quinta-feira, outubro 12, 2006

Comunicado do Consulado de Portugal em S. Paulo

Tinha decidido evitar, tanto quanto possível, voltar a referir nest blog os acontecimentos do Consulado Geral de Portugal em S. Paulo.
Publiquei a carta dos funcionários, que é por si sintomática.
Não posso deixar de publicar a resposta do Cônsul, agora conhecida através de comunicado:
Comunicado


Não posso deixar de manifestar publicamente a minha enorme indignação com mais uma peça de finíssima manipulação lançada para o caldeirão dos azedumes, infâmias e mentiras que um pequeno grupo de pessoas vêm enchendo e remexendo desde que acabaram as filas de espera no Consulado-geral em São Paulo, há dois anos atrás.

Trata-se de uma carta enviada ao Senhor Ministro dos Negócios Estrangeiros, datada de 28 de Setembro mas tornada hoje pública, cujos 15 subscritores, “funcionários dos quadros” que são também membros do sindicato STCDE, ou, como a si próprios se classificam, os “donos da casa”, se queixam de estar a ser “moralmente assediados”, não só por mim, o que não seria novo, como por uma coligação de “coniventes”, composta afinal por todos os outros, desde os restantes 15 trabalhadores administrativos, dos quais 12 são depreciativamente chamados de “visitas”, isto é, “prestadores de serviço” e “contratados”, até aos agentes de segurança e às empregadas da limpeza, acusados unanimemente de terem “arrogância”.

Ao meu escândalo incontido com esta desconsideração inqualificável pelos que hoje em dia mais contribuem para os níveis elevadíssimos de serviço do Consulado, e cujo comportamento pessoal se caracteriza justamente pela discrição e humildade, soma-se também a perplexidade com o que poderia eventualmente substanciar tais queixas de perseguição:

Perseguidos porque a sua correspondência privada é violada? Não, certamente, pois não se compreenderia que o endereço do Consulado-geral de Portugal em São Paulo continuasse a ser usado para fins privativos.

Porque são deliberadamente filmados? Mas para quê e como, pois se, das dez câmaras que são usadas no Consulado, sete estão no exterior, uma na Sala de Espera dos utentes, e duas no Centro Emissor de BI, das quais uma por dentro e outra por cima da respectiva porta de acesso ?

Porque não podem comunicar-se com o exterior ? Também não, pois cada um dos subscritores da carta tem um número externo próprio de telefone e acesso irrestrito às máquinas de fax e à net.

Porque são más as instalações onde trabalham ? Não, certamente, pois todos os que as conhecem são unânimes em considerá-las muito, muito acima da média da rede consular portuguesa, em todos os aspectos.

Porque têm que lidar directamente com utentes enfurecidos pelos atrasos no processamento dos seus requerimentos ? Não, pois há mais de dois anos que acabaram as filas de espera físicas e administrativas no Consulado de São Paulo.

Porque têm que responder a centenas de perguntas? Ainda menos, pois desde 2001 que uma Central de Atendimento Telefónico as processa, mais de 600 por dia.

Porque são obrigados a trabalhar muito? Não, pois nunca nenhum membro da “gerência” pediu que trabalhassem mais do que as 5,30 horas que a lei estipula, e que são escrupulosamente respeitadas pela maioria dos signatários.

Porque ganham pouco ? Também não, pois, até mesmo em Portugal, é muito robusto o vencimento médio que os 15 subscritores auferem, de 3130 dólares por mês, líquidos de impostos, 14 vezes por ano.

Porquê então ?

Será que a “perseguição moral” de que se queixam advém de ser intolerável conviver na mesma sala com as 12 “visitas”, pessoas esforçadas e motivadas que trabalham voluntariamente mais de dez horas por dia, e amiúde durante o fim-de-semana, para evitar qualquer atraso no processamento dos requerimentos dos utentes, apesar de auferirem remunerações bem menores ?

Ou será que resulta de ser moralmente inaceitável verificar todos os dias a contradição entre a propalada insatisfação dos utentes com o Consulado e o verdadeiro contentamento que a esmagadora maioria teima testemunhar a quem estiver genuinamente interessado em saber ?

Será que se deve a não termos ainda conseguido encontrar o paradeiro da maioria dos mais de 7000 utentes cujos Bilhetes de Identidade e Passaportes válidos estavam no Consulado à espera de serem levantados, porque nunca ninguém se preocupou em perguntar-lhes se queriam recebê-los em casa ?

Ou será por fim que a percepção de “assédio moral” resulta de o número de portugueses que se inscreveram nos Cadernos Eleitorais desde Setembro de 2004 já ter ultrapassado os 6000, depois de 20 nos 4 anos precedentes, tornando cada mais (in)compreensível a “manifestação” de 10 adultos e 5 meninos que teve lugar em frente do Consulado dia 10 de Janeiro, contra o “fecho das portas” e consequentes “dificuldades de recenseamento” ?

Só os próprios poderão responder.

Espero no entanto que a opinião pública portuguesa de São Paulo ajuíze com serenidade, sobretudo aqueles que têm suficiente experiência de vida para poder comparar o que foi com o que é, e concluir se agora o Consulado-geral está ou não mais perto dos utentes ─ os que fomos educados a acreditar serem os únicos “donos da casa”, na qual quem trabalha não passariam de meros servidores, que só se deveriam distinguir entre si pela intensidade do “serviço” que todos foram “contratados” para prestar, com a máxima isenção.

O Cônsul-geral
Em 10 de Outubro de 2006