domingo, janeiro 20, 2013
domingo, dezembro 23, 2012
Balanço de 2012 e perspetivas para 2013
O ano de 2012 foi, essencialmente, um ano de deceção para os
portugueses.
O governo liberal de Passos Coelho aplicou, durante o ano de
2011, medidas duríssimas, com o
argumento da necessidade de equilibrar as contas públicas, que cada vez se
encontram mais desequilibradas.Nenhum resultado positivo foi alcançado na vida das pessoas e das empresas, assistindo-se a uma degradação progressiva da qualidade de vida, da qualidade dos serviços públicos e, especialmente, da situação económica e financeira do país.
Todas as previsões relativas à redução da dívida pública falharam, nomeadamente porque se incorre no vício de ocultar os verdadeiros números da mesma, para a reduzir a um percentual do Produto Interno Bruto (PIB). Se o PIB baixa, como vem baixando, cresce o percentual da dívida, por relação ao produto, mesmo que ela e mantenha em termos nominais.
Na sequência do apelo do primeiro-ministro à emigração, têm partido de Portugal para países estrangeiros centenas de milhar de pessoas, tanto operários como técnicos altamente qualificados. A emigração dessas pessoas reduz o potencial de crescimento do país, essencial para o equilíbrio das finanças públicas sem a venda do património do Estado.
Portugal foi transformado num país de velhos e de pessoas
sem esperança.
Atualmente, a maior aspiração dos jovens é encontrar um emprego no
estrangeiro, o que põe em causa a sobrevivência de universidades muito bem
cotadas a nível mundial, especialmente em áreas como as da arquitetura e das engenharias.
Essa imagem de país de velhos é, de certo modo, maquilhada pela existência de uma classe política muito jovem e agressiva. Eles não
emigraram porque, em boa parte, não têm qualificações e nunca tiveram profissão
em Portugal.
Essa classe política, jovem e parasitária, porque improdutiva, que é transversal
aos partidos do arco do poder, conduziu já à perda efetiva da independência do
país e ameaça e a sua sobrevivência. É nela que se acultura uma lógica de
subserviência aos interesses do sistema financeiro, nacional e internacional e
à dependência externa, derivada de contratos ruinosos, a que chamam de
"ajuda externa".Só no exercício de 2012, o Estado assumiu perto de 6.000 milhões de ativos tóxicos veiculados pelo principal "banco político" do país, o BPN, que foi nacionalizado, para ser vendido, depois de "limpo" aos angolanos do BIC.
Há em Portugal um equilíbrio de conluio e tensão dessa classe social com um grupo de políticos reformados, de que o Presidente da República é o mais evidente paradigma.
Cavaco Silva é reformado do Banco de Portugal e da Universidade Técnica de Lisboa, recebendo uma reforma global de 10.000 euros. Assunção Esteves, a presidente da Assembleia da República, também é reformada, porque foi juiz do Tribunal Constitucional durante 10 anos, recebendo, por isso, uma pensão de 7.255 euros.
A par dos jovens políticos há políticos maduros que ocupam posições importantes do aparelho de Estado e das empresas públicas e que são reformados.
O mesmo acontece com alguns dos mais famosos advogados portugueses, que prestam serviços, simultaneamente, ao Estado e às grandes empresas que com ele contratam. Também são reformados, mas não ousam divulgá-lo nem fazer constar o facto dos cartões-de-visita.
De outro lado, o Estado e a Segurança Social, onde parece não haver pessoas com conhecimentos mínimos de aritmética, opõem-se sistematicamente à recuperação de empresas quando sobre elas têm crédito, mesmo que não tenham nenhum hipótese de cobrar tais créditos e quando os valores projetados para os subsídios públicos, em caso de insolvência, são exponencialmente superiores.
Portugal transformou-se num cemitério de empresas, muita delas excelentes, tanto no que se refere aos equipamentos como no que se refere ao pessoal.
Há quem ganhe com isso. Mas perdem todos os contribuintes,
porque essa realidade gera prejuízos que são por eles suportados.
As vendas de património imobiliário por valores irrisórios
conduziram, praticamente, à destruição do mercado imobiliário e ao fim da
construção civil.
A insegurança relativamente ao futuro e a
subida brutal dos impostos conduziu a que deixasse de ser atrativa a aquisição
de empresas instaladas, mesmo que elas sejam muito modernas e evoluídas e
disponham de pessoal qualificado, o que aumentou as imparidades dos bancos e vem
conduzindo à socialização dos prejuízos emergentes da destruição do capital
industrial do país.
Os bancos não recebem as prestações da locação financeira,
tanto mobiliária como imobiliária, acabando as imparidades por ser financiadas
pelo Estado, à custa de divida pública.
Mas esse quadro pode mudar a breve prazo.
Só entre 2008 e 2011, o Estado deu aos bancos 47.450 milhões
de euros, preparando-se para lhes emprestar mais 12.000 milhões em 2012.
Na União Europeia, os financiamentos aos bancos custaram aos
estados, durante esse período, mais de 1.600.000 mil milhões de euros, tudo para
tapar parte dos buracos gerados pela especulação.
A falta de crédito às empresas, que multiplicou as falências
e aumentou exponencialmente o desemprego, não só tornou inviável a construção
de edifícios novos como inviabilizou a recuperação de edifícios antigos para os
vender no mercado, pois que nenhuma garantia existe de que eles possam ser
comprados por alguém.
