Quinta-feira, Novembro 12, 2009

Porque é que os jornais atacam os famosos (I)

Uma das coisas mais fantásticas do nosso tempo é a facilidade com que se consegue destruir alguém famoso ou próximo de um centro de poder.
O fenómeno não é novo, mas tem vindo a ganhar um sofisticação progressiva.
A primeira vítima, após o 25 de Abril de 1974, foi Edmundo Pedro. Um homem com um notável curriculum de luta contra o anterior regime, com mais de quinze anos nas prisões da ditadura, figura de topo do Partido Socialista, foi literalmente liquidado, com a conivência do seu próprio partido, após o lançamento na imprensa de notícias que o davam como personagem central de uma rede de contrabandistas.
Veio mais tarde a apurar-se que era tudo falso e que Edmundo Pedro, então administrador da RTP, limitava a sua ação ao cumprimento do dever cívico, que tinha assumido, de recolher as armas que os militares lhe haviam confiado para distribuir às hostes do Partido Socialista antes do 25 de Novembro.
As mais altas personalidades políticas do país tinha conhecimento desse facto e ninguém ousou falar a verdade.
Uns anos depois assistimos à liquidação de Duarte Lima. Uma fonte judiciária comprometida com o seu próprio partido colocou nas mãos de um jornalista de esquerda documentos que pareciam irrefutáveis para a prova de uma série de operações que implicavam movimentos irregulares de capitais e fuga ao fisco. O jornalista, de boa fé, publicou num jornal um conjunto de noticias que implicaram o fim político desse dirigente social-democrata.
Mais tarde tivemos o caso Casa Pia, que afetou terrivelmente o bom nome de Paulo Pedroso e que liquidou profissionalmente Carlos Cruz, uma das mais populares figuras da televisão portuguesa, no momento em que ele se preparava para coroar de glória e de fortuna o esforço que fez para a conquista por Portugal do Euro 2004.
Nenhum dos primeiros dois escândalos resultou em condenação para os acusados.
Edmundo Pedro, em vez de condenado foi absolvidos com louvores e, depois disso, muitos anos depois, como se se arrependesse da injustiça, o país tem feito a justiça de o reconhecer como um exemplo de político impoluto.
Duarte Lima não sofreu nenhuma condenação mas foi obrigado a fazer uma vida discreta, ofendido na sua honra e na sua imagem.
Paulo Pedroso, inocentado pelos tribunais superiores, tem procurado, sem nenhuma hipótese de sucesso, afirmar-se na luta política. Mas nunca ninguém lhe tirará o handicap que resulta do terrível envolvimento naquele estranho processo.
Carlos Cruz, se for julgado inocente, morrerá sem que a sua imagem seja reparada, porque é impossível reparar uma imagem tão marcada pela suspeita.
Que me lembre, houve apenas dois políticos, envolvidos em escândalos mediáticos, que compreenderam o que é a comunicação social. Um foi António Vitorino e outro foi Jorge Coelho.
António Vitorino foi acusado por um jornal de se ter furtado aos impostos numa operação de troca de uma propriedade, em termos que eram, na época, muito comuns e tolerados pelo fisco.
Desmentiu que tivesse fugido ao fisco e demitiu-se, porque percebeu que só o atacavam por ser ministro, residindo o problema nessa qualidade. Deixando de o ser, deixava de ser interessante para a comunicação social continuar o folhetim.
