quarta-feira, agosto 01, 2018

OS ACHADIÇOS




            No meu tempo de jornalista no ativos a classe dividia-se entre os repórteres e os pensadores.
            Repórteres eram os jornalistas que noticiavam factos de interesse social relevante.
            Quando os temos eram delicados, o trabalho dos repórteres era burilado – para usar uma expressão de Artur Alpedrinha – pelos redatores, os jornalistas que, nos termos do contrato coletivo de trabalho escreviam “com forma definitiva”.
            Tanto no tempo do fascismo como depois do 25 de abril existiram pensadores; jornalistas pensadores, que assim se chamavam porque repetiam à exaustão a expressão “penso que”.
            Não tenho a certeza mas tenho a ideia de que quem matou os pensadores foi Jorge Nuno Pinto da Costa, numa bela noite em que declarou eu penso de que, para gáudio de autores e atores.
            Foi um golpe de morte em todos os pensadores, como se todos tivessem deixar de pensar.
            A partir daí todos começaram a dizer eu acho que, havendo também alguns que, segundo o mesmo tropismo, acham de que.
            Os pensadores foram, literalmente, substituídos pelos achadiços.
            Achadiços sim, como o Bobby, celebrado assim pelo Rouxinol de Pomares:
 Sábado, 29 de Dezembro, indiferente aos sacrifícios deste ano que agora chega ao fim, está este cão, que adotou Pomares como sua terra. Já anda por aqui há meses. Parece gostar de andar à solta, livre, sem trelas nem coleiras.  O cão é simpático, manso, aproxima-se das pessoas de rabo a abanar à espera de uma festa e de alguma coisa que lhe aconchegue o estômago. Vagueia pelas ruas, é um cão sem abrigo e sem dono, é um cão achadiço, mas pelo aspeto não está mal tratado, sinal de que em Pomares há solidariedade até com os animais mais desfavorecidos. Porque o cão é o melhor amigo do "homem", para mim passou a ser o Bobby Achadiço!”

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