Muito interessante é comprar imóveis para uso próprio ou
para guardar à espera da mudança da situação, investindo o mínimo em
manutenção. Mas, ainda assim, é especialmente importante ponderar a realidade e
as perspetivas, nomeadamente as fiscais, onde se anunciam subidas brutais dos
impostos, que, todavia, os colocam em patamares comparativamente mais baixos do
que os dos Estados Unidos ou do Brasil.
Apesar da crise, o euro tem mantido uma performance de
valorização que só pode ser interpretada como especulativa, maxime para a
consolidação das dividas contraídas em outras moedas. Quando mais elevada for a
cotação do euro, maior é a divida que for contraída em outras moedas. E, de
outro lado, mais difícil é a exportação de produtos e serviços da zona euro.
O ano de 2013 é um ano de impasse na economia portuguesa.
As projeções do governo apontam para uma queda do crescimento da ordem de 1%, mas observadores qualificados calculam que essa queda será de 3% e que o desemprego crescerá para a faixa dos mais 1,5 a 1,6 milhões de pessoas, numa população ativa de 5,5 milhões.
Apesar disso, o governo alardeia um crescimento das exportações, que não se compreende, tendo em conta a recessão que se instalou, e propagandeia a internacionalização das empresas portuguesas.
Paradoxalmente, o Estado nada beneficia dos resultados da internacionalização pois que não é interessante para as empresas portuguesas que se instalam em países terceiros, o repatriamento dos resultados.
Acreditamos que os preços do imobiliário vão continuar a baixar, apesar de se encontrarem já num limiar muito baixo. Por isso mesmo, se justifica a maior prudência nos projetos de aquisição de imóveis, pois que os mesmos podem parecer muito baratos, em termos comparativos, mas são caríssimos nas atuais condições do mercado.
Portugal é um dos 27 estados da União Europeia e isso pode representar, quiçá, a mais importante mais valia para quem pretenda investir no país, com vista à entrada nos mercados europeus.
O facto de os impostos serem muito elevados permite, apesar de tudo (especialmente do regime dos preços de transferência) criar modelos que permitam reduzir os valores da matéria coletável em Portugal, desde que o investidor controle a produção a montante.
Acreditamos que 2013 será um ano de crescimento do investimento estrangeiro em Portugal, especialmente no imobiliário para uso familiar e no investimento para reserva de valor. Esse é um os aspetos mais positivos da governação liberal que o país vem suportando.
Logo que a situação - que é insustentável - seja estabilizada - os valores do imobiliário subirão, inevitavelmente, para níveis idênticos aos que tinham antes da crise.
O mesmo se diz relativamente às empresas que fecham todos os dias. Há equipamentos de todos os tipos que são vendidos para a sucata e que poderiam ser adquiridos por preços baixos e exportados para terceiros países,
Mas há, sobretudo, empresas com histórico e com tecnologia, de pequena e de média dimensão, que poderiam ser aproveitadas por industriais de paises que têm capital, para entrar no mercado europeu.
Em 2013, haverá oportunidades únicas para esse tipo de negócios.
A MRA presta serviços jurídicos aos investidores estrangeiros que pretendam fazer aplicações de recursos em Portugal
domingo, dezembro 16, 2012
A QUESTÃO DA TRANSPARÊNCIA DOS NEGÓCIOS PÚBLICOS E O SENTIMENTO ATUAL DE FINIS PATRIAE
A situação que se
vive em Portugal no final do ano de 2012 causa a uma boa parte dos que
assistiram, como eu, à queda da ditadura de Marcelo Caetano uma profunda angústia.
Tinha 22 anos,
estava no quarto ano de direito e trabalhava como jornalista profissional na
delegação de Coimbra do Jornal de
Notícias. Um mês após a queda do antigo regime, integrei o primeiro grupo
de jornalistas portugueses que foi enviado para um curso acelerado no Centre de Formation des Journalistes, em
Paris.
Frequentaram esse
curso, entre outros, a Maria Elisa, o Pedro Mariano, o Mário Bettencourt
Resendes, o Joaquim Vieira, o Pedro Luís de Castro, o João Pacheco de Miranda, o
Manuel Bom e o João Vale de Almeida, agora embaixador da União Europeia nos
Estados Unidos. Gente que tem hoje entre 55 e 65 anos.
Penso que todos
regressamos de Paris acreditando que a liberdade de imprensa, entendida como
instrumental do direitos dos cidadãos à informação era essencial para a
consolidação de um sistema democrático e que o esforço de rigor e de
objetividade dos jornalistas deveria ser assumido como um dever fundamental.
Essas ideias
influenciaram, de forma especial, a Lei de Imprensa de 1975, que foi, até 1999,
uma das mais avançadas do Mundo.
Penso que, caídos em
Portugal pouco antes do 11 de março, todos tivemos alguma dificuldade em nos
adaptar à euforia revolucionária, marcados como estávamos por essa fé na
objetividade, que só mais tarde, depois do 25 de novembro de 1975, houve condições para realizar.
Nas redações
perdiam-se horas a discutir detalhes acerca de questões delicadíssimas,
sobretudo quando estavam em jogo interesses de poderosos.
Personalidades
políticas com peso no país, como foi a caso de António Vitorino, Miguel Cadilhe
ou Jorge Braga de Macedo foram, autenticamente, liquidados por pequenas falhas.
Os jornalistas
profissionais só o podiam ser, até à entrada em vigor do Estatuto do Jornalista
de 1999, se estivessem vinculados a empresas jornalísticas por contratos de
trabalho, caindo, depois disso na precariedade que colocou na miséria alguns
jornalistas notáveis que acreditaram viver num país normal.