Jorge Coelho, quando alguns jornais suscitaram suspeitas relativamente ao seu ministério em matéria de negligência na conservação da ponte de Entre-os-Rios, foi mais longe e, antes que o acusassem, saiu do governo, usando o mesmo mecanismo de defesa.
As primeiras conclusões que estas observações importam são muito lineares.
Há uma relação permanente de tensão entre a comunicação social, o poder e a sociedade que conduz a que a relevância social que marca os factos que são notícia dependa, em alto grau, do poder dos protagonistas. O mesmo facto que seria notícia, durante dias e dias, se o ator principal é um agente do poder, deixa de o ser se ele deixar de sê-lo.
Dias Loureiro esteve no centro dos noticiários até se demitir do Conselho de Estado. Agora, apesar de lhe terem sido assacadas responsabilidades de milhões de contos, ninguém fala dele, como se já tivesse sido absolvido das acusações contra ele dirigidas.
No caso mediático mais recente, que envolve o nome de Armando Vara, ele foi cabeça de cartaz em todos os jornais e noticiários de televisão até ao dia em que se demitiu de vice-presidente do Banco Millenium. Depois disso ninguém terá interesse em atacá-lo e provavelmente entrará no esquecimento, porque deixou de estar numa cadeira de poder.
É notável o editorial de Pedro Santos Guerreiro no Jornal de Negócios de 4/11/2009:
«E ao fim de seis dias na fritadeira, Armando Vara pediu a suspensão do seu mandato no BCP. Sai pelo seu próprio pé. Depois de lhe terem posto um par de patins. Vara teve compreensão lenta: só percebeu ontem o que para todos era evidente há uma semana… Vara pode queixar-se do tribunal popular dos últimos dias. Da devassa da sua vida pela violação do segredo de justiça. Foi cilindrado, sem hipóteses de defesa, o que o próprio deixou agravar pela demissão tardia.»
Gostei especialmente da expressão «fritadeira» e da lembrança que ela nos traz do campo de concentração do Tarrafal; e não posso deixar de lhe associar a ideia, com que se fica depois da leitura do escrito, do gozo pessoal do jornalista relativamente à tortura a que aquele personagem foi sujeito.
Estamos, claramente, perante jogos de poder e este não é mais do que o gesto mimético de um vencedor, semelhante ao do outro soldado, que vimos há dias na televisão, a cumprir a missão histórica de disparar as duas rajadas de metralhadora que mataram o ditador Nicaolae Ceausescu e sua mulher Elena[1].
O sistema mediático constitui um poder autónomo, por relação ao poder político e ao poder judiciário, conluiando-se como um e com outro, conforme os interesses de circunstância. Mas, para além dos interesses particulares de cada grupo detentor de meios de comunicação, o sistema tem interesses próprios num mercado concreto e real que tem regras que, sendo embora muito próprias, não deixam de ser regras de mercado.
Uma delas, talvez a mais importante, é a de que a notícia é, antes de tudo, uma mercadoria, que deve ser adequada a satisfazer as necessidades dos consumidores.
Para a produção dessa mercadoria associam-se múltiplos fatores. Mas um dos mais importantes é, sem dúvida, o da qualidade dos atores da vida que são alvo da notícias.
Os atores da vida real que são famosos dão muito melhores noticias do que os cidadãos anónimos que, por regra, não são objeto de notícia, mesmo que mordam o seu próprio cão.

