, após mais de 50 anos, continuam a ver recusados pedidos de reconhecimento
de identidade que são inequívocos.
O terceiro
«assassinato» em massa ocorreu no processo de descolonização. Há pessoas que
eram portuguesas, que nunca quiseram adquirir as nacionalidades dos novos
países e que ainda hoje lutam pela nacionalidade contra a apatridia.
O quarto
«assassinato» em massa começou com a publicação discreta , sem ser acompanhada
por uma campanha de informação do Decreto-Lei nº 438/88, de 29 de novembro.
Este
diploma, que alterou o regime da emissão de passaportes passou a exigir a
apresentação de bilhete de identidade para quem pretendesse requerer
passaporte, sem, porém, reconhecer as matrículas consulares e mesmo as
certidões depositadas nos consulados como meio de prova da identidade ou da
qualidade de portugueses.
Em 1988,
mesmo em Portugal, havia um grande número de portugueses que não tinha bilhete
de identidade era muito difícil obter um bilhete de identidade no estrangeiro.
milhares e
milhares de portugueses perderam a sua
identidade e passaram a ser não ser reconhecidos como portugueses pelas
autoridades nacionais embora continuassem a sê-lo pelos os países estrangeiros,
onde residem. Alguns deles represento-os nos tribunais portugueses, onde o
Estado não reconhece os próprios, documentos que emitiu.[6]
Ninguém
admitiria como possível que Estado Português pudesse alguma vez, nos dias que
correm, dizer que não são portugueses cidadãos que, durante anos e anos o mesmo
Estado português reconheceu como seus nacionais.
Não falo já
dos portugueses de Malaca, alvos da primeira grande chacina, ou dos de
Hiroshima, para cujo desaparecimento serviu de justificação da bomba atómica.
Falo,
especialmente, dos do Paquistão, onde continua envolto em mistério o destino
dos arquivos do consulado de Carachi e da secção consular da Embaixada de Portugal
em Islamabad.
Falo dos de
Hong Kong, cujos arquivos também foram para destino desconhecido.
Mas falo
também dos de Santos, porque não se sabe para onde foram os arquivos do que foi
o mais antigo consulado de Portugal no Brasil, desconhecendo-se também que
destino tiveram os papéis do Consulado de Portugal em São Paulo, que não se encontram nas atuais instalações.
Imagino o
que aconteceria se não houvesse arquivos em Portugal, como deixou de haver.
Está tudo
preparado para acabar de matar o poeta e queimar Os Lusíadas, acabando com este povo.
Porque não
há povos sem memória. Tudo o resto é pura demagogia.
[3] A única iniciativa do atual secretário de Estado
das Comunidades, José Cesário, relativa a uma das mais importantes comunidades
da diáspora, a de São Paulo, foi a da promoção de uma mini seminário sobre
folclore, ao qual alocou dois reputados especialistas. Sou um velho defensor do
folclore português e dos rigor do tratamento dos respetivos layouts, mas
considero inaceitável que se use o folclore à soviética, como forma de eliminar
o pensamento.
[4]
Nomeadamente a Convenção Internacional
sobre eliminação de todas as formas de discriminação racial, aprovada pela Lei
nº 7/8, de 29 de abril.
[5]
Portugal admite o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Publicamos um pequeno
livro sobre essa matéria, que pode adquirir-se na editora Smashwords, em
formato eletrónico. Não conhecemos um único caso de oposição do Ministério
Público à aquisição da nacionalidade por cônjuge ou companheiro de nacional
português que seja do mesmo sexo.
[6]
Vou publicar brevemente documentos que
detalham esta situação
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