Em 1982, o novo Código Penal passou a restringir, de forma
brutal, a possibilidade de prova da verdade dos factos, amplamente admitida no
Código de 1929. Mas foi sobretudo depois
de 1999 que a perda de qualidade da informação se agravou.
Passaram a acontecer
“coisas esquisitas” depois da entrada em vigor da Lei nº 1/1999, de 13 de janeiro,
por razões que, em minha opinião, têm a
ver com a precariedade da profissão de jornalista e com a produção em massa de
cursos universitários nessa área. Dez anos depois da queda do Muro de Berlim
tinham-se perdido todos os referenciais que faziam a diferença na Europa
Ocidental.
Perante um escândalo que liquidou Helmut Kohl como líder da
CDU, em 1999, emergiu como candidata à liderança do partido uma obscura
física criada sob a ditadura de
Honecker, aquele do famoso beijo na boca a Leonid Brejenev. Chamava-se Angela
Merkel, mas ninguém pôs em causa a sua criação.
Uma das mais
profundas alterações que se operou no sistema informativo, na última década do
século XX, consistiu numa redução
substancial da capacidade de produção de opinião pelos jornalistas
profissionais. Foi a perversão completa do princípio da liberdade de opinião,
substituindo-se o mesmo pela objetivação do pluralismo por via de “líderes de
opinião” gerados pelo sistema.
Por essa via, vimos
assistindo, sobretudo na última década a um condicionamento da opinião pública
muito idêntico, ao menos em termos de mecânica, aos dos sistemas totalitários,
sobretudo dos de raiz estalinista e maoista, que encontram nas técnicas de
comunicação Lenine e de Mao Tsé Tung as suas raízes.
Os governos
aprenderam, entretanto, a gerir a informação, nomeadamente por via da filtragem
de dados para jornalistas a meios da sua confiança, informação essa que, muitas
vezes, é falsa mas é validada, na falta de outra, pelos referidos “líderes de
opinião”.
Nem uns nem outros
têm culpa. Os primeiros acreditam das suas fontes e não podem perder tempo a
investigar, porque as redações são cada vez mais pequenas e amanhã há mais
notícias; aos segundos não cumpre, no quadro em que funciona o sistema,
investigar se as notícias são falsas ou verdadeiras.
Nunca se
aprofundaram, como deveriam ter sido aprofundadas, as questões suscitadas pela
operação do presidente Cavaco Silva sobre ações da SLN. Compreende-se que o
Ministério Público não investigue altas figuras públicas. Mas não pode
aceitar-se que os jornalistas o não façam, quando há duvidas que permanecem.
Nunca ninguém fez uma investigação jornalística minimamente
séria sobre o buraco do BPN e, sobretudo, sobre quem beneficiou com ele, porque
o dinheiro, em tanta quantidade, não desaparece assim.
A venda das
primeiras joias da coroa – as ações do Estado na EDP e na REN – foram,
objetivamente, negócios escuros, porque nenhum cidadão comum, nem mesmo os mais
qualificados, conhecem os seus detalhes. Basta ler os jornais ou ver os debates
na televisão para compreender que eles, por regra, não sabem mais do que o que
é publicado.
Poucos cidadãos têm
a noção de que o país se afunda com cada loja chinesa que se abre em Portugal,
porque se endividam nela, como se houvesse um jogo secreto que transformasse as
receitas de todas as lojas em dívida pública e como se os nossos partidos, por
mais liberais, não passassem de correias de transmissão do grande Partido
Comunista da China.
Como o país não
reagiu perante estas evidências,
agravaram-se os vícios nas privatizações que agora estão em preparação –
as da ANA, da TAP e da RTP.
Há um fosso enorme
entre a informação que é filtrada para o sistema de comunicação social e o que
é publicado no Diário da República, como se se pretendessem eliminar, à partida
todos os candidatos que pudesses estar
interessados nos negócios, com exceção dos que receberam cartas marcadas.
Para suportar a
falta de transparência alguém injeta na comunicação social informações que são
objetivamente falsas ou deturpadas, como essa de que a venda da TAP é
imperativa porque o Estado não pode capitalizá-la. Então o que é e para que
serve a Parpública, SGPS,
SA cujos estatutos foram aprovados
pelo Decreto-Lei n.º 209/2000, de 2 de Setembro ?
Começaram por nos lançar areia para os olhos e, como não
reagimos, agora tentam meter-nos os dedos pelos olhos dentro.
Perdoem-me a brejeirice, mas não posso deixar de me lembrar
daquela história que se contava dos brasileiros e agora se conta ao contrário.
-
Você poderia tirar o anel que está a magoar? –
dizia o português...
-
Não é o anel; é a pulseira do relógio... –
respondia o brasileiro.
Agora é só substituir o “português” por povo e o
“brasileiro” pelos DDT (donos disto tudo) que nos governam e se governam à
nossa conta.
Há muito que defendo a venda da TAP ou da maioria do seu capital,
reservando o Estado um numero de ações que lhe permita, por via de um acordo
parassocial, defender os interesses estratégicos do país, no quadro dos atuais
regimes jurídicos do transporte aéreo, em Portugal e na União Europeia e dos
tratados celebrados com terceiros estados em matéria de transporte aéreo.
Há um conjunto de direitos cujo titular é o Estado, enquanto
signatário de acordos e tratados internacionais
em matéria de transporte aéreo, os quais, por natureza, não são
transmissíveis a quem adquirir a companhia, mas que não devem poder ser
neutralizados por ela.