[1] Quem não viu pode consultar o vídeo em http://www.youtube.com/watch?v=XKyO2G8kGM0

Quarta-feira, Novembro 11, 2009

Portugal está parado e distraido...

A primeira ideia com que se fica quando se chega a Portugal vindo do exterior, depois de uma mês de distância, é a de que o País está parado e completamente distraído.
A comunicação social diverte-se com estranhas histórias de corrupção, que talvez até não o sejam, para serem meras chacinas de pessoas, votadas por interesses ocultos de alguma oligarquia.
Agora, a vítima principal é um obscuro self-made man da política, que veio do nada e chegou na vice-presidente do segundo banco do país. E o que se discute – e para o país à hora dos telejornais – é uma bagatela de 10 mil euros, menos do que o homem ganha numa semana, recebida de um sucateiro que ele terá apresentado a alguns amigos.
Não alcanço, sinceramente, onde pode estar o crime, num país onde tudo gira em torno das amizades e das influências e onde não há normas que o proíbam.
As pessoas, em Portugal, conquistam lugares não pelo seu valor pessoal, mas pela capacidade que têm de influenciar negócios em razão das amizades que cultivaram. Nessa matéria, nenhuma regra mudou com o 25 de Abril, porque, tendo embora mudado os agentes do poder, não mudou o seu relacionamento com as pessoas nem o relacionamento das pessoas com eles.
Talvez uma das áreas mais escandalosas em que isso se verifica é da do mundo jurídico e, especialmente, da advocacia, por razões que são congénitas ao funcionamento do próprio sistema.
Um desgraçado de um contínuo que tire um curso de direito não pode inscrever-se na Ordem dos Advogados. Mas um deputado pode, passando por cima do mais elementar do sagrado princípio da separação dos poderes e sentando-se, ao mesmo tempo, nas cadeiras do executivo e do judiciário.
É por demais evidente que simultaneidade da qualidade de deputado de uma qualquer bancada parlamentar e de deputado e da qualidade de advogado potencia um conúbio mafioso de uma atividade pública com uma atividade privada e uma traficância de influências que nos choca mas que está institucionalizada.
No nosso mundo, há advogados talentosos, com anos de barra que não conseguem nunca passar da cepa torta de uma advocacia que se transformará, como a agricultura, em arte de empobrecer alegremente. Mas, como contrapartida, descobrem-se todos os dias jovens advogados que, por virtude do sangue, do conúbio ou, simplesmente da pertinância a um qualquer partido político, vêem ofuscado o seu analfabetismo pelas luzes da ribalta e da fortuna, acumulando milhões nos pareceres que vendem ou nos negócios que patrocinam.
Apenas porque estavam lá, porque se situaram, porque pertencem a uma família que o erário alimenta e que nós, contribuintes, pagamos.
É o sistema… Um sistema em que se multiplicam as leis porque legislar virou um negócio obscuro, em que se oculta inclusivamente a autoria, mas logo se anuncia à boca calada quem são os autores, para que eles possam sobre as ditas produzir opiniões. Um sistema em que tudo se mercadeja às escondidas, porque o segredo – até o profissional dos que se escondem sob o estatuto de advogado – é a alma do negócio.
Por isso mesmo, há muito que defendo, o retorno a um quadro de advocacia pública para a defesa do interesse público, devolvendo ao Ministério Público ou a entidade afim a defesa dos interesses do Estado, com completa proibição da contratação de advogados privados para o efeito.
Com isso ganharíamos todos e ganharia a livre concorrência em que muitos de nós ainda acredita.
No que respeita ao que chamam de corrupção – tema por onde comecei – só há um caminho: descriminalizá-la e sujeitá-la ao juízo ético, sobretudo, à reação das instituições, catalizada por uma comunicação social ainda mais ativa, que ouça todas as partes, em vez de ser um mero condutor de recados de um marketing judiciário perverso.