Imagine-se quanto perderia a economia portuguesa se o adquirente
da TAP resolvesse mudar para Sevilha, Madrid ou Casablanca os voos de e para o
Brasil, Angola e Moçambique, que são dos voos mais caros do Mundo.
Defender a venda das ações do Estado na TAP ou na REN não é
o mesmo que dizer que se façam doações das mesmas.
Alguns dos mais famosos economistas portugueses vêm
defendendo que o valor das empresas depende dos seus resultados, de pouco ou de
nada valendo os seus bens. Lembram-me os negociantes de gado, que procuravam
comprar os bois de trabalho por metade do preço depois das grandes lavouras.
É a mesma lógica que justifica que se ofereçam Mercedes topo
de gama, quase novos, por valores
irrisórios, nos nossos jornais, ou que se liquidem bens de capital que integram
o património de empresas industriais, alguns de tecnologia de topo, a preço de
sucata, lançando-se os bancos na falência e obrigando-se os contribuintes a
pagar as suas loucuras.
O facto de não haver crédito e de não haver dinheiro não
justifica que se venda tudo ao desbarato nem permite que se transforme em regra
a compra de imóveis por 50 euros, porque ninguém apareceu na praça.
O que se está a passar em Portugal lembra-me práticas
daqueles advogados vigaristas que voltaram a aparecer com o modelo usado no fim
da I República. Ameaçavam os clientes dizendo-lhes que ou lhes vendiam os bens
por uma tuta e meia ou ficariam sem nada. E ficavam-lhes com tudo, menos com a
casa de morada da família, exigindo-lhes que os tratassem como caridosos
beneméritos e não como ladrões.
Sejam quais forem os critérios, é chocante a campanha de manipulação feita em
torno do negócio da TAP. Tanto quanto se sabe, a companhia vendeu, em 2010,
mais de 2.930 mil milhões de euros.
O papão de que é preciso injetar capital do montante de 300
milhões e assumir dívidas de cerca de 1.500 milhões, para justificar a
pretensão de pagar ao Estado apenas 30 milhões de euros não passa de um
argumento para enganar papalvos.
Isso só é possível porque estamos perante um negócio escuro,
como são, atualmente, quase todos os negócios públicos, relativamente aos quais
se apagaram todos os princípios da boa governança.
Vive-se em Portugal um sentimento de finis patriae, como se se estivessem a refundar todos os monstros
que vimos cair na nossa juventude.
domingo, setembro 23, 2012
domingo, agosto 05, 2012
COMO INTERNACIONALIZAR AS EMPRESAS PORTUGUESAS EM TEMPO DE FALTA DE CRÉDITO E DE CAPITAL
Tem
sido inúmeros, nos últimos tempos, os apelos à emigração e à
internacionalização das empresas portuguesas, especialmente por via da
instalação de filiais ou de sociedades por elas controladas, no estrangeiro.
Ainda
num dia destes, numa entrevista a um jornal, o secretário de Estado das
Comunidades, José Cesário, incentivava os empresários portugueses a procurar
parceiros na diáspora, no mesmo sentido da mensagem do primeiro ministro.
Depois
de ter aconselhado os jovens a emigrar, o governo português diz o mesmo às
empresas, como se pretendesse que o país ficasse devoluto.
A diáspora portuguesa tem um enorme
potencial, mas não me parece que haja condições para que empresários falidos ou
em dificuldades encontrem parceiros no estrangeiro, aproveitando a afinidade de
ser português.
A maior parte dos pequenos e médios empresários portugueses que
procura soluções no estrangeiro integra a fileira da construção civil, que é
aquela que sofreu o mais rude golpe com a crise.
A sua maior dificuldade reside no
facto de não disporem de capital e de, quase sistematicamente, terem as fichas
de crédito sujas pelos bancos que agora lhes recusam apoio financeiro e por
bases de dados, onde não é possivel discernir se as pretensões dos credores são
razoáveis ou não.
É hoje possivel, em qualquer país do
mundo, ter um recorte imediato das informações relativas a um empresário ou a
uma empresa, ocorrendo, com frequência, que a informação negativa se mantém,
mesmo depois de regularizadas as dividas.
Os empresários portugueses que têm
sucesso no estrangeiro manifestam, por regra, uma grande abertura à ideia de
ajudar outros portugueses, que com eles se queiram associar, em projetos que se
afigurem viáveis. Mas, também por regra,
não estão dispostos a aventurar relações com quem não tenha capital e,
sobretudo, com quem tenha o nome sujo.
Empresas de qualquer dimensão, que
tenham negócios próprios, sustentáveis e viáveis, à luz das regras dos mercados
para onde tenham a intenção de migrar, só terão sucesso se prepararem muito
cuidadosamente os seus projetos e se dispuserem de recursos suficientes para o
seu desenvolvimento.
A imagem de Portugal no exterior –
especialmente nos paises de lingua portuguesa – é muito negativa, como se o
país estivesse já a morrer de fome e se dele saissem hordas de emigrantes, que
já justificam cuidados especiais nas fronteiras.
No Brasil, por exemplo, já há,
nalguns aeroportos, restrições à entrada de portugueses, desde que eles não
informem do hotel em que se vão alojar e dos recursos de que dispõem para
passar algum tempo no país.
Embora fosse justo que os
brasileiros agissem assim, porque ainda hoje é são assim tratados os
brasileiros que chegam aos aeroportos portugueses, é minha convicção que as
autoridades só atuam deste modo para evitar que os miseráveis portugueses se
juntem aos que existem no próprio país e que inundam de sem abrigo as ruas das
grandes cidades.
É absolutamente compreensível e
justificável que as autoridades do Brasil sejam cautelosas, até porque não é
verdadeira a imagem que se tem do Brasil em Portugal.
Não há lugar para todos nem há
oportunidades para todos. Sobretudo, não há qualquer oportunidade para quem
queira investir sem ter dinheiro suficiente para alavancar o seu projeto.
Para além disso, o investimento no
Brasil é dificultado por processos
burocráticos complexos, que não admitem pressas nem atropelos e que têm
custos enormes para quem não tem condições próprias de instalação.
Os quadros não são diferentes em
Angola ou Moçambique.
Tudo isto é do conhecimento das
autoridades portuguesas que, todavia, insistem na conveniência de processos de
internacionalização por via do investimento português no estrangeiro.
Ora, na atual conjuntura há
excelentes condições para a internacionalização das nossas empresas por via de
fusões e aquisições das empresas portuguesas com/por empresas estrangeiras. E o
governo português age como quem quer ocultar esta realidade, talvez com a intenção
de destruir completamente a economia portuguesa, deixando o lugar livre para as
empresas estrangeiras representadas pelos seus apaniguados.
Em Portugal, há milhares de empresas,
em todas as áreas, que são viáveis, desde que saneadas financeiramente. Muitas
delas têm equipamentos novos ou quase novos, que serão reduzidos a sucata, se
os respetivos parques forem desmantelados. Com isso agravar-se-ão os prejuizos
do setor financeiro, que já começaram a ser suportados pelos contribuintes, por
valores astronómicos (cerca de 9.000 milhões só no que se refere ao BPN).
Para além de o desmantelamento de
uma empresa ter custos enormes, há muitos paises que não aceitam a importação
de bens de equipamentos usados, pelo que o mais interessante é revitalizar as
empresas no local em que se encontram instaladas.
Parece-me evidente que, ao invés de
incentivar os empresários portugueses, quase todos à beira da falência, a
emigrar levando uma mão à frente e outra
atrás, deveriam o governo e as agência governamentais promover a participação
de empresas estrangeiras na recuperação de empresas portuguesas que se
encontram descapitalizadas.
É certo que os salários em Portugal
são ainda ligeiramente superiores aos de países como a China ou o Brasil, mas,
após a últimas alterações ao Código do Trabalho, os niveis do garantismo
laboral passaram a situar-se abaixo dos do tempo da ditadura, aproximando-se, a
passos largos da desproteção que vigora no Oriente.
As empresas portuguesas são
especialmente interessantes para as brasileiras.
Queiramos ou não, a lingua assume
neste quadro um papel de grande relevo,
pois que é o mais importante instrumento de trabalho nas fábricas.
De outro lado, Portugal é – se não
acabarem com ele – um país moderno, com uma qualidade de ensino público muito
acima da do sistema brasileiro e com um sistema de saúde que, sendo tão bom
como os serviços privados brasileiros, é gratuito.
O Brasil é um mercado com quase 200
milhões de habitantes, mas Portugal é a porta de entrada de um mercado com
perto de 500 milhões, o da União Europeia.
Um apartamento em Lisboa custa uma
renda de menos de metade de um apartamento em São Paulo e os valores dos
condomínios são baixissimos, comparados com os dos Brasil.
As
escolas portuguesas de engenharia e de arquitetura correm o risco de
fechar porque a construção civil parou, não se sabe por quanto tempo.
Como já escrevemos aqui, um
brasileiro que mande um filho estudar em Portugal ganha um apartamento de
brinde se o comprar com a diferença do valor das prestações devidas à escola.
Todas estas razões justificavam que
o governo invertesse a lógica da internacionalização e chamasse a atenção para
estes atrativos em vez de, irresponsavelmente, mandar emigrar os empresários a
quem o esgotamento do crédito bancário e a recessão conduziram à falência.
Fortaleza,
5 de agosto de 2012
terça-feira, julho 31, 2012
Acerca no "Portugal Moderno" no ano de Portugal no Brasil
O Brasil é um país fantástico, que tem funcionado, no
imaginário português, como uma espécie de “seguro de vida” para Portugal.
O relacionamento entre Portugal e o Brasil – pesem embora
alguns momentos de glória nos últimos tempos – sempre foi marcado pela
imbecilidade portuguesa, desde que daqui saíu D. Pedro I, o IV dos portugueses.
Contam-se anedotas tão fantásticas quão carinhosas dos
portugueses que lhe dão precisamente esse tónus – o da imbecilidade – sem que
isso se possa haver como insultuoso ou ofensivo.
A sorte da maior parte dos políticos portugueses está no
facto de os correspondentes de imprensa não reproduzirem na imprensa de
Portugal o que eles afirmam no Brasil e
de a imprensa portuguesa local ser marcada por uma elegância e um respeito que
não permite tomar nota (nem sequer conhecer) as contradições.
Os portugueses e luso-descendentes até à 3ª geração deverão
ser uns 21 milhões no Brasil, com uma diferença de entre 700 mil e 1 milhão a menos, por parte dos italianos.
Estes - os italianos
– dizem que são 31 milhões no Brasil e 15 milhões na Argentina.
As autoridades de
Portugal fazem variar o número entre 500 mil e 700, como se tivessem vergonha
da imensa comunidade portuguesa neste grande país.