Quinta-feira, Outubro 08, 2009

A lição da Diáspora

Foram ontem publicitados os resultados das eleições legislativas nos círculos da Diáspora.
Não sabemos quantos são os portugueses residentes fora do País.
Mas sabemos, da nossa experiência e do contacto permanente com os que residem fora de Portugal que, por regra, são mais atentos ao desenvolvimento da realidade portuguesa que o cidadão médio residente em Portugal.
É raro encontrar um português residente no estrangeiro que não nos coloque questões de grande atualidade relativamente à política portuguesa e à vida real em Portugal.
Os portugueses residentes no estrangeiro são, pelo menos 4 milhões, segundo as estimativas mais prudentes. Não se sabe, por razões obscuras, quantos têm identificação e passaporte e há números diversos sobre as inscrições consulares.
Sabe-se, porém, que foram enviados aos eleitores recenseados 166.707 boletins de voto, segundo informação da DGAI e que votaram apenas 26.000 cidadãos, com cerca de 3.000 votos brancos e nulos.
A taxa de abstenção foi, assim, de 84,4%.
Importa que nos questionemos sobre as razões de semelhante taxa de abstenção.
Adianto algumas:
a) Não houve notícia, nestas eleições, de operações de «caça ao voto», como as que ocorreram noutras eleições, de forma mais ou menos organizada. O caso mais conhecido ocorreu em eleições precedentes e teve como cenário um jantar no Rio de Janeiro, em que pessoas influentes pediram, publicamente, aos eleitores que lhes entregassem a cartas com os boletins de voto, pois que os administrariam da melhor maneira. Consta que os promotores foram subsidiados em razão dessa ação cívica. É obvio que a inexistência deste tipo de operações influencia a abstenção;
b) As comunidades no exterior amadureceram a têm hoje uma posição mais crítica, relativamente à política portuguesa, em boa parte por influência das gerações mais novas. Já ninguém atura o discurso paternalista e colonialista dos enviados de Lisboa, que só chegam nas vésperas das eleições;
c) Toda a gente hoje entende que os movimentos em torno das eleições na Diáspora têm, essencialmente, a ver com um certo tráfico de influências na disputa de lugares públicos, que vão desde a gestão dos professores até a gestão dos consulados;
d) Toda a gente já percebeu que os partidos políticos têm uma postura que é simultaneamente graxista e humilhante por relação aos portugueses imigrados. De um lado, adulam-nos como se fossem heróis de um passado que já não existe e, do outro, exploram-nos anulando-lhes a mera hipótese de escolherem candidados que, verdadeiramente, os possam representar.
As eleições na Diáspora só podem ser vistas como uma enorme fraude, que merece, justamente, como resposta a abstenção.
Não podendo os emigrantes indicar os seus candidatos, não faz nenhum sentido votar em candidatos impostos que, na generalidade dos casos, nada têm a ver com as comunidades da Diáspora, perante a quais se afirmam como pedintes de um voto sem sentido.
Parece-me indispensável proceder a uma profunda reforma do sistema eleitoral, visando a criação de condições de representatividade efetiva dos portugueses da Diáspora.
Em primeiro lugar, é isdispensável lançar uma grande campanha de recenseamento, que seja simultaneamente de recenseamento da população e dos eleitores, para que saibamos quantos somos e quantos temos direito de votar.
Em segundo lugar, é indispensável criar condições para que os emigrantes possam apresentar candidaturas independentes dos partidos políticos. Não nos parece sequer que se justifique que haja dois circulos eleitorais (um da Europa e outro de fora da Europa) devendo existir um circulo eleitoral único.
Em terceiro lugar, parece-nos essencial que o sufrágios seja uninominal, sem prejuizo de os candidatos poderem apresentar-se sob a legenda de um partido político.
Os partidos politicos não têm qualquer atividade que possa considerar-se minimamente séria nas comunidades da Diáspora. Os seus representantes aparecem esporadicamente, organizam uns almoços e têm por regra, todos, a mesma clientela.