Diz a Embaixada de Portugal em Brasília:
«Apresentando um total de 213.203 indivíduos, incluindo
os bi-nacionais, no censo demográfico brasileiro de 2000 (amostra), e calculada
entre 500.000 e 700.000 pelos Serviços do Ministério dos Negócios Estrangeiros
português, em coerência, aliás, com o total das inscrições consulares
registadas, o que importa reter, para além da sua expressão numérica, é que
esta é uma das comunidades portuguesas mais relevantes.»
Fábio Porta deputado brasileiro ao parlamento italiano,
escreve o seguinte, a propósito da comunidade italiana:
«Não temos petróleo, energia atômica, dimensões enormes
como têm China, Rússia, Índia. Temos esse patrimônio que ninguém tem: 31
milhões de italianos no Brasil, 15 milhões na Argentina. E essa riqueza
está um tanto adormecida por falta de atenção e entendimento político do
potencial destes “países” que vivem fora da Itália. »
Ora, entre 1881 e 2010 emigraram para o Brasil 1.514.057
portugueses e 1.507.695 italianos. Mesmo sem contar os portugueses que vieram
para o Brasil desde a descoberta até 1881, as projeções das familias tipo e do
número de emigrantes apontam para que a comunidade portuguesa, considerada como
a dos portugueses e luso-descendentes até à 3ª geração (netos), será maior que
a italiana e se fixará em torno daqueles números.
Quando falo disto parece que estou a fazer um sacrilégio,
apesar de ser consensual que os italianos não são os tais 31 milhões de que
fala Fábio Porta.
Os portugueses apoucam-se e deixam que os seus governantes
os apouquem e continuem com essa afirmação de que são 5 milhões fora de
Portugal, Brasil incluído, afirmação que tem mais de 20 anos e que é uma confabulação
sem nenhum fundamento sério.
Tanto o Brasil como Portugal aceitam a dupla nacionalidade
e desconsideram a nacionalidade estrangeira dos que também são seus nacionais,
quando residentes nos respetivos territórios, não contando esses “estrangeiros”
como tal, porque são nacionais.
É, porém, lastimável que o que é apenas uma verdade
estatística tenha servido para satisfazer a tradicional preguiça das
chancelarias, desvalorizando-se os brasileiros que, no Brasil, são também
portugueses e os portugueses que, em Portugal, são também brasileiros.
Com essa falta de visão – que é luso-brasileira – se anulam
boa parte dos efeitos mais salutares do regime da plurinacionalidade.
De setembro de 2012
a junho de 2013 vamos viver o ano de Portugal no Brasil e do Brasil em
Portugal.
A propaganda oficial
de Portugal tem sido marcada pela crise financeira e pela afirmação da intenção
de aumentar os investimentos portugueses no Brasil, como se o país estivesse em
condições de fomentar investimentos fora das suas fronteiras.
Os políticos portugueses, que vêm ao Brasil e se instalam,
como nababos em hotéis com preços proibitivos, frequentando restaurantes cujos
preços não encontram comparação em Lisboa, só dão estes conselhos porque não pagam
as contas.
Os preços no Brasil atingiram níveis proibitivos para as
pequenas empresas de qualquer dos paises da União Europeia, a não ser que elas
disponham (o que é raro) de avultados stocks
de capital e estejam vocacionadas para o proteger num país muito atrativo
em termos financeiros. Porém, se tiverem de recorrer ao crédito, precisam, para
além de histórico, de pagar taxas que são elevadíssimas.
Os últimos números relativos ao investimento estrangeiro
dão conta de que, no primeiro semestre, Portugal, um país em que o crédito
secou, investiu mais de 300 milhões de euros no Brasil, enquanto o Brasil, que
está a nadar em dinheiro, investiu apenas 60 milhões de euros em Portugal.
Poderemos estar a assistir ao uso de Portugal como veiculo
para o investimento no Brasil por parte de outros países, nomeadamente da
China, que, como é sabido, tem um acordo cambial com o Brasil, transacionando
em real e yuan, desde 2009. Aliás, em julho de 2012, já há 91 paises (contra 65
de há um ano) a processar as transações com a China em yuan.
O Brasil está sobre-aquecido, em consequência da crise
internacional e do facto de ter sido transformado numa placa giratória de
negócios financeiros com os Estados Unidos e com a China, como que se tivesse
assumido a função de substituir os asiáticos no negócio da dívida americana, perspetivando-se
que substitua os chineses na posição de maior credor, a breve prazo.
Entre 2008 e o fim do primeiro trimestre de 2012 o
investimento chinês na Europa cresceu sete vezes, atingindo valores
astronómicos. No Brasil, cresceu de forma exponencial desde 2010,
inviabilizando uma boa parte da indústria brasileira e contribuindo para que o
Brasil assuma, cada vez mais, uma estrutura de tipo colonial, exportadora de
matérias primas e com a industria, sobretudo a que existe com vocação
exportadora, condenada à falência.
Tanto no Brasil como na Europa e nos Estados Unidos há cada
vez mais indícios da existência de um
conluio dos governos, do sistema financeiro e dos dirigentes do Partido
Comunista da China, no sentido de substituir os pagamentos dos produtos
importados da R.P.C. por títulos de dívida. Ou seja: os chineses são tão amigos
dos ocidentais que lhes fornecem tudo – desde os equipamentos mais sofisticados
até às cuecas de griffe – sem nada
receber, ou melhor, recebendo títulos de divida.
Depois de se ter transformado no maior credor dos Estados
Unidos – o que serve para provar que a aversão dos americanos ao comunismo é
uma estrondosa mentira - a República
Popular da China, que é o único país comunista vitorioso, prepara-se para se
transformar no principal credor dos países da União Europeia e do Brasil, após
ter assumido posições especialmente relevantes em Angola e Moçambique.
Como pode ler-se num texto da Embaixada da
China em Brasília, “para as empresas chinesas, o mercado brasileiro parece
um bolo gostoso, que, no entanto, não é fácil de saborear.”
Eles têm o problema da língua; mas esse será, ao menos em
parte, resolvido com a ajuda de
Portugal, envolvendo entidades e recursos públicos. Ninguém nos ajuda a
aprender mandarim, mas o nosso país, que está falido, como ainda recentemente
reconheceu a ministra da Justiça, esbanja recursos a ensinar aos chineses o que
não ensina aos próprios portugueses.
Os chineses já anunciaram a sua intenção de entrar no
negócio da construição civil no Brasil, começando por instalar as próprias
fabricas de equipamentos. Antes de entrar, a sério, no mercado preparam o
terreno, com recurso
a órgãos de comunicação prestigiados.
É com este pano de fundo que ouvimos os apelos às pequenas
e médias empresas portuguesas para que invistam no Brasil.
Os tempos não são propícios para uma boa parte dos
investimentos, sobretudo na indústria e, especialmente, na indústria da
construção civil.
Em primeiro lugar, porque o mercado imobiliário está
sobreaquecido e não é seguro que não
assistamos, a muito curto prazo, a uma crise semelhante à que se vive
atualmente no sul da Europa.
Em segundo lugar, porque a flecha do aumento do custo de
vida disparou de forma vertiginosa, começando a ameaçar o equilibrio social,
por via da inacessibilidade de muitos cidadãos da classes mais humildes a bens
essenciais, como o arroz ou o feijão, o que se vem traduzindo num
recrudescimento da violência.
Em terceiro lugar, porque o custo do dinheiro (e da dívida
pública, que este ano se deve fixar em cerca de 2 triliões de reais) é
brutalmente mais alto do que nos Estados Unidos ou na Europa. As taxas
de juros mensais nos financiamentos dos particulares e da empresas são
desproporcionadamente altas, por comparação com o que as nossas empresas estão
habituadas a pagar.
Em quarto lugar,
porque o Brasil é um país muito burocratizado, muito dificil e com um
sistema jurídico muito diferente do que temos em Portugal.
Todos os dias vemos anúncios de vendedores de ilusões,
aliciando empresários portugueses para projetos de investimento que não têm,
quase por regra, a mínima viabilidade.
As ofertas são, geralmente, de coisas rápidas, como se os
trouxessem a um feira de pechinchas, de pegar ou largar.
Do mal o menos quando o desastre pára na conta dos
consultores, não se perdendo tudo, porque o Brasil é um país que vale a pena
ser visitado.
Há hoje um número elevado de empresas portuguesas, em
estado de insolvência, porque se tentaram salvar no Brasil, envolvendo, de
forma imprudente, os recursos de que dispunham.
Essas agonizam em Portugal, enquanto os seus filhos, salvas
algumas honrosas exceções, ou morreram nas praias brasileiras ou abortaram mesmo antes da
nascença.
Claro que nem tudo é mau; e que há grandes oportunidades de
negócios, acessíveis a empresas portuguesas, no Brasil, sobretudo em áreas em
que elas possam ser inovadoras ou apresentar padrões de qualidade dificilmente
atingíveis por outros operadores no mercado.
Os pequenos negócios – ou os grandes negócios expansíveis
de forma modular – são os que se nos afiguram com menos risco, pois que podem
ser financiados com poucos recursos e, como soe dizer-se, “com o pelo do cão”.
Restaurantes com sabor português, tasquinhas, pastelarias
de qualidade podem ser boas saidas para quem tenha algum dinheiro, necessário
talento e vontade de mudar para uma terra tão acolhedora como dificil. Qualquer
refeição que em Portugal não custaria mais de 10 €, custa em São Paulo ou no
Rio um mínimo de 70 reais (cerca de 25 €). Um café, que não tem comparação com
o que estamos habituados a beber em Portugal, custa 5 reais (mais de 2 €) e um
pastel de nata, geralmente de qualidade duvidosa, pode custar 8 reais (3,20 €).
A área das novas tecnologias já foi chão que deu uvas,
porque os informáticos são já muito mais caros no Brasil que em Portugal. O
Brasil é um bom destino para os informáticos desempregados, nomeadamente
porque, após as mais recentes reformas da legislação laboral portuguesa,
oferece níveis de proteção no emprego muito mais fortes que as portuguesas.
Mas, tanto nesta área como noutras, o que é interessante é,
justamente, o movimento inverso.
Os tempos são especialmente propícios ao investimento das
empresas brasileiras em Portugal, porque as retribuições das profissões
técnicas especialmente qualificadas são, atualmente, mais baixas do que no
Brasil, as facilidades de despedimento foram alargadas e as empresas ainda
podem beneficiar de apoios e incentivos fiscais se criarem novos empregos.
Enquanto a constituição de uma empresa no Brasil demora
pelo menos 6 meses e não pode funcionar sem um administrador brasileiro ou com
visto válido de residência, em Portugal constitui-se uma sociedade, em termos
de poder começar a funcionar imediatamente, em menos de 24 horas e ela pode ser
administrada por um estrangeiro, mesmo que não residente.