Toda a vida das comunidades da Diáspora se desenvolve ou numa relação direta do indivíduo com a comunidade nacional, por via dos nos meios de comunicação ou no seio da associações, onde, por regra, os conflitos partidários não chegam, por prevenção da crispação.
A defesa dos interesses próprios dos portugueses da Diáspora não passa pelos partidos políticos, que não têm capacidades para os entender.
Passa por questões muito objetivas, relativamente às quais os cidadãos têm diferentes pontos de vista que, porém, não coincidem necessariamente com os dos partidos.
Estes continuam a ter uma visão saloia das comunidades da Diáspora e dos portugueses que, de forma isolada, sem inserção em comunidades locais, integram a nação, sem que esta lhes dê uma atenção mínima ou tenha por eles um mínimo de respeito.
É chocante a ignorância dos nossos políticos, que reduzem a sua visão aos aspetos folclóricos das comunidades do exterior, esquecendo o que elas têm de essencial, que é a maneira portuguesa de estar no Mundo.
Alberto da Ponte, o CEO da Sociedade Central de Cervejas, dizia recentemente numa entrevista:
«Nós não somos um país composto de 10 milhões de habitantes e sim de 14,8 milhões, dos quais 4,8 milhões vivem fora do território português, mas são tão portugueses como os outros. Apesar de continuarem a viver lá fora continuam muito agarrados aos valores e à tradição do seu país e eu pessoalmente acho que tanto a marca “Sagres” como a marca ”Luso” são coisas boas que Portugal tem porque são genuinamente portuguesas».
De Janeiro a Junho de 2009, o saldo das remessas de emigrantes/imigrantes em Portugal apresentou um valor positivo de 1.049 mil milhões de euros, segundo o Banco de Portugal.
Só no Brasil, onde tudo tem sido feito pelos nossos representantes no sentido de ocultar o peso efetivo da comunidade portuguesa, fontes idóneas estimam que os portugueses e os luso-descendentes até à segunda geração (que são titulares de um direito subjetivo à nacionalidade portuguesa) serão no mínimo 20 milhões. resultantes, essencialmente, da reprodução de 1.391.898 emigrantes, entrados no país entre 1884 e 1958.
As autoridades italianas reconhecem que há no Brasil cerca de 4 milhões de italianos, enquanto os portugueses consideram existir apenas 213.203 cidadãos portugueses, incluindo os bi-nacionais, ou, no máximo 500.000 e 700.000, segundo cálculos dos Serviços do Ministério dos Negócios Estrangeiros português.
No mesmo período, os italianos entrados no Brasil (que não são mais prolíferos que os portugueses) foram poucos mais do que nós, mais precisamente 1.507.695.
O primeiro problema da nossa Diáspora reside no facto de os governantes, ao contrário do que acontece com outros países, como a Itália ou o Japão, apoucarem as suas comunidades, procurando que elas se dissolvam nas comunidades de acolhimento e que percam a sua personalidade própria e os vinculos de solidariedade entre si.
É, tragicamente, nestes tempos de networking, uma visão ultrapassada, assente numa lógica catastrófica (e claustrofóbica) dominada por um medo de regresso de uma turba de miseráveis às origens.
É nessa mesma lógica que assenta um sistema eleitoral que, à partida, oculta a realidade populacional, com receio de que se questione a proporcionalidade e, à chegada, impede, na realidade, estes cidadãos de escolher quem legitimamente os represente.
Daí que os 84,4% de abstenções se tenham que interpretar como uma resposta sensata e adequada.
Não há, nesta matéria, uma grande diferença entre o PS e o PSD.
Mas há diferenças importantes.
O PS insiste na substituição do voto por correspondência pelo voto presencial, que ainda agravará mais as dificuldades de votação dos emigrantes.
O PSD defende o voto eletrónico, que constitui, pelo menos um método mais clean de ultrapassagem das questões essenciais e que pode abrir portas a grandes desafios no que se refere ao exercício dos direitos políticos por parte dos portugueses residentes no estrangeiro.
A simples adoção do voto eletrónico implica a aceitação das novas formas de comunicação, com todas as consequências, e faz um apelo às novas gerações que pode sair muito caro a quem olhar para o lado.
Sobretudo quando o cartão de cidadão - projecto cuja conclusão tarda tanto - for uma realidade efetiva.

Quinta-feira, Setembro 24, 2009

Promiscuidade

Aníbal ARaújo - o Zé das Medalhas da última campanha - pôs a boca no trombone.
Cito o que me caiu no e_mail:

«
José Lello e António Braga acusados de negociarem cargos em troca de financiamento partidário
Hoje às 16:25

Os socialistas José Lello e António Braga são acusados de negociarem cargos em troca de financiamento partidário com o empresário português Licínio Bastos que chegou a ser detido no Brasil. O antigo cabeça-de-lista do PS pelo círculo Fora da Europa, Aníbal Araújo, fez estas acusações numa entrevista à TSF.
[ ]

[ ]


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Reportagem de Nuno Amaral com as declarações de Aníbal Araújo sobre este caso

José Lello e António Braga são acusados de negociar cargos em troca de financiamento partidário com o empresário Licínio Bastos, que chegou a estar detido no Brasil.
A acusação partiu do cabeça-de-lista socialista pelo círculo Fora da Europa nas legislativas de 2005, Aníbal Araújo, que também teve a sua campanha financiada por empresário que foi detido após a Operação Furacão que desmantelou a Máfia dos Bingos.
O deputado socialista e o secretário de Estado das Comunidades Portuguesas diziam, em 2007, desconhecer se o empresário financiou o PS, contudo, em declarações à TSF, Aníbal Araújo afirmou que os dois socialistas negociaram directamente com Licínio Bastos.
Ouvido pela TSF no sábado, o ex-candidato socialista que, em 2007, afirmou não haver qualquer promiscuidade no processo, mas explicou agora que decidiu falar por causa da existência de «muito mentira que se diz e da reposição da verdade que não foi feita».
Aníbal Araújo revelou ainda o conteúdo de uma reunião que envolveu o empresário, José Lello e António Braga e onde se falou de assuntos relativos às Comunidades Portuguesas, mas também da «nomeação de Licínio Bastos para a parte das Águas de Portugal e para a Vivo».
O ex-cabeça-de-lista acusou José Lello de oferecer o consulado honorário em Cabo Frio, um lugar da administração da empresa de telecomunicações Vivo e o controlo da Águas de Portugal também em Cabo Frio e que foi alienada em finais de 2007.
Licínio Bastos, que aguarda o seu julgamento em liberdade, chegou a ser nomeado pelo secretário de Estado António Braga, em 2006, cônsul honorário de Portugal em Cabo Frio, uma cidade perto do Rio de Janeiro, acabando por ser exonerado meses depois de a sua nomeação ter sido publicada em Diário da República.
Apesar de lhe terem sido prometidos também os cargos na Vivo e na Águas de Portugal, o empresário acabou por também nunca exercer qualquer destes cargos.
Aníbal Araújo disse ainda que quer José Lello quer António Braga privaram com Jaime Garcia Dias, outros dos implicados na Máfia dos Bingos.
Numa escuta telefónica interceptada pela Polícia Federal brasileira, este elemento que faria os contactos para a extensão do negócio dos bingos e casinos no estrangeiro dizia estar em Portugal e citou os nomes de António Braga e José Lello.
A TSF tenta desde segunda-feira sem sucesso reacções de José Lello e António Braga, tendo apenas conseguido uma reacção do gabinete de imprensa do PS que, na quarta-feira à noite, fez saber que não comenta insinuações delirantes a 48 horas do final da campanha.

ESCUTE A REPORTAGEM EM
WWW.TSF.PT».

Terça-feira, Setembro 01, 2009

A rejeição dos emigrantes

Há umas duas semanas gerou-se uma enorme polémica por causa de um artigo de um obscuro jornalista que escreveu uma crónica sobre os emigrantes, acusando-os de ser um fantasma da miséria e da incultura do antigo regime.
Com o coração ao pé da boca, o rapaz disse coisas que não são politicamente corretas mas que, sobretudo, são terrivelmente injustas.
Não sei se é filho de algum emigrante, mas, mesmo que não o seja, provavelmente, é daqueles jovens que, obnubilidados por uma nova «cultura» tem vergonha dos próprios pais.
Será um ser como tantos outros da nova geração, desses que põem os pais no asilo, alegando falta de tempo para os acompanhar na velhice, não porque o tempo não lhes sobre mas porque, literalmente, têm vergonha deles.
Seja como for, o que o referido jornalista pensa dos emigrantes não é nada de novo. Bem pelo contrário, faz parte de um modelo oficial em que os mesmos são classificados como uns broncos, uns alarves, uns incultos.
Só porque eles vivem no estrangeiro, distinguem-nos de forma negativa dos da mesma igualha que, com menos coragem, cá ficaram, sem reparar no absurdo de que não são diferentes.
A ignorância e o analfabetismo com que a ditadura brindou gerações também deixou vestigios em Portugal.
Só que esses vestígos, à falta de aculturação em sociedades mais desenvolvidas, morreram mais cedo, sob a míngua ou a cirrose.
É, em boa parte, essa mentalidade que justifica uma postura colonialista relativamente aos portugueses da diáspora.
Se por cá tivessem ficado, talvez o seu atrevimento os tivesse conduzido à presidência de autarquias ou à liderança de empresas municipais, onde pautam muitos senhores e senhoras, moldados pelo mesmo sacrificio e com iguais deficiências culturais.
Mas como partiram, porque são, na generalidade, vencedores, gente que tem as suas contas em ordem, gente que acumulou fortuna, o melhor é que não voltem e não perturbem a concorrência.
É uma tristeza que, em vez de catalizar a reunião à Pátria, que envelhece, em vez de se desafiar essa gente a voltar, a investir, a renovar o país, lhe digam que o importante é que se integrem nas sociedades de acolhimento, contando com os políticos portugueses para isso, como se fosse lícita um tão grande ingerência nos assuntos de estados terceiros.
Não passam de parvoice essas promessas eleitorais.
Mas o grave não está na parvoice. Está em que tal insistência na integração nas sociedades de acolhimento não passa de uma afirmação de rejeição como a do tal jornalista que tem vergonha dos emigrantes e provavelmente dos próprios pais.

Quarta-feira, Agosto 12, 2009

PS - continua a mentalidade colonialista

É uma pena que o Partido Socialista continue a ter uma postura colonialista relativamente às comunidades da diáspora.
É essa uma crítica que repito há anos, porque nada se tem alterado, sempre que aproximam as eleições.
De um lado parece que há um eterno medo de que os emigrantes portugueses (que já não são o que eram, porque os portugueses continuam a emigrar) possam ter representantes no Parlamento.
Do outro afirma-se a mesquinhez e a falta de visão que conduz a que se elevem ao lugar de representantes pessoas que, por natureza, não estão aptas a representar.
Continua, no fim de contas, o mesmo vício que Salazar afirmava com mais sinceridade e clareza: o de tratar todas e cada uma das comunidades da diáspora como «colónias sem terra». É a colónia do Rio, a colónia de São Paulo, a de Boston ou a de Paris.
Antes eram os cônsules, nomeados pelo governo, que as representavam. Hoje são ou funcionários partidários de Lisboa ou políticos para quem não havia lugares das outras listas.
Há depois um engodo...
Incluem-se nas listas pessoas respeitáveis, mas que têm longínquas possibilidades de vir a ser eleitas.
Aconteceu antes como Manuel de Melo, da Suiça, pelo círculo da Europa. E acontece agora com Dora Moutinho, da Alemanha e Carlos Ferreira, da Suiça, pelo circulo da Europa e com José Duarte de Almeida Alves, do Brasil, e José Rocha Dinis, de Macau.
Um plantel de luxo, mas em que os candidatos verdadeiramente importantes (os que estão integrados nas comunidades da diáspora e que conhecem o seu pulsar e as suas aspirações) não têm grandes hipóteses de ser eleitos, porque colocaram outros na sua frente.
É cada vez mais urgente acabar com este sistema eleitoral e substituí-lo por um sistema de voto uninominal, em que cada eleitor possa escolher o seu candidato, sendo eleitos os mais votados.
Acredito que uma das principais razões pelas quais o nível do absentismo nos círculos da emigração é tão elevado reside no facto de os eleiotores terem a perfeita noção de que os candidatos elegíveis não são mais do que caçadores de votos, sem nenhumas condições para os representar.
Mesmo que atrelem à carruagem personagens prestigiadas, que toda a gente sabe que não serão eleitas.

Segunda-feira, Julho 27, 2009

Dificuldade de escolha nas próximas eleições

Este sistema eleitoral não serve e carece de mudança urgente.
Não faz nenhum sentido votar em listas de um partido político, quando, na realidade, elegemos pessoas.
Há pessoas sérias na política. Mas também há pessoas que não são sérias e não é possível aos cidadãos escolher entre os sérios e os não sérios.
Para além disso, há pessoas de quem gostamos e pessoas de quem não gostamos. E devemos poder escolher entre os que gostamos e os que não gostamos.
Por isso me parece que a Democracia ganharia com a substituição do atual sistema por um sistema de sufrágio uninominal, em que cada cidadão pudesse votar no candidato que escolhesse, sem prejuizo de os partidos poderem organizar as candidaturas e de cada candidato se apresentar como pertencendo a um partido politico.
Saí do PS em 2006. A carta de demissão está publicada em vários locais, nomeadamente neste blog, não sei bem aonde, pela simples razão de que alguém o sabotou. Podem lê-la em http://joaotilly.weblog.com.pt/arquivo/243914.html.
É no PS que tenho os meus amigos e apesar de não me rever neste Partido Socialista estaria até disposto a votar nele, por ser o mal menor, não ocorresse o caso de a lista do meu círculo eleitoral ser encabeçada por Jaime Gama.
Não tenho nada de pessoal contra esse dirigente mas seria imoral da minha parte votar nele depois das críticas que subscrevi relativamente ao seu comportamento como Ministro dos Negócios Estrangeiros e dirigente do Partido Socialista.
Jaime Gama liquidou, a meu ver sem nenhuma razão, um camarada de partido, o então presidente da Federação da Suiça do Partido Socialista, acabando com a sua carreira de funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros, apenas porque ele emitiu opiniões políticas, no exercício do seu cargo de conselheiro das Comunidades Portuguesas.
O homem só não passou fome porque beneficiou da solidariedade de vários amigos. De resto, foi literalmente liquidado.
Por essa razão singela eu, que fui advogado de Manuel de Melo, nunca poderia votar numa lista em que participasse Jaime Gama.
É o mínimo que exijo a mim próprio em termos de higiene.
Os meus amigos com quem falei argumentam que agindo assim facilitarei a vitória de Manuela Ferreira Leite. Mas isso não razão suficiente para votar num lista que integra uma pessoa que, na minha modesta opinião, não tem dignidade para ocupar um cargo político em democracia, ao menos com o meu voto.
Eu nunca votaria num censor, pela simples razão de que a censura da liberdade de expressão política, não é para mim apenas lastimável; mete-me nojo.
A ser verdade o que vem hoje publicado no Expresso, Manuela Ferreira Leite deveria, pura e simplesmente, ser investigada por gestão danosa.
Diz o Expresso que a agora candidata a primeiro-ministro cedeu ao Citigroup créditos do Estado do valor de 11,4 mil milhões de euros, por valor não informado, tendo recebido até ao momento 1900 milhões (cerca de 16,6%) para além de o Estado ser obrigado a substituir parte dos créditos por outros, do valor de 3740 milhões de euros.
Para além do desbarato a que foram «cedidos» os créditos, o Estado ainda teve que pagar, segundo o Expresso, 37, 5 milhões de euros.
Sendo reconhecida como é a capacidade das repartições de finanças e dos tribunais tributários paga a cobrança dos créditos do Estado, todos pagos com lingua de palmo e alcavalas, este negócio é, obviamente suspeito, sendo importante que se conheça quem foram os intervenientes nele.
Só por isto eu não poderia votar numa lista em que se integra o nome de Manuela Ferreira Leite.
O que me vale é que ainda tenho algum tempo para escolher...