O custo de vida em Lisboa, que é a cidade portuguesa mais
cara, é, atualmente, de menos de metade do de São Paulo, a saúde e o ensino
público são gratuitos, o que reduz, de forma sensível os custos de contexto
associados ao emprego, especialmente dos jovens, tomando em consideração que um
plano de saúde não custa menos de 600 reais (241,00 € mensais) e um infantário
não custa menos de 750 reais (301,00 €). A mensalidade de um curso
universitário numa universidade pública pode custar no Brasil até 3.800 reais (1.530
€) custando em Portugal cerca de 80 €.
Depois de o primeiro ministro Passos Coelho ter aconselhado
os jovens – em que o Estado investiu milhões, com a educação – a emigrar, como se
quisesse transformar o velho País num país de velhos, veio a máquina do Estado
lançar uma campanha para que sejam as próprias empresas a sair de Portugal e a
ir para o Brasil.
Numa recente entrevista
a uma estação de televisão, o comissário do ano, Horta e Costa, iludiu a realidade, afirmando que o dinheiro
aparece, quando a experiência nos tem ensinado que desaparece.
Em setembro e outubro vão realizar-se vários “encontros de
negócios”, no Brasil, para os quais o comissário apelou à deslocação de
empresários portugueses.
A onda do ano de Portugal no Brasil é uma onda muito
parecida com a que marcou a história da fotografia no tempo de José Estaline. O
que parece pretender-se, antes de tudo, é repintar a imagem de Portugal no
Brasil, como este Portugal do ano –
espécie de Beaujaulais Village - fosse um outro que nada tem a ver com os mais
de 20 milhões de emigrantes portugueses e seus descendentes, que representam
mais de 10% da população brasileira.
Em tempos, referindo ao Portugal
moderno, que é esse Portugal falido de que falaram a ministra da Justiça e,
agora, o comissário do governo, houve um agente cultural do Ministério dos
Negócios Estrangeiros que afirmou, em Brasília, que Portugal já não é um país
de padeiros.
Os padeiros portugueses – gente honrada – que faz parte
dessa imagem que se pretende apagar com a imposição Portugal moderno, são, na
sua grande maioria multimilionários, gente que construiu fortunas com suor e
honradez.
São impérios familiares, espalhados por todo o Brasil, em
homenagem ao trabalho, à solidariedade e ao talento empresarial.
Os primeiros sinais dos anúncios do ano de Portugal no Brasil
ofendem essa gente fina, que cresceu por si própria, sem mensalões, como se os quisessem apagar da História.
Muitos deles chegaram ao Brasil, com a roupa numa sacola,
em tempos de falência como os de hoje. Singraram porque se entreajudaram na
compreensão desta fantástica realidade que é o Brasil, em vez de tentarem
entradas perdulárias, como as que conduziram à falência dos pipis de chapéu de
palhinha, empresários de outros tempos, que também vieram ao Brasil, em viagens
de negócios e nos deixaram fabulosos retratos a la minute.
Todos conhecemos as histórias dos brasileiros de água doce,
que aqui delapadiram o resto das suas fortunas, a última vez após o fim da II
Guerra Mundial, quase todos industriais, de terno branco e chapéu da mesma cor,
com um bigode retorcido.
Vieram à procura da árvore das patacas e tiverem que pedir
dinheiro emprestado para regressar.
É importante evitar que isso aconteça de novo e volte a
alimentar o fabuloso anedotário brasileiro.
O ano de Portugal no Brasil nunca o será se quiser passar à
margem (isto é: marginalizar) os mais de 20 milhões de emigrantes portugueses
(de origem até à terceira geração) que o Brasil incorporou como seus filhos,
mas que continuam portugueses como os que aqui chegaram.
São esses sim: os padeiros, os comendadores, todos aqueles
que aparecem nas fotografias dos jornais da comunidade e que os políticos
(geralmente pindéricos ou incultos) tratam como saloios, apesar de eles serem
não a imagem do sucesso mas o próprio sucesso. Gente de respeito, que construiu
tudo com trabalho e que, por isso, se dói, quando sente que a querem apagar dos
retratos.
Poderiam ser esses Senhores (com S maiúsculo) os Mestres da
arte de investir no Brasil e ter sucesso. São muito mais antigos e muito mais
importantes do que todas as PT’s e todos os Hortas, que não conseguiram sequer
manter-se no mercado e deixaram uma péssima memória a todos os consumidores.
Mas não: em vez de os congregar, o Estado afasta-os e
ofende-os, com a propaganda do Portugal
moderno, desenhada em termos que lhes não pertencem.
Lastimável é que, apesar da multiplicação dos naufrágios em
tempos recentes, num momento em que Portugal precisa, mais do que nunca, de
sucesso, que não se alcança sem lucidez e realismo, a máquina da propaganda e
da vaidade prepara-se para, da forma mais irresponsável, para contribuir para o
agravamento dos desastres.
Há uns anos era frequente
ver empresários do Norte de Portugal, que não pagavam salários, gastar
fortunas num conhecido puteiro de Lisboa, chamado Elefante Branco.
Hoje, quando entram em insolvência, viajam para o Brasil,
normalmente em classe executiva, aconselhados por firmas de consultores que
voltam a vender o sonho da árvore das patacas, a troco de umas visitas aqui e
ali e do alojamento coletivo, por conta dos otários, em hoteis de primeira
linha.
O Brasil oferece excelentes oportunidades mas não é o
caixote do lixo de Portugal. Mais dramático é que haja quem tente transformar
este maravilhoso país numa espécie de cemitério de empresas portuguesas.
Era bom que houvesse bom senso e que isso se evitasse.
Miguel Reis
São Paulo, 31/7/2